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Produção de sal pode contribuir com 1,5 mil milhões Kz de impostos para o PIB

A produção de sal pode chegar a meio milhão de toneladas nos próximos três anos, numa altura em que a APROSAL declara o País ter atingido já a “auto-suficiência de sal para o consumo humano”, que o UNICEF estima em pelo menos 60 mil toneladas.

Luanda /
01 Nov 2021 / 14:00 H.

A actividade de produção de sal, através da Associação dos Produtores de Sal de Angola (APROSAL) perspectiva contribuir com 1,5 mil milhões kz de impostos para o Produto Interno Bruto (PIB) com a execução e entrada de novos players no sector, diz o seu presidente Totas Garrido.

Com a produção em “velocidade de cruzeiro”, hoje, segundo o presidente da APROSAL, pode afirmar-se que o País já atingiu a “auto-suficiência para o consumo humano”, que o Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF) estima em pelo menos 60 mil toneladas.

“Nós continuamos a produzir e em números que permitem afirmar que nós, hoje, já atingimos a auto-suficiência com relação ao consumo humano, estimado pelo UNICEF em 60 mil toneladas, mas temos outros segmentos de mercado que nós não conseguimos afirmar se já atingimos ou não a auto-suficiência”, afirmou.

Um destes seguimentos, explicou, é o ramo alimentar, o petrolífero e outros.

“Estou a falar de classes como o ramo alimentar, o petrolífero. É importante termos acesso a estes números, que alguém afirme e confirme os números”, pediu, sublinhado que, o censo animal deveria ser um bom barómetro para medir as outras classes.

“O censo animal não está terminado no País, por isso não sabemos qual é a necessidade com relação ao sal animal”, sentenciou.

Insistiu que para se aferir a auto-suficiência de sal para outros sectores é preciso que haja um censo. “É preciso que haja um censo, uma informação actualizada desses sectores”.

Forte lobby na importação de sal

Apesar de se ter atingido a auto-suficiência é pouco provável a substituição das importações de sal pelo facto de existir um forte lobby no País. “Isso não quer dizer que com a nossa produção se vai acabar com a importação, porque nós sabemos que há um lobby muito forte da importação”, adiantou.

Totas Garrido socorre-se do secretismo que há sobre a quota de importação deste produto o ano passado para sustentar a sua tese.

“A APROSAL não sabe, por exemplo, o volume de importação de sal do ano passado. Há números oficiosos, não há números oficiais”, acusou, numa alusão de que “isso não nos permite afirmar quanto é que se importou de sal oficialmente em Angola”.

Por isso, Totas Garrido não acredita nos indicadores oficiosos que apontam de que a importação de sal tenha sido apenas de 10 toneladas.

“Sinceramente, nós da associação não acreditamos que os números sejam estes, porque há um lobby muito bem instalado em Angola focado na importação”, ressaltou.

Radicalismo é desaconselhável

“Nós na associação não somos radicalistas”, assegurou Totas Garrido para quem a importação deve ter regras na medida em que quando há gasto de dinheiro tem de se justificar.

“A importação tem regras, quando se gasta dinheiro tem que se saber justificar se esse dinheiro serviu ou não o País”.

Contudo, questiona o valor da importação de sal em 2019 cerca de 15 milhões USD.

“Foi dito oficialmente que foi gasto 15 milhões de USD, nós nos perguntamos o que faríamos com 15 milhões USD, se fossem investidos internamente sem burocracias nas salinas nacionais qual é o ganho que teríamos?, indagou-se Totas Garrido.

Um parente pobre

Com burocracia de crédito à banca, o sector salineiro é das poucas indústrias que após a crise de 2015 conseguiu superar-se com “muita força e dedicação” dos seus associados que através de meios próprios alavancaram o “reconhecimento” da produção nacional de sal no País.

“Isto reflecte-se nestes seis anos de existência, passando de 42 mil toneladas em 2015 para 160 mil em 2020. É um sector em crescimento que pode ser visto com o aparecimento de novos players para este sector”.

