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Banca: a redução de balcões bancários é para manter e aumentar

Luanda /
09 Mai 2022 / 09:45 H.
Daniel Sapateiro

A pandemia e o contexto económico apontam para a necessidade de eventuais fusões bancárias que pode existir ainda alguma consolidação do sistema bancário em Angola. O número elevado de bancos, mais de duas dezenas permite e vai obrigar a concentrações entre bancos para se manterem por um lado, por outro, para crescerem em valor de activos, captação de clientes e depósitos e mais foco no crédito.

A concentração de uma actividade tem como principais motivações as sinergias, nomeadamente, no domínio dos custos operacionais e do aumento da capacidade negocial. Se olharmos para outras realidades, nomeadamente europeias, não parece existir uma limitação a uma concentração superior do mercado bancário angolano, tanto para os bancos como para outro ramo do sistema financeiro nacional: o segurador.

Concentração e balcões de agências bancárias

Estimo que alguns dos cenários de fusão ou aquisição, por exemplo, a junção do banco BIC com o banco BNI ou este último com o Finibanco Angola ou a junção de um dos bancos mais pequenos aos cinco maiores resultaria na subida do indicador de concentração em 4 ou 5 pontos percentuais, resultando ainda assim num valor inferior a 80%.

Defendo ainda que há outros sectores de actividade onde facilmente se identificam níveis de concentração superiores quando medidos pelo mesmo indicador, isto é, peso dos cinco maiores “players”, como as telecomunicações e a energia.

Apesar da redução verificada nos últimos anos, isto é, dois a três anos a esta parte, a banca angolana mantém um número de balcões ligeiramente superior a à literacia financeira e à «bancarização» a população, sendo que para este caso, as empresas estão bem mais «bancarizadas». A questão é a concentração de bancos ao nível da capital Luanda e não tanto noutras províncias, excluindo Benguela e Huíla e mesmo nestas, o número de agências nos municípios mais para o interior sentem o mesmo mal de quase todo o país. A concentração de agências bancárias permite ter uma grande oferta, mais rapidez na demanda dos clientes bancários, contudo, no restante país tal não se aplica, incluindo o banco BPC e o BDA que agora começa a abrir algumas delegações além da sua sede em Luanda.

Então, o porquê da necessidade de reduzir


O número de agências bancárias?

Atendendo a este ‘benchmark’ continua a existir espaço para a redução das redes existentes. Adicionalmente, essa redução coincidirá com o reforço da digitalização da relação bancária que capturará definitivamente as novas gerações de clientes. Alerto para a necessidade de garantir a inclusão bancária, e o investimento por parte das entidades bancárias na educação digital das gerações anteriores, dando o exemplo do programa apoiado pelo Banco Nacional de Angola (BNA): o “Bankita”, mas também por actividades do BNA ao longo do ano nos últimos anos. A transferência do negócio bancário para o mundo digital coloca um desafio que é converter um tipo de negócio que existia nos balcões e que não existe online, que é a correlação muito directa entre os gestores de conta e os clientes. Essa relação muito próxima que era criada ajudava a potenciar a aquisição de alguns produtos, por exemplo, a adesão aos depósitos a prazo, produtos para aforradores mais conservadores e que lhes importa a segurança do investimento, entre outros -, o que agora é mais difícil de potenciar só com informação, newsletters ou mesmo um telefonema. É um novo mundo que se abre e que representa novos desafios e oportunidades, de fazer mais e melhor serviço ao cliente, de mais educação financeira por actividades presenciais pelo banco, pelos seus sites corporativos, nas suas aplicações de telemóveis e tablets e por via de parcerias com instituições públicas e privadas para a proliferação dos serviços bancários e ter sempre o atendimento de excelência.

Na minha opinião uma das soluções possa passar pela criação de espaços mais dinâmicos, com outras valências, que promovam uma proximidade maior entre o cliente e a instituição, não só a nível virtual, mas também física com balcões e quiosques de proximidade, em particular de mercados formais e de zonas de passagem de grandes aglomerados de pessoas.

A eficiência dos bancos (medida pelo rácio de eficiência - ‘cost-to-income’ - que representa custos face a receitas) tem vindo a melhorar nos últimos anos e os bancos têm ainda um caminho para melhor este rácio, em particular o banco público BPC.A melhoria em 2020, por exemplo, deve-se, sobretudo, ao produto bancário, já que os custos operacionais reduziram-se apenas ligeiramente, pelo que os bancos ainda precisam de reduzir gastos nos próximos anos.

Estes indicadores mostram que há margem e necessidade de descer os custos, prevendo que o sector continuará a fazer reestruturações incluindo redução de trabalhadores e balcões nos próximos anos.

A necessidade de reduzir custos é desde logo visível na menor afluência de clientes aos balcões. Haverá também necessidade de, face à evolução tecnológica, alterar o perfil do empregado bancário, contratando os bancos mais gente ligada à inteligência artificial.

Temos conhecimento de reestruturações dos bancos e que alguns desses processos são plurianuais. São constituídos por supressão de empregos e balcões. Este processo é irreversível e mais adiante não terá o reverso para o tempo de emprego pleno na banca e tal também se aplica aos serviços desempenhados nos serviços centros dos bancos. A hora é de optimizar e fazer bem as reestruturações, para que no fim, os clientes tenham o serviço que têm direito, com rapidez e segurança e os trabalhadores e os futuros ex-trabalhadores possam sair em paz social, com os seus direitos liquidados ou além disto e possam encontrar rapidamente projectos profissionais alternativos.