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Apontamentos de uma grande conferência

Angola /
24 Jun 2019 / 12:21 H.
Rui Amendoeira

O estado actual da indústria petrolífera angolana, e as perspectivas de futuro, foram o tema de uma grande conferência internacional realizada em Luanda na passada semana. Tendo participado nos três dias do evento, deixo as minhas impressões do mesmo em jeito de notas soltas.

• Primeiro facto a assinalar: a conferência foi um inegável sucesso. Cerca de 1700 participantes, um contigente estrangeiro significativo, representando dezenas de empresas e outros players da indústria do petróleo e gás, e debatendo temas interessantes, actuais e estimulados por palestrantes de primeira linha. As reformas realizadas no sector nos últimos dois anos, e as medidas tomadas para promover a exploração de novos recursos, tiveram repercussão no mercado, dai o interesse de investidores actuais e potenciais. A conferência foi um barómetro desse interesse e o resultado foi muito positivo.

• No mundo actual, os responsáveis governamentais têm que se empenhar em “vender” o respectivo país e atrair investimento, sobretudo estrangeiro. Isso faz-se directamente, presencialmente, tendo disponibilidade para contactar e convencer os investidores, um a um se for preciso, num processo contínuo. Foi isso que se passou na semana passada. Desde o Presidente da República, que abriu os trabalhos, passando pelo Ministro e Secretário de Estado do sector, o presidente da Agência Nacional do Petróleo e Gás, o PCA da Sonangol, entre outros, os mais altos responsáveis públicos do sector estiveram permanentemente presentes na conferência. Esta disponibilidade, que nem sempre existiu no passado, sinaliza a importância que o Executivo confere à reforma e revitalização do sector petrolífero e conforta as companhias petrolíferas e os investidores.

• Parar e inverter o declínio da produção de petróleo. Este é o desafio de Angola repetidamente anunciado na conferência. Em pouco tempo, Angola perdeu mais de 400 mil barris diários de produção, o mesmo é dizer vários milhares de milhões de dólares que desapareceram do orçamento anual do Estado. Existe a consciência de que não há uma solução mágica e única para estabilizar a produção e, se possível, incrementála. Como se diz na estratégia militar, é preciso atacar em várias frentes e utilizar toda a artilharia disponível: fazer exploração secundária nos campos em produção, explorar campos marginais, aumentar o nível de recuperação das áreas maduras, diminuir as paragens de produção não programadas, incrementar os níveis de rentabilidade através da partilha e optimização de meios, da unificação de áreas, etc.. A batalha vai ser travada barril a barril e todos os barris contam.

• A indústria petrolífera angolana é uma espécie de Liga do Campeões onde, praticamente, só jogam as grandes companhias internacionais. As maiores vão continuar a ter um papel central no futuro, e delas depende em grande medida a realização (ou não) do objectivo antes enunciado, porém terá de ser aberto espaço para as companhias mais pequenas ou independentes. São estas que irão explorar os recursos que eventualmente não atingem os (exigentes) padrões de rentabilidade das companhias maiores. Não é por acaso que a conferência atraiu vários representantes de companhias de menor dimensão, muitas desconhecidas do grande público. Há companhias independentes que operam na região ou noutras partes de África (Guiné Equatorial, Congo, Gana, Camarões, Sudão etc) e que aguardam a oportunidade certa para entrarem em Angola.

• O preço do petróleo foi um tema praticamente ausente dos debates durante a conferência. Ninguém se dedicou a fazer previsões sobre a evolução futura do preço, nem sequer se teorizou sobre o mercado, a oferta e a procura, os factores geopolíticos e económicos e outros assuntos que normalmente ocupam os analistas. É um bom sinal. Angola não tem influência no preço do barril e por isso não deve perder muito tempo a especular sobre a matéria. O foco é estabilizar e aumentar a produção. O preço será o que for.

• A nova estrutura organizativa do sector petrolífero angolano exige um trabalho árduo para ser plenamente concretizada e implementada. Na prática, a transição vai ser feita gradualmente, e não deixarão de surgir dificuldades, contratempos e até obstáculos. Contudo, o primeiro objectivo que consiste em assimilar os elementos estruturantes do novo modelo, e cada entidade assumir o seu papel nesse modelo, parece estar atingido.

Durante a conferência, e para o exterior, foi passada a imagem de que cada entidade – e nomeadamente a ANPG e a Sonangol – sabe qual é a sua função e as suas responsabilidades na nova estrutura. É também um bom sinal. Se há risco que Angola não pode correr é o de existir qualquer desarticulação na implementação do novo modelo que atrase a recuperação do sector ou comprometa o objectivo maior de aumentar o nível de produção do país. No decurso da conferência foi anunciado o lançamento do concurso, a partir de Outubro próximo, para atribuição dos primeiros blocos no quadro do programa de licitações aprovado. Esse vai ser o primeiro grande teste à estratégia do Executivo de recuperação do sector. A aferir pelo sucesso da conferência, as perspectivas parecem ser optimistas. Mas é preciso não esquecer que os termos e condições que forem estabelecidos para a adjudicação desses blocos serão decisivos para atrair as companhias e os investidores estrangeiros. Para lá das proclamações de interesse, no final do dia os investidores, sempre pragmáticos, vão fazer as suas contas e tomar decisões frias e racionais.