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“Um banco já não precisa de estar fisicamente no nosso país para angariar clientes”

O Associate Partner da KPMG, José Garrido, diz que não acredita que as Fintech venham a sustituir os bancos, mas poderão substituir, talvez, algumas componentes específicas. Acredita que existem temas nucleares que continuarão a ser exclusivos dos bancos, alguns até por razões regulamentares. Contudo, diz que o que se está a observar uma maior interacção e aproximação das Fintech aos bancos. Nas próximas páginas Garrido mostra a sua visão sobre as startups e o modelo de educação que se deve adoptar para termos quadros aos nível dos futuros desafios.

03 Dez 2019 / 08:00 H.

Termos como “Disrupção tecnológica”, “Transformação digital”, “Indústria4.0” parecem ter tomado conta da agenda de muitas empresas. O que é que está na base dessa revolução?

Para percebermos melhor o que está na base dessa revolução e seu impacto creio que devemos ter em mente que esta revolução não é sobre tecnologia, é sobre pessoas. É sobre materializar sonhos de pessoas através de tecnologia. E isto não é algo novo, é muito primário e que acontece desde que o mundo é mundo. No entanto, encontramo-nos num momento particular da história em que temos à disposição novas tecnologias como a Inteligência Artificial, a Automação, a Internet das Coisas, a Realidade Aumentada e a Blockchain, que estão a permitir reformular a forma como as empresas entregam valor aos clientes, seja com a implementação de melhorias incrementais nos modelos de negócio, na oferta ou com a criação de novos modelos e de novas ofertas totalmente disruptivas. As empresas têm procurado, com a utilização das tecnologias, melhorar o serviço ao cliente, fomentar a eficiência e aumentar a produtividade. E este movimento está acontecer de forma transversal a todas as indústrias e sectores.

O que podemos esperar e quais os potenciais impactos para o nosso país?

Quanto aos impactos, o mundo é cada vez mais global e estas transformações não são estanques ou circunscritas, pelo que teremos impactos para o país a todos os níveis. Do lado de quem consome, existe uma expectativa cada vez mais alta no acesso a produtos e serviços com experiências semelhantes a outros locais do globo; do lado de quem fornece, existe a constatação de que a concorrência é cada vez mais global.

Por exemplo, se olharmos para o sector financeiro e para os processos de onboarding e a evolução para o digital é fácil percebermos que um banco já não precisa necessariamente estar fisicamente no nosso país para angariar clientes. E esta realidade,naturalmente, levanta o véu sobre questões que terão de ser endereçadas do lado de quem regula os diferentes sectores e que tem de alguma forma procurar antecipar-se a estes desafios.

Todas as organizações devem embarcar na jornada do digital?

Não é uma questão simples, mas diria que todas as organizações que pretendem sobreviver na era

digital sim. Tomemos como exemplo uma loja que venda pneus. Numa primeira instância, provavelmente, estaríamos inclinados a dizer que não necessita, mas se centrarmos a questão naquelas que são as necessidades dos clientes, o caso muda de figura. Se eu fosse cliente dessa loja, gostaria de ter uma aplicação que permitisse saber se têm os pneus para o meu carro; que permitisse encomendar os pneus online e estes fossem entregues onde eu indicasse, etc. O que é importante é que as organizações não entrem numa jornada do digital apenas porque sim ou porque toda gente parece estar a fazer, têm de ter claro quais os drivers para essa transformação e que objectivos pretendem alcançar

Como é que se avalia se uma organização está preparada para o digital e qual o processo que deve adoptar para a sua implementação?

Há várias formas mas tipicamente nasce de algum desafio, melhorar a experiência dos clientes, uma nova oferta que se quer lançar, uma maior eficiência nos processos, reduzir custos ou na combinação destes diferentes desafios. Na KPMG realizamos assessments em que nos sentamos com a liderança de topo e de forma a identificar o desígnio para a transformação, ou seja, as razões da digitalização, avaliando o grau de maturidade e predisposição das empresas para essa digitalização. Estes assessments são relevantes para traçar a estratégia e para a definição de objectivos claros.

