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A cadeia do valor do petróleo

21 Jan 2020 / 08:23 H.
Isaac António

O petróleo tornou – se num produto valioso por ser uma das principais e mais rentáveis fonte de energia utilizada no mundo hoje. Ao mesmo tempo que a sua distribuição encontra – se distribuída irregularmente quer seja em quantidade e em qualidade o que permite com que as empresas operadoras no ramo, possuam diferenças na estrutura de custos de produção entre elas, no mesmo mercado. Como consequência, nota-se a geração de altas rendas e vantagens competitivas na indústria de petróleo e gás em todos os segmentos, as quais podemos chamar de “Cadeia de Valor do Petróleo”.

Como sabe, uma cadeia de valor representa o conjunto de actividades consecutivas desempenhadas por uma organização desde as relações com os fornecedores e ciclos de produção e de venda até ao consumidor final. A Cadeia de Valor do petróleo engloba:

1. O Upstream (exploração, produção do petróleo e gás natural) — é o segmento da Indústria Petrolífera com maior retorno no Capital empregado e é tradicionalmente o sector com maior ganho por barril. A Pesquisa e Produção necessita ano após ano de investir somas substanciais para continuar a manter os níveis de produção pois muita das vezes o ratio do declínio dos campos é acelerado. As em presas do ramo podem gerar de 5 mil milhões USD a 10 mil milhões USD em receitas líquidas por ano. No entanto, os maiores riscos do sector são: volatilidade do preço, geopolítica e risco ambiental.

2. O Midstream — a parte da cadeia de valor que envolve transportação, armazenamento do petróleo bruto e seus derivados quer sejam por navios, comboios, camiões e pelos dutoviários. Em termos de perspectivas do cash flow, é um sector que tende a ser menos volátil. As companhias americanas no sector Midstream têm nos últimos anos experienciando ganhos substanciais e um dos catalisadores para este resultado é nada mais nada menos o aumento da produção dos hidrocarbonetos advindo das novas explorações. Independentemente do mercado e região a que se encontram, as empresas aqui geram aproximadamente 12 mil milhões USD por ano.

3. O Downstream — a parte da cadeia de valor de petróleo referente à refinação, distribuição e revenda de produtos derivados do petróleo. Não obstante ser um sector cíclico e de negócios marginais muitas companhias de sucesso com grande presença no Downstream conseguiram combinar inúmeras receitas no sector e gerar retornos para Pesquisa e Produção (Upstream).

Enquanto consumidores de derivados de petróleo é uma vantagem produzir localmente. Já que o sector é responsável pelo abastecimento de derivados, quer sejam em estações de abastecimento quer em garagens de manutenção e ainda para as grandes transportadoras/distribuidoras de bens e serviços numa economia global. Como investidor, o Downstream representa oportunidades únicas. Para além de gerar grandes somas em receitas operacionais, geram muito cash flow. O Downstream joga um papel preponderante para um portfólio diversificado aos investidores. É daqui onde “brota” a grande Indústria Petroquímica que é responsável pela criação de inúmeros utensílios usados no quotidiano. Podemos ter como exemplo a importância da Indústria Petroquímica no mercado norte americano pelo papel que desempenha no fornecimento de energia e no aumento da procura do mesmo, tornando-se nos últimos anos uma das indústrias de rápida expansão. A indústria Petroquímica suporta cerca de 10 biliões USD do total de valor acrescido à economia norte americana, representando 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Com as reformas em curso no sector Petrolífero Nacional e com o interesse demostrado pelo aproveitamento da cadeia de valor do sector petrolífero, é salutar que olhemos para os países com estruturas definidas, quer sejam integradas ou não e aprendermos de forma eficaz como implementar estas mudanças. A vontade de investir em Downstream não deve ser levada de uma forma isolada.

Se por um lado há projectos de construção de refinarias já identificados, por outro tem de existir um sector intermédio que vai transportar e ou armazenar o crude da fonte de Exploração e Produção às refinarias e destas aos Consumidor final e aos pontos de comercialização; assim podemos sentir a agregação de valor na economia local advinda destes investimentos. Outro ponto importante é a criação de postos de trabalho, que para além de reduzir a taxa de desemprego, o Estado terá a sua base de tributação alargada com acréscimo de contribuintes fiscais, não nos esquecendo de que as empresas no sector de Petróleo e Gás têm taxas e impostos superiores a qualquer outra empresa fabril. Uma outra vantagem por exemplo, sendo a manutenção das refinarias por vezes sazonais, a Holanda e Singapura são países que em períodos de “grandes paragens” suportam grande parte do refino do mercado nas regiões onde se encontram por possuírem estruturas preparadas para o efeito, o que estimula muito os mercados locais, pois o número de prestadores de serviços que dão suporte é elevado. Em conjunto, estes processos transformam os recursos petrolíferos num valioso produto final pelos consumidores industriais e privados. Ao longo dessa mesma cadeia vemos que estão todas interligadas. Esta ligação pode ocorrer entre diversas empresas ou mesmo entre países produtores circunvizinhos.

Por causa da “Síndrome Holandesa” muitos países produtores que geram grandes lucros nas suas vendas de crude, encontram muitas dificuldades para manter uma economia diversificada e acabam em estado crítico quando os recursos naturais se tornam escassos ou menos acessível. Uma das soluções para evitar essa “Síndrome” é por vezes, politicamente difícil de implementar, ou seja, usar as receitas provenientes do petróleo e criar contas em offshore em moedas Internacionalmente transaccionáveis e investir prudentemente na cadeia de valor do petróleo como alavancagem da economia interna. A integração na cadeia de valores tem sido muito usada para gerar crescimento e valor acrescentado, tendo como principal benefício o acesso a fundos para diversificar o investimento ao nível da pesquisa e produção. Por outro lado, a liberalização de políticas industriais para guiar ou encorajar a diversificação ao longo da cadeia de valor tem sido a aposta de alguns países e com muito sucesso.