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As fragilidades macroeconómicas em África

Angola /
09 Ago 2019 / 09:57 H.
Fausto de Carvalho Simões

De uma forma geral as incidências macroeconómicas prejudiciais à actividade Empresarial em África são as deficientes políticas monetária, de crédito, aduaneira e fiscal, que devem ser corrigidas.

Entretanto continua a ser necessário o reajuste dos programas curriculares, particularmente do ensino primário e técnico-profissional, esse adaptado às necessidades das Empresas. A Segurança Social e as questões ligadas a Saúde estão longe de assumir contornos que possam satisfazer os trabalhadores e empresários e a política de nomeação de quadros para as empresas públicas também deve constituir matéria para reflexão, necessitando de maior transparência. São necessários programas reais de recuperação de infra-estruturas, de assistência técnica empresarial, de políticas de incentivo e desenvolvimento à tão pretendida exportação.

Os Estados africanos devem ainda contribuir para a minimização da burocracia, do tráfico de influências e corrupção (que normalmente “apadrinha” a incompetência). Contudo, a chave para a solução de problemas dessa índole passa inevitavelmente pela consolidação da democracia.

Só a pluralidade de ideias e o refinamento da liberdade de expressão permite reduzir esses malefícios sociais.

Em suma não é possível a transferência em jeito de cópia, de modelos de outras partes do globo para a África. Muitos analistas, incluindo o FMI e o Banco Mundial, consideram que as economias africanas podem melhorar; tudo está dependente da nova mentalidade com que encararmos as nossas economias. Constituem, entretanto ainda factores de preocupação, o sub-dimensionamento do sector privado, a fragilidade das oposições políticas, deficientes infra-estruturas e em alguns casos a contínua falta de transparência.

Por razões que se prendem com o nível de desenvolvimento de cada país será errado querer copiar um ritmo e um caminho de crescimento semelhante ao dos países desenvolvidos. Os Estados africanos deverão antes criar as premissas elementares para sustentação do seu desenvolvimento nomeadamente:

a) Intervir de uma forma consequente na gestão da economia, pelo que terão de começar, com o primeiro e essencial passo, na recuperação económica de cada sub-região, em geral;

b) A necessidade da “consequência” que referíamos no ponto anterior baseia-se principalmente numa estratégia de desenvolvimento de longo prazo que obtenha, se possível, um vasto consenso nacional de forma a assegurar a sua prossecução ao longo dos tempos sem estar sujeita a grandes oscilações com os ciclos eleitorais;

c) Que a busca deste consenso, também possível em África, se faça com um maior uso da tradição, bem africana, da sua construção através do espírito colectivista das populações, da acção dos agentes da política económica e por arrastamento do funcionamento do processo económico em geral;

d) Que qualquer que seja a estratégia a adoptar em África, nela caberá um papel fundamental o investimento directo estrangeiro e esquemas de associação com os capitais externos (por exemplo, através de subcontratos) que permitam colmatar não só a deficiência em capital industrial que se verifica em África, como a necessidade de tecnologia moderna e de savoir faire/know-how no domínio da comercialização da produção nacional no mercado internacional;

e) Que uma das componentes mais importantes da estratégia a adoptar seja o rápido reforço da quantidade e, principalmente, da qualidade dos recursos humanos, nomeadamente os que terão um papel importante no domínio da gestão macro e micro económica dos países.

Assim o entendam os governos destes e a comunidade internacional, apostando num aumento muito significativo do esforço do capacity building em África.

É chegada a hora dos africanos darem as mãos e unirem-se em torno da necessidade urgente do crescimento do nosso continente. Só com esse espírito de unidade e de trabalho abnegado será possível melhorarmos os níveis de crescimento das nossas Economias, das nossas empresas e consequente da qualidade de vida das nossas populações.

Fausto Simões é professor catedrático da UAN e coordenador da Comissão Directiva da Ordem dos Economistas