E o Estado? Não beneficiaria também desta onda de digitalização?

Sim, claro. O Estado deve procurar aproveitar estas novas tendências tecnológicas como um meio para servir melhor os cidadãos, entregando serviços mais eficientes. A eficiência promove a redução dos custos, o crescimento económico, a igualdade social, a inovação e ainda promove os objectivos de uma boa governação: participação activa do cidadão, integridade, confiabilidade e transparência.

Por exemplo, se olharmos para um tema como o das autarquias, um dos desafios que teremos de

ultrapassar, como país, é o de garantir a entrega de serviços de forma descentralizada mas também uniforme, ágil, eficiente e a custos aceitáveis. Claramente que a tecnologia desempenhará um papel relevante. No entanto, o Estado tem de estar ciente de que para materializar todos os benefícios da digitalização não basta implementar tecnologia, pois corre-se o risco de importar

É importante que as nossas startups estejam focadas nos desafios do nosso mercado para a tecnologia todas as suas ineficiências. Diria que é necessário o Estado transformar os processos e serviços como se estes fossem criados hoje e, claro, centrados nos cidadãos. Se usarmos estas duas premissas como base, acredito que, no futuro, 90% dos serviços disponibilizados serão mobile.

Naturalmente, tudo isto requer uma mudança profunda de paradigma e, tal como em qualquer outra organização, é importante que os líderes estejam disponíveis para abraçar a inovação e novas culturas de trabalho. Este tipo de transformação é, por vezes, dolorosa, só sendo possível com o envolvimento profundo da liderança.

E no nosso mercado, as nossas pessoas estão receptivas para esse tipo de transformação?

Sim. Temos uma população altamente jovem em que muitos nasceram e cresceram já numa era digital, rodeados de computadores e internet. Estes consumidores têm outro tipo de exigências, querem outro tipo de experiências e querem serviços cada vez mais digitais.

Aliás, prova disso é o número de startups que têm proliferado no mercado, oferecendo um leque variado de serviços, que vão desde soluções de mobilidade (Kubinga) a serviços de entrega (Tupuca), de crowdfunding (Deya) até à reeducação alimentar (FitEm14Semanas).

Já que toca no tema Startups, qual a sua visão e qual acha que pode ser o papel destas empresas na nossa economia?

As Startups podem desempenhar um papel relevante no desenvolvimento da economia.

Temos um povo com um espírito empreendedor, mas falta ferramentas. O fomento de uma cultura startup, se assim podemos chamar, seria uma boa forma de estimular esse espírito.

Estamos num país com inúmeros desafios e alguns deles gigantes. Mas se formos capazes de partir esses desafios em questões mais pequenasserá mais simples encontrar soluções. E, tipicamente, as startups procuram endereçar temas muitos específicos e arranjar soluções próprias. Agora é importante que as startups estejam focadas nos desafios do nosso mercado e procurem soluções nossas.

Algumas startups caiem na tentação de replicar soluções desenhadas para contextos diferentes do nosso e não conseguem alcançar o sucesso que ambicionam.

Se usarmos o Estado como exemplo, concluímos que este podia fomentar uma cultura de startup e, ao mesmo tempo, tirar proveito dela, bastando para tal estar disponível para trabalhar com estas empresas no desenho e implementação de soluções específicas para alguns dos seus desafios. Esta aproximação seria benéfica porque permitiria ao Estado entregar e testar soluções mais rapidamente.

Voltando ao sector financeiro e fazendo a ponte com processos onboarding cada vez mais digitais e a este tópico das Startups, temos assistido ao aparecimento das chamadas Fintech.

Qual o impacto destas empresas? Vão substituir os bancos?

As Fintech são empresas tecnológicas que prestam serviços financeiros. São empresas que já nasceram digitais. Temos visto estas empresas a actuarem em diferentes dimensões, com impactos transversais nos modelos de negócio, desde a oferta à experiência de cliente, da distribuição até às operações. As Fintech acabam por criar alguma pressão e de certa forma fomentar a inovação no sector.

