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As criptomoedas/moedas digitais tornar-se-ão as moedas do futuro e em África?

Luanda /
05 Set 2022 / 12:20 H.
Daniel Sapateiro

Com o decorrer dos anos neste século e milénio tem havido uma ascensão no assunto das criptomoedas (moedas digitais), desde a fundação do Bitcoin em 2008 com recurso ao sistema de transacções chamado Blockchain, fez com que houvesse mais confiança da população no mercado de criptomoedas e abordando importantes assuntos como a descentralização. Por outro lado, a moeda digital simboliza a transformação do dinheiro físico para as contas bancárias e cartões de crédito, convertendo o dinheiro físico para o dinheiro digital. Contudo, cada uma tem sua função, uma serve como meio de troca e a outra como investimento.

Em 2008 surgiu a criptomoeda chamada Bitcoin. Com uma proposta de substituir o dinheiro físico por uma moeda digital, e sem a necessidade de ser controlada por uma instituição financeira central para realizar operações. A plataforma Blockchain funciona como um livro-razão, as transacções são protegidas por criptomoedas, validadas pelos mineradores (grupo de pessoas que validam e gravam as operações no Blockchain). Esse recurso foi executado exactamente para moedas digitais, dando às operações o poder de transacções seguras, rápidas e anónimas. A evolução do Bitcoin entre 2008 e 2018 não atinge a sua principal proposta que seria substituir o dinheiro físico, apesar do ampliamento referente a aceitação e utilização dele. O Bitcoin além de ser a primeira criptomoeda a sobressair-se, também foi a criptomoeda a atravessar a fronteira da deep web (ambiente online, submundo do crime e sem a presença governamental). Para as criptomoedas tornarem-se uma moeda legal para utilização, sem que a população obtenha medo, ela teria que apresentar três funções fundamentais, que seriam elas: unidade de conta, meio de pagamento e reserva de valor. Nesse âmbito seria uma “moeda digital” do Estado.

As criptomoedas são altamente voláteis, sendo incapazes de ser reserva de valor, pois o seu valor não mostrou estável por um longo período, pelo contrário, o valor da criptomoeda se altera de acordo com a oferta e demanda, ou a perspectiva de valorização no futuro, se tornando um ativo especulativo. Contudo, alterando esse ativo especulativo, para moeda estatal, estaria indo contra o conceito principal dessa criptomoeda.

As criptomoedas não são efectivamente ‘moeda’ e nem ao menos ‘instrumentos financeiros’, ainda que se propusessem quando de sua criação a substituírem a moeda emitida pelos Estados e os seus bancos centrais e pelos bancos nas suas três funções. Usando o Bitcoin como exemplo, essa criptomoeda não é reserva de valor, já que seu valor não se mostrou estável ao longo do tempo. Não é universalmente aceite como meio de troca, e também não é unidade de conta. Bitcoins têm elasticidade de produção baixa, uma vez que dependem de “mineração”, mas a sua elasticidade de substituição é alta, sendo a sua demanda facilmente substituída entre as demais criptomoedas e também entre outros activos.

As moedas digitais e virtuais são as novas formas de dinheiro que existem electronicamente, o surgimento delas abordam um novo contexto na sociedade, sendo uma tecnologia nova, elas têm várias áreas para serem exploradas, como o surgimento de redes descentralizadas perante a economia e o modo que ela trabalha digitalmente. Por exemplo, na China, pouco se usa o dinheiro físico. O dinheiro digital é uma realidade. Ambas estão impactando cada vez mais a sociedade, no entanto, elas têm conceitos diferentes, a moeda digital é a forma que o dinheiro físico pode ser transformado para contas bancárias, cartões de crédito e dentre outros (digitalmente), exigindo a forma de conversão para o dinheiro físico para o dinheiro digital. Existe uma diferença gritante entre elas, sendo o comércio que elas actuam, sendo a moeda digital a lidar com o comércio tradicional trabalhando com redes gigantescas, com responsáveis legais como os bancos internacionais, governo de países. O dinheiro virtual, inova sobre esse quesito; não necessitando de alguma rede central para fazer negócios, existindo transações em comunidades pequenas na internet que dentre elas seguem suas próprias jurisdições de leis, trabalhando apenas com a autoridade de sua comunidade.

