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A dívida pública dos EUA e a China

China /
01 Ago 2022 / 11:41 H.
Daniel Sapateiro

A quota da China na dívida dos Estados Unidos da América (EUA) tem vindo a cair para o seu nível mais baixo em 12 anos, sendo que a redução drástica é impulsionada pelo receio de mais sanções de Washington contra a Rússia.

As obrigações do governo americano geravam, tradicionalmente, um grande interesse de mercado graças ao “retorno relativamente sem risco” da moeda nacional, o Dólar. Contudo, a tendência actual mostra que alguns dos principais investidores na economia dos EUA, como a República Popular da China, procuram reduzir as suas participações nos EUA e as mesmas estão ao nível de um um trilião de Dólares, ou seja, ao nível do Produto Interno Bruto de todo o continente africano e quase a Europa ocidental.

Embora o gigante asiático continue a ser o segundo maior detentor de obrigações americanas, em Maio de 2022 a quota da China caiu para 980,8 mil milhões de USD, de acordo com dados do Tesouro americano. O valor caiu abaixo de 1 trilião de USD pela primeira vez desde 2010.

A maior parte da dívida nacional dos EUA continua a ser detida pelo Japão, com mais de 1,2 triliões de dólares, enquanto o Reino Unido, a Suíça e as Ilhas Caimão seguem a China com participações de 634 mil milhões, 294,1 mil milhões e 293,2 mil milhões de dólares, respectivamente.

No total, a dívida do país americano situa-se em cerca de 30,5 triliões de dólares, um aumento de quase 1 trilião de dólares desde o final de 2021, quando se situava abaixo dos 30 triliões de dólares, notas de Economia do Comércio baseadas em dados do Departamento do Tesouro.

Segundo o contexto actual geopolítico, militar na Ucrânia e Rússia, as sanções dos EUA/NATO à Federação Russa, e os problemas do acesso e do preço da energia, tem gerado uma taxa de inflação galopante nos EUA, ao nível de 9%, recorde de 40 anos e que tem merecido por parte da Reserva Federal Americana (FED) uma atitude progressista de aumento das taxas de juro nos EUA, incluindo nesta própria semana, com um aumento de 0,75%, o quarto (4º) aumento neste ano de 2022. Este aumento é igual em percentagem ao aumento decidido pelo Comité de Política Monetária da FED. Actualmente, as taxas directoras de referência estão no intervalo entre 2,25% e 2,5%. Contudo e já fazendo um “outlook” (previsão), estando ainda previstos mais dois aumentos até ao final do ano para fazer face à inflação, que em junho atingiu 9,1%.

Além disso, o Comité continuará a reduzir as suas participações em títulos do Tesouro e dívida de agências e títulos garantidos por hipotecas de agências, tal como descrito nos planos de redução do balanço da Reserva Federal que foram emitidos em Maio.

O controlo acérrimo da inflação tem levado a estes quatro (4) aumentos e outros que virão de forma a «congelar» temporariamente as pretensões das famílias e das empresas não financeiras em aumento do recurso ao crédito bancário e hipotecário.

Vale a pena notar que esta não é uma nova tendência, uma vez que a China começou a retirar o seu dinheiro dos activos dos EUA durante o mandato do antigo Presidente dos EUA: Donald Trump, que ameaçou congelar as reservas chinesas no país. “No entanto, Pequim não pode vender todos os lucros de uma só vez, porque isso provocaria o colapso do mercado bolsista global e conduziria a outra crise económica global.

A decisão de reduzir a participação é também influenciada pelo aumento da inflação nos EUA, que atingiu 9,1% em Junho e torna os investimentos estrangeiros menos rentáveis no contexto da subida das taxas de juro. Os EUA ao aceitar fundos do estrangeiro, o país simplesmente ganha rendimentos e, com o tempo, devolve o dinheiro desvalorizado.

No entanto, as restrições financeiras impostas por Washington a Moscovo sobre a sua operação militar na Ucrânia forçaram a China a acelerar os seus esforços. Pequim está a acompanhar de perto a situação em torno das sanções anti-russas de Washington, pelo que as autoridades chinesas estão a observar esta situação proximamente, pelo que receiam medidas semelhantes relativamente aos seus bens nos EUA.

Desde Fevereiro deste ano, a Casa Branca ameaçou repetidamente Pequim com duras represálias se o país prestasse assistência à Rússia. Esta semana, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano Ned Price reiterou que Washington tinha deixado claro que qualquer ajuda da China que ajude Moscovo a “escapar a sanções sem precedentes” terá um “custo elevado”, palavras que a nação asiática rejeitou como “inaceitável”.

Além disso, os funcionários chineses receiam que Washington possa dar um passo semelhante no caso de outro tipo de crise, tal como um conflito militar na região.

As sanções anti-russas são uma “bandeira vermelha’’ para a China e outras nações que podem não estar politicamente alinhadas com os EUA na Europa. Os chineses compreendem que o sistema SWIFT pode ser utilizado como uma arma política para os prejudicar economicamente. A China continuará a afastar-se da dívida dos EUA lenta e firmemente para eliminar riscos.

E quanto a outros países «clientes» da Dívida Pública americana, como a Arábia Saudita e outras nações islâmicas também são susceptíveis de começar a retirar fundos da economia dos EUA, uma vez que as sanções anti-russas de Washington «minaram» a confiança na bolsa de valores dos EUA e no Dólar. E aqui deixo a questão para os meus colegas economistas: continua a ser o Dólar um activo de refúgio e de um dos investimentos mais seguros do mundo?

Quanto à Europa, eu vou debruçar-me na semana que vem, pois para a Europa vendemos petróleo bruto e temos vindo a dirigir a nossa Dívida Pública, pelo que merece a nossa melhor atenção.

* Economista e docente