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Corporate Governance: Os Interesses, a Confiança e o Amor!

Angola /
03 Jan 2022 / 11:36 H.
Naiole Cohen dos Santos
João Dono

Interesse, Confiança e Amor são três pilares da vida de qualquer pessoa e da sociedade. As nossas acções, de alguma forma, são movidas pelos nossos interesses e são à medida da nossa confiança e do nosso amor. Quando temos interesses fazemos mais, quando confiamos damos e recebemos mais, quando fazemos com amor, fazemos melhor.

Se no nosso dia-a-dia estas palavras desempenham um papel crucial, mais determinantes são ainda no mundo económico, no mercado e nas empresas. Porquanto, os laços económicos acabam por ser uma extensão, mais ou menos, complexa das relações pessoais. No mercado, a confiança gera investimentos, empreendedorismos, trocas, créditos, tudo flui, e esta fluição gera mais dinheiro, mais trabalho e, seguramente, mais amor e felicidade colectiva.

Em qualquer mercado, a confiança é a palavra chave. Ela gera e multiplica efeitos positivos e a falta dela tem, consequentemente, efeito inverso. Não pode haver felicidade sem confiança, igualmente, será impossível ter um mercado próspero e fluído sem confiança.

Quando falamos do presente e do futuro, da diversificação da economia, falamos de Governance e falamos de princípios, de regras e procedimentos. Falamos da necessidade de líderes defensores e praticantes do Governance porque como nos recorda Simon Sinek, “A liderança é uma maneira de pensar, um modo de agir e, mais importante, uma maneira de se comunicar”. No âmbito das empresas podíamos agregar à definição de liderança como a capacidade de pensar, agir e comunicar Corporate Governance.

Corporate Governance ou, simplesmente, Governança Corporativa traduz a ideia do como e porquê do Governo das empresas, isto é, como gerir uma empresa, conciliando os vários interesses, adoptando as melhores condutas e práticas. Pode-se reconduzir esta definição a duas perguntas: porque criamos uma empresa? e como devemos gerir uma empresa? O propósito da gestão de uma empresa não pode ser egoísta, focada, apenas, no interesse dos seus sócios. Deve, pelo contrário, servir um propósito colectivo e social. Tendo este propósito, a gestão será, seguramente, uma gestão conciliadora de interesses e de múltiplos benefícios.

Uma definição mais técnica que, entre nós, merece referência é a que resulta do Aviso do Banco Nacional de Angola n.º 10/21, de 14 de julho. O Aviso define Governança Corporativa como o “conjunto de relações, políticas e processos, envolvendo os accionistas, os órgãos sociais e os colaboradores da Instituição Financeira em articulação com os organismos de supervisão, os auditores externos e os restantes agentes dos mercados financeiros, tendo em vista o alcance de objectivos estratégicos, bem como promover a transparência organizacional e efectuar o controlo e fiscalização das instituições, especificando, para o efeito, as funções cometidas às diversas unidades orgânicas e as competências, responsabilidades e nível de autoridade dos diversos intervenientes na instituição”.

Nesta definição podemos encontrar os quatro princípios do Corporate Governance: Transparência, Equidade, Prestação de Contas e Responsabilidade Corporativa. Apesar do Aviso ter como destinatário as Instituições Financeiras, pode, e deve ser, uma fonte de inspiração para todas as empresas angolanas.

A forma como se gere ou se governa uma empresa determina os resultados, o ambiente de trabalho, a sua sustentabilidade e, também, o seu contributo para o desenvolvimento e felicidade da sociedade em que está inserida. Uma boa gestão concilia interesses, gera confiança e espalha amor. A Confiança só existe se os interesses vão além dos interesses dos sócios, passando a ser um interesse social. Recorrendo, uma vez mais, à Simon Sinek:

“A confiança começa a emergir quando temos a sensação de que outra pessoa ou organização é movida por outras coisas que não o próprio ganho”.

O amor ao próximo deve estar no centro da tomada das decisões de investimentos e no dia-adas empresas. Só um profundo amor ao próximo e à sociedade nos permite olhar, em cada momento, para os efeitos das decisões de gestão, sobretudo as que só têm impacto a médio e longo prazo. Hoje temos, seguramente, desafios de maior complexidade e a Cultura de Governance para além de imposição legal, nacional e internacional, é um requisito mínimo de sobrevivência e admissão no mercado, não tendo muito distinção entre o mercado nacional e internacional.

Precisamos de confiança e amor. Em última análise uma sociedade sem confiança é uma sociedade doente. De resto, Freud deixou-nos uma grande alerta –“... em última análise, precisamos amar para não adoecer”.

Os desafios do Governance nos vários sectores da nossa economia merecerão, semanalmente, a nossa atenção, neste jornal.

*Membros da Associação Angolana de Corporate Governance (ACGA)