Em África em geral e em Angola há um longo caminho a fazer, mas o campo é fértil. A maioria da população é jovem e com mais ou menos carência, sabemos que os jovens têm acesso a telefones, sejam eles básicos para acesso a “mobile Money” (dinheiro virtual nos telemóveis) ou via plataformas mais complexas como a compra de divisas, moedas digitais, etc. Se o caminho é longo e cheio de possibilidades, há um se não que é a escassa educação financeira. Este deve ser o pilar de toda uma estrutura para a escolha de que dinheiro podemos e devemos usar de acordo com o perfil de cada um: conservador, investidor que gosta de arriscar, aforrador, com visão de investimento de curto ou de médio/longo prazo. É aqui que está o segredo de usar os melhores meios de pagamento.

Com a evolução da tecnologia e popularização das moedas digitais e criptomoedas, elas tornaram-se expressões comuns no nosso vocabulário, mas o que muitos não sabem, é que elas não são sinónimas, pelo contrário, toda criptomoeda é uma moeda digital, mas nem toda moeda digital é uma criptomoeda. O nome “moedas digitais fiduciárias” não deve ser tão comum, mas acredite essa moeda é utilizada no seu dia-a-dia. Cédulas de dinheiro, cheques, saldos em conta, títulos de crédito, são formatos de uso da moeda fiduciária. Cartão de crédito/débito, carteira digital, transferência online, PIX também são formatos de uso de moeda fiduciária, porém de uma forma digital, conhecidas como as moedas digitais, intangíveis, pois não possuem uma forma física do seu valor, apenas em formato online, logo não podem ser consideradas como reserva de valor. Os bancos centrais têm reservas de barras de ouro e lingotes de ouro (barras de ouro de 12 kilogramas) como reserva numa estrutura estratégica e lógica de política cambial e monetária de uma moeda nacional. Isto acontece com as famílias quando guardam peças de ouro. Além disso, as criptomoedas não são regulamentadas, e nem aceites em qualquer lugar como meio de troca, tornando a mesma uma moeda que está longe de se tornar a principal forma de pagamento da sociedade contemporânea.

Já imaginou existir a união das duas moedas: fiduciárias (o Banco Nacional de Angola, por exemplo, emite cédulas de dinheiro (notas e moedas físicas), ao emitir esse dinheiro, ele está a repartir essa com conta os agentes económicos, seja Kwanza, ou ter nas suas reservas moedas estrangeiras: divisas, tais como Real, Dólar, Euro, entre outras moedas emitidas pelos seus governos. O valor da moeda fiduciária depende do poder do seu Governo, ou seja, as transacções bancárias, os impostos e o comércio, precisam aderir a este padrão.

Imagine um cenário quase ideal de existir uma moeda híbrida, uma criptomoeda aceite como forma de pagamento para algumas negociações, um exemplo seria: aquisições de imóveis, empresas e investimento, sendo controlada por uma instituição regulamentada.

A moeda é uma «criatura» do Estado pois a mesma exige o pagamento de tributos com a moeda que o mesmo emite. É como se todos os agentes “devessem” para o Estado, e a moeda emitida é aceite sem contestação. As criptomoedas são inaptas, por conceito, para exercer a função de bem público, comprometendo o sistema de pagamentos. A inexistência de noção de bem público, impossibilita que as criptomoedas garantam liquidez em períodos de queda na economia real e pode arruinar a riqueza privada pela falta de activos tangíveis e reservas de valor. Alguns colegas economistas chamam às moedas digitais uma forma complexa e «mascarada» do Esquema de Pirâmide de Ponzi (Charles Ponzi). Em contrapartida, a moeda digital está cada vez mais a ganhar o seu lugar no mercado financeiro e a evoluir. A moeda digital diferente da criptomoeda é regulamentada por uma instituição financeira e controlada pelo Banco Central. As transacções online/digital, feitas por cartão de crédito/débito, carteira online são devidamente registradas e acompanhadas.

Concluo que as criptomoedas não se tornarão as moedas do futuro, mas as moedas digitais sim, já sendo bastante utilizadas desde 2008, e evoluindo tecnologicamente. Como sugestão de uma moeda bem atractiva para o mercado financeiro e podendo gerar bastante liquidez na economia, poderia ser criada uma moeda híbrida, uma criptomoeda aceite como forma de pagamento para algumas negociações, como: aquisições de imóveis, empresas e investimentos, sendo 15 controlada por uma instituição financeira regulamentada, voltada apenas para transacções dessa moeda.