Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

A “brusca aceleração”

12 Out 2020 / 09:54 H.
Rui Amendoeira

Regresso a um tema que já abordei num recente artigo neste mesmo jornal: a previsão, adiantada pelo CEO da BP, Bernard Looney, de que a procura mundial de petróleo terá atingido o nível máximo histórico em 2019, pré-pandemia, e de que daqui para a frente o consumo de petróleo vai declinar constante e inexoravelmente.

No seu relatório anual sobre o futuro da energia, divulgado há poucas semanas, a BP insiste nesta previsão, admitindo vários cenários em que a procura mundial de petróleo no ano 2050 é inferior à procura de 2019 entre 55% a 80%. Atente-se no significado deste (hipotético) cenário: daqui a 30 anos o Mundo poderá só consumir 1 de cada 5 barris de petróleo produzidos no ano passado.

Não me atrevo a debater a fiabilidade destas previsões. A evolução do Mundo é cada vez mais imprevisível – basta ver como uma “simples” pandemia virou do avesso a sociedade e a economia no espaço de poucos meses – e qualquer “visão do futuro” que se estenda para lá de meia dúzia de anos é um exercício temerário ou, quiçá, desonesto.

No domínio da energia em particular, há um enorme cemitério de previsões, prognósticos, cenários futuros, etc. Que se vierem a revelar totalmente equivocados e até ridículos quando analisados pelo “espelho retrovisor”. A própria BP admite, no referido relatório, que a previsão de máxima procura em 2019 possa não se confirmar, e que o consumo de petróleo possa continuar a crescer, ainda que moderadamente, durante pelo menos mais uma década.

Porém, o cenário de queda acentuada da procura de petróleo assenta num fenómeno que ocorre por vezes na economia e que descreveria como a “brusca aceleração”. Refiro-me ao caso em que uma determinada tendência económica, apresentada como transformadora e revolucionária, começa no entanto por evoluir muito lentamente nos primeiros anos, a ponto de parecer estagnada, e de repente, sem que se perceba muito bem porquê, ganha uma inusitada velocidade.

É como uma bicicleta a descer um plano ligeiramente inclinado, que começa muito devagar até que acelera bruscamente depois de atingir um “tipping point”. A transformação energética dos combustíveis fosseis para as energias renováveis e limpas estaria justamente a entrar nessa fase de brusca aceleração, segundo a previsão da BP.

Ou seja, a linha de penetração das energias renováveis no mix energético, que até aqui tem vindo a subir de forma constante mas relativamente moderada, estaria a chegar ao ponto de inclinação e subida mais verticalizada.

Duas razões principais contribuiriam para esse ponto de aceleração. Por um lado, os veículos eléctricos estariam a entrar em modo de adopção “massificada” uma vez eliminadas ou atenuadas as suas desvantagens competitivas: preço, autonomia e rede de abastecimento. Se um veículo eléctrico custar sensivelmente o mesmo que um veículo a gasolina/diesel, puder realizar viagens longas com uma única carga de bateria, e repor a carga for tão fácil como abastecer na bomba de gasolina, não há razão para que esse veículo não passe a ser a opção “default” para os condutores.

O veículo elétrico estará a chegar ao ponto de “normalização” em que o consumidor já não tem que justificar-se para fazer uma escolha diferente do comum. Num futuro (provavelmente) próximo, a situação será invertida por completo, ou seja o consumidor terá de justificar a compra de um carro não-eléctrico que estará proibido de circular no centro das cidades, será mais caro de manter e operar e cujo valor comercial se degrada mais rapidamente. Pelo menos nos países mais desenvolvidos, qualquer pessoa que hoje pretenda comprar um novo carro terá de considerar e comparar a opção eléctrica.

Por outro lado, e talvez mais importante, o combate ao aquecimento global e às alterações climáticas parece estar a entrar numa fase decisiva e de verdadeira viragem, quer na opinião pública, quer na agenda dos governos. Por vezes, parece que os decisores políticos só funcionam a duas velocidades: ou nada acontece, ou tudo acontece muito depressa.

Há claros sinais que vários países poderosos (incluindo uma eventual administração Joe Biden) estão dispostos a tomar medidas radicais para reduzir a dependência dos combustíveis fosseis, mesmo com sacrifício da economia. As transições na economia operam-se gradualmente, por funcionamento das leis de mercado, mas também podem ser aceleradas “à bruta” quando essa é a vontade dos governos, através de proibições, restrições, imposição de objectivos e metas, etc.. Afinal, a espécie humana tem um apuradíssimo espírito de sobrevivência ...

A BP parece ter visto “the writing on the wall” antes das outras companhias petrolíferas e desenhou uma estratégia de profunda adaptação e transformação existencial da empresa no horizonte até 2050. Disso falarei numa próxima oportunidade.