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“startups mais bem-sucedidas em Angola têm por trás uma equipa de fundadores”

“É importante que Angola esteja presente em diferentes palcos com potencial de projecção internacional do seu ecossistema de Inovação e Startups”.

Angola /
02 Fev 2022 / 09:41 H.

Que análise faz deste segmento empresarial no País nos últimos cinco anos (antes e durante a pandemia)?

Os dados disponíveis revelam alguns sintomas de que o estado do segmento empresarial em Angola não é dos melhores, neste momento. Isso é visível pela taxa de mortalidade de empresas, mesmo antes do início da pandemia, que tem como consequência a taxa de desemprego nestes últimos anos.

Não obstante a esse facto, é bastante visível a força de vontade e atitude empreendedora no sentido de se aproveitar as várias oportunidades que o mercado revela. De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), a Taxa de Actividade Empreendedora (TAE) em Startups Early-Stage (negócio nascente) ou na gestão de negócios novos e em crescimento, cresceu quase o dobro de 2014 (21,5%) a 2018 (40,8%), sendo mais expressivo na faixa etária entre os 24 e 34 anos de idade, e a Intenção Empreendedora passou de 44,69%, em 2016, para 83,35%, em 2018 (antes da crise da pandemia).

Contrariamente ao que esse crescimento poderia demonstrar ao nível do preenchimento de oportunidades do mercado, verifica-se que a motivação da actividade empreendedora tem vindo a mudar para uma motivação baseada na necessidade, com uma taxa que passou de 24,4% em 2014, para 38,8% em 2018.

Que países fora do Continente servem de referência para Angola? Porquê?

É uma pergunta que parece fácil, mas é difícil de responder porque pode ter alguma “pegada” subjectiva da minha parte, institucionalmente não encontro um documento que possa sinalizar que referência tem sido para a Angola ao nível de benchmark.

Será Portugal?

Não consigo afirmar. Podem ser vários ao mesmo tempo, buscando as melhores práticas em cada um deles. A nível do continente, talvez poderíamos olhar para a Nigéria, pelas características da estrutura da economia como “Oil dependent economy” e o nível de habitantes (apesar de termos menos do que eles). Mas a título pessoal, dentro do continente vejo com bons olhos Cabo Verde como um país que pode ser uma inspiração para Angola, no que diz respeito ao desenvolvimento de ecossistemas de Startups.

Dos PALOP, é o país mais sonante, mais referenciado internacionalmente, com uma campanha activa de dar visibilidade interna e internacional às iniciativas do ecossistema, e melhor posicionado nos principais índices Internacionais sobre Empreendedorismo e Inovação, tais como, o Global Innovation Ecosystems for Startup Report (ocupou a posição 87 em 2021, tendo subido 4 posições comparativamente ao ano anterior) e o Global Innovation Index (ocupou a posição 89 em 2021, tendo subido 11 posições comparativamente ao ano anterior). Eventualmente poderia ser discutível uma base comparativa linear, tendo em conta as especificadas de cada país, mas, certamente, é uma boa inspiração pelos resultados.

Quais são os grandes desafios para que Angola tenha um ecossistema de startups ou para que funcione de facto?

Certamente existirão outros, mas prefiro destacar estes quatro:

O primeiro de todos é a barreira cultural, que gira muito a volta do egocentrismo e que gera um problema de confiança e credibilidade, que se percepciona estar instalado em vários segmentos da sociedade. Ultrapassando este desafio, rapidamente chegamos ao pressuposto mais importante em qualquer ecossistema que a colaboração. Para se construir um ecossistema de inovação e de startups, e não um “egossistema”, a colaboração entre os actores é crucial.

O segundo desafio que vejo como relevante é a ausência de políticas estratégicas para criar este ecossistema, que seja percebida como tendo uma rota muito clara para o ambiente adequado que proprocione exposição das iniciativas, mecanismos de financiamento e criação de mercado.

O terceiro desafio é a aposta na educação porque é a base para o desenvolvimento do capital humano. Pode não parecer nada relacionado, mas é o factor determinante porque as startups são criadas por pessoas (equipas) e, como é óbvio, o nível de instrução das pessoas é fundamental.

Alias, estou bastante curioso para ler um estudo que demonstre se existe alguma correlação entre o nível de qualificação e vivência internacional dos fundadores e a taxa de sucesso das startups. Isso porque, por observação, tenho a sensação de que as startups mais bem-sucedidas em Angola têm por trás uma equipa de fundadores que viveu ou estudou no exterior.

Pode ser mera coincidência, daí que um estudo nessa base da análise do perfil poderia ser interessante. O quarto é o que percepeciono como a falta de cultura para produção de dados. Como diz a celebre frase de William Edwards Deming “não se gere o que não se mede, não se mede o que não se define, não se define o que não se entende, e não há sucesso no que não se gere”. Infelizmente, não temos um repositório nacional que seja fonte constante e actual de informação o nosso ecossistema de Inovação e Startups. Na minha opinião, é preciso melhorar neste ponto, e temos de fazê-lo tendo em mente que um ecossistema de Inovação e de Startups é como um produto, precisa de ser conhecido.

Isso é algo que os outros países fazem muito bem. É importante que Angola esteja presente em diferentes palcos com potencial de projeção internacional do seu ecossistema de Inovação e Startups. A título de exemplo, de 29 a 31 de Março, será realizado um grande evento no Dubai Exhibition Centre da Expo2020Dubai, o Anual Investment Meeeting, que já existe há 10 anos, além de ser a maior plataforma de investimento mundial, actua como facilitador de oportunidades para visibilidade de ecossistemas de empreendedorismo e inovação.

*José Bucassa, Consultor