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Corona não pede carona

China /
17 Mar 2020 / 10:59 H.
Aylton Melo

Cidadãos do mundo e acima de tudo economias, ninguém se lhe escapa, nem mesmo (nem devia ser assim tão surpreendente) a mais volátil das commodities. O coronavírus (COVID-19) não pede carona, mas é transportado gratuitamente, sem pedir autorização. A pandemia torna os seus anfitriões uns emplastros e com fim aparentemente imprevisível.

Ninguém contava com o nível de impacto que o COVID-19 está a causar na produção e consumo em 125 países. E, ainda que seja descoberta uma vacina, em poucos dias, o estrago está feito. Uma disputa geopolítica entre a Arábia Saudita e a Rússia apimentam a queda do preço do barril. Mas, árabes e russos têm conseguido segurar o preço dentro de mínimos aceitáveis.

A prova é que, quando se zangam, o preço desmorona. Rui amendoeira, especialista em assuntos petrolíferos, escreve nesta edição, que o desmoronamento do preço do petróleo põe em evidência uma realidade de que por vezes nos esquecemos: o mercado petrolífero não é ditado, pelo menos no curto/médio prazo, pela lei da oferta e da procura de forma pura, como sucede com outros mercados.

“Se todos os países produtores pudessem extrair e colocar no mercado todo o petróleo que podem tecnicamente produzir, ao preço mais competitivo possível, sem quaisquer limites ou restrições, o preço poderia baixar até um nível extremo”, diz Amendoeira. Por outro lado, a suspensão anunciada, ontem de madrugada, pelo presidente Trump, por 30 dias, dos voos provenientes da maior parte dos países europeus para o território norte-americano é o mais recente golpe na economia global, causado pelo coronavírus.

A indústria aérea é desde há semanas vítima da pandemia. Há cerca de uma semana, a associação internacional que agrega as companhias aéreas, a IATA, anunciou que o impacto do Covid-19 sobre o sector poderia ascender, neste ano, a 63 mil milhões USD, dos quais 17,5 mil milhões USD na Europa, incluindo 4,5 mil milhões USD em Itália, o segundo país mais afectado, depois da china.

Agora os especialistas colocam nas suas análises, este novo factor que catalisou a grande queda no preço do petróleo, particularmente na China onde os níveis de stock superaram à procura, não seria o gigante asiático, um dos maiores consumidores do crude. Além disso, a China é o principal parceiro comercial de muitos países da região, incluindo Angola, por isso, não há margens para optimismos.

O continente africano, como destacamos nesta edição, está com menos de centena e meia de casos confirmadas, mas o impacto imediato, no preço do petróleo e na cotação de minérios exportados por vários países africanos está a pressionar os governos e vai causar (não tenhamos dúvidas) danos económicos e financeiros ainda difíceis de quantificar.