Nesta perspectiva a reabilitação e ampliação de salinas no País é um facto, pois segundo o presidente da APROSAL “há interesses cada vez maiores neste segmento da economia”, o que faz com que a associação fique “extremamente feliz” com os novos investimentos nessa área.

“Podemos realçar que para além das ampliações que estão a ser feitas principalmente às salinas de Benguela, há construção de duas salinas nessa mesma província e há projectos bem avançados para a construção de uma salina no Bengo e outra no Namibe”, afirmou.

Para aquele responsável vê-se que há interesse em aumentar a produção, apesar das dificuldades de acesso ao crédito.

“Apesar das dificuldades que temos com relação ao crédito, não há facilidade de créditos”, diz, acrescentado que, “o crédito existe sim mas continuamos com grandes problemas com relação a burocracia que existe para o acesso a esse crédito”.

Totas Garrido criticou o grau de exigência dos bancos quanto a concessão de crédito, que ao “protegerem os seus negócios criam dificuldades aos nossos negócios”.

“Principalmente quando falamos em garantias, há garantias muito difíceis de serem cumpridas porque o industrial salineiro está muito focado na produção, na terra. O PRODESI está presente, sabemos que existem os programas de apoio à economia mas há este constrangimento que todo mundo consegue reconhecer e nós estamos localizados fora dos grandes centros populacionais, estamos localizados fora de Luanda e as dificuldades são ainda mais maiores para os nossos associados”, ressaltou.

Apesar da falta de crédito...

A indústria salineira segue o seu percurso: “Isto não quer dizer que não estejamos a produzir”, diz Totas Garrido em alusão a falta de crédito bancário e as suas “difíceis garantias”.

Em 2020, explicou, “conseguimos produzir um pouco mais”: 164 mil toneladas, acima da meta definida pelas autoridades para o sector salineiro.

“Já é um número a ter em conta porque conseguimos ultrapassar as 160 mil toneladas projectadas no âmbito do Plano Nacional de Desenvolvimento 2017/2022 para o sector salineiro. Esperamos que 2021, se as chuvas não nos surpreenderem, atingir as 170 ou as 175 mil toneladas este ano”, perspectivou.

Meio milhão de toneladas: a meta a seguir

“Sem medo de errar”, arrisca Totas Garrido, com os investimentos feitos, sobretudo também com o surgimento de novos projectos a produção nacional de sal pode chegar a meio milhão de toneladas nos próximos anos.

“Temos todas as salinas a produzir, nós hoje temos capacidade de dobrar a produção que temos actualmente. Com os novos projectos que estão a chegar, se vincarem, se forem muito bem estruturados, nós podemos começar a falar de números a volta de meio milhão de toneladas nos próximos dois a três anos”, avançou.

Lodo, um problema de saúde pública

O iodo no sal consta de uma directiva da Organização Mundial da Saúde, através do UNICEF que orienta a sua obrigatoriedade junto dos governos, pois faz parte de um programa de prevenção de saúde pública: o bócio.

“Nós temos que proteger a nossa população, mas, infelizmente, essa responsabilidade do iodo tem recaído 100% para os produtores”, criticou o presidente da APROSAL.

Só o ano passado, exemplifica Totas Garrido, a associação gastou 200 mil USD na aquisição de iodo à ENATIP, empresa estatal encarregue da venda daquele importante produto na produção do sal.

“Há um investimento muito grande por parte dos produtores para cumprir uma obrigação legal. Nós achamos que é injusto, porque estamos a falar de um problema de saúde pública, logo, deveria ser subvencionado. O iodo vem do exterior e tem sido muito difícil a sua obtenção junto das instituições que o deveriam ter disponível”, lamentou.

Instado sobre a indústria de embalagem no sector salineiro, Totas Garrido deu nota positiva aquela actividade empresarial.

“A indústria de embalagem desenvolveu nos últimos três anos, hoje já não há produtores a importarem embalagens para produção do sal, felizmente, essa indústria está consolidada. Está forte e tem estado a melhorar a qualidade do seu produto. Isto permite-nos ter uma estabilidade em termos de produção de sal”, disse entusiasmado.