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‘Sonangol nada ganhou com participação na Puma Energy’

A Sonangol pouco ou nada recebeu de dividendo, durante os oito anos que esteve associada à Puma Energy Holdings, revelou Sebastião Gaspar Martins, presidente do conselho de administração da petrolífera estatal

Luanda /
26 Abr 2021 / 09:36 H.

Um acordo de ‘cavalheiros’ facilitou o fim da participação da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol) na Puma Energy Holdings, é assim que a crítica considera o processo de cessão de activos da petrolífera angolana, que acabou por reforçar a posição accionista da multinacional Trafigura no consórcio.

A Sonangol detinha 31,78% de acções na Puma Energy Holdings. Era o segundo maior accionista, depois da Trafigura. Face à estratégia financeira do consórcio, foi lançado um processo de emissão de acções para se arrecadar pelo menos 1 100 milhões USD. A questão do reforço de capital, segundo os accionistas, teria de “ser concluída até meados de Abril de 2021”.

“O produto da emissão de direitos será usado para reembolsar o empréstimo a prazo de 2018 e fornecer uma base financeira sólida para continuar a entregar o plano estratégico de cinco anos”, justifica a Puma Energy no relatório, no qual espelha o resultado financeiro de 2020.

René Médori, presidente da Puma Energy, disse que a recapitalização e o reforço do balanço da Puma Energy tem sido um objectivo estratégico fundamental, que irá estabilizar as finanças da empresa e apoiar o investimento nos ambiciosos planos de crescimento.

Face ao programa de recapitalização, a Sonangol estava obrigada a reforçar a posição accionista com 600 milhões USD, sob pena de ver diluída a participação societária.

Fonte ligada ao processo avançou ao Mercado que a Sonangol se mostrou incapacitada (financeiramente) para satisfazer as exigências dos restantes accionistas.

Diante da incapacidade financeira, a solução passou pela alienação das acções ao accionista maioritário, Trafigura que no ano passado chegou a comprar 10% da participação societária da Cochan Holding LLC, empresa detida por Leopoldino do Nascimento, general reformado das Forças Armadas Angolanas (FAA).

Com a diluição da participação societária, a Cochan Holding LLC tem actualmente 5,04% de acções na Puma Energy Holdings. Num futuro muito próximo, segredou uma fonte ligada à Trafigura, o antigo responsável das comunicações do ex-Presidente José Eduardo dos Santos será obrigado a alienar a quota que ainda lhe resta na Puma Energy Holdings.

A alienação das acções da Sonangol foi antecedida de uma avaliação de activos, realizada por uma empresa independente, tendo chegado a conclusão de que a participação da petrolífera angolana na Puma Energy Holdings valia 600 milhões USD.

Desta forma, a Trafigura ficou com a participação da Sonangol (600 milhões USD) no consórcio, e em contrapartida cedeu todo o activo da Puma Energy em Angola.

O ministro dos Recursos Minerais e Petróleos, Diamantino Azevedo, justificou a decisão de saída da petrolífera estatal, alegando que “não é, do ponto de vista estratégico, também do interesse do dono (Estado) manter a Sonangol nesta sociedade e este era o momento oportuno para sair”.

Por outro lado, continuou o ministro, a Sonangol também teria que ir buscar 600 milhões USD de empréstimo. Portanto, “esses factores obrigaram-nos a olhar para outras soluções”.

Dos oito anos que a Sonangol esteve associada à Puma Energy Holdings, de acordo com o presidente do conselho de administração, Sebastião Pai Querido Gaspar Martins, apenas uma vez recebeu dividendo, embora tenha participado da gestão do consórcio.

Ao analisar esta situação, segundo Porfírio Muacassange, economista, surge em primeiro lugar a questão da transparência em todo o processo, na medida em que se desconhece o racional de avaliação que esteve por detrás deste negócio, “uma vez que também é desconhecido o modelo de avaliação para determinação do valor dos activos em 600 milhões USD”.

A questão que se coloca, disse, é: quais são os lucros que a Sonangol obteria, ou seja, qual é o valor futuro que obteria, mantendo essas acções? Quanto valeriam por exemplo daqui a 10 anos?

“Estando em presença desses dois valores futuros poderíamos estar em presença de um modelo mais transparente de preços que nos indicariam onde estariam as mais-valias e as menos-valias desse negócio. Só daí poderíamos deduzir a matriz de ganhos e perdas”.

Para o economista, sem esta matriz expressa e assente na contabilidade empresarial e sem negociação em bolsa de valores desse tipo de transações, “releva-nos a tirar ilações precipitadas tudo porque existe assimetria de informação entre todos os stakeholders”