Aliás, muito dos processos de transformação no sector acabam por ser uma resposta a esta pressão. Não creio, porém, que as Fintech substituam os bancos. Poderão substituir, talvez, algumas componentes específicas, principalmente na camada de interacção. Mas existem temas nucleares que continuarão a ser da competência exclusiva dos bancos, algumas até por razões regulamentares. O que já estamos a ver, e vamos ver cada vez mais, é uma maior interacção e aproximação destas empresas aos bancos. Temos já vários bancos a investir e a fazer parcerias com estas empresas para entregar novas propostas de valor aos clientes.

O Capital Humano é um dos grandes desafios que o país enfrenta, temos uma população jovem mas também com altos índices de desemprego e paralelamente temos uma digitalização crescente.

O que é que podemos esperar da conjugação destas variáveis?

Penso que se conseguirmos conjugar a veia empreendedora dos jovens com o facto desta faixa etária tipicamente ser mais optimista, mais disponível para aprender, para correr riscos e para mudar, podemos esperar coisas positivas. Se conseguirmos dar aos jovens meios que permitam tirar partido do digital, para que criem soluções, lancem as suas empresas e gerem emprego, também. Mas para que consigamos converter estes ingredientes em vantagens competitivas é essencial que seja realizado um investimento substancial nas pessoas, de modo a que possam desenvolver as competências necessárias para tirar partido das ferramentas que vêm com o digital.

Que medidas considera que devem ser implementadas urgentemente?

Uma das principais medidas será a de revisitar a forma como olhamos para a escola hoje em dia. Os modelos de ensino em vigor foram desenhados para responder a uma era de massificação, muito diferente da que vivemos hoje. Com o apogeu de tecnologias como a inteligência artificial ou os robots, muitas das profissões que hoje conhecemos vão passar a ser realizadas por máquinas. Outras profissões serão criadas, só ainda não sabemos quais. E o tema é que as escolas ainda estão muito voltadas a ensinar profissões, pelo que devemos conseguir equilibrar e começar a ensinar competências que permitam às pessoas adaptarem-se ao longo da sua vida para desempenhar diferentes profissões. Se olharmos para trás, apenas há algumas décadas, as pessoas trabalhavam a vida inteira num único sítio. Mais recentemente passaram a ter mais do que uma experiência de trabalho e até em diferentes sítios do mundo, o que seria impensável para a época. Temos, por isso, de estar preparados para amanhã termos

profissões que nada têm a ver com que hoje fazemos.

Quais serão as profissões do futuro?

Como já disse, é difícil prever quais serão, mas temos todos algumas pistas. Profissões relacionadas com dados (data analytics, data security, data scientists) parecem ser as profissões da próxima década.

Como é que a KPMG pode ajudar o tecido empresarial e não só neste desafio do digital?

Na KPMG estamos estruturados de modo a conseguirmos trazer todas as nossas práticas, sejam de auditoria, fiscalidade ou consultoria para cima da mesa, de modo a trabalharmos juntos para sermos capazes de entregar as melhores soluções aos nossos clientes.

No caso específico do digital, isto significa que conseguimos alinhar conhecimento do negócio com o

conhecimento das plataformas tecnológicas, pois, como já referi, conseguimos estruturar equipas que trazem essas diferentes valências. Começamos sempre por perceber o desafio de transformação antes de implementarmos uma solução tecnológica. E, claro, as nossas parcerias globais com alguns dos principais gigantes tecnológicos, como são os casos da Microsoft, da Outsystems, da IBM, da SAS, da Oracle e outras, permite-nos não só aceder ao que de melhor se faz em tecnologia para entregar aos nossos clientes, como também influenciar o que é desenvolvido para que respondam cada vez melhor as necessidades destes.

Em suma, conseguimos trazer para o mercado soluções globais, adaptadas para a nossa realidade. Além disso, os profissionais estão activamente a liderar grandes projectos de transformação não apenas localmente, mas em vários pontos do globo.

A KPMG é a única Big 4 com um Partner Angolano? Há quem defenda uma maior Angolanização das consultoras ou um maior uso de consultoras locais. Quer comentar?

Sobre o primeiro ponto não consigo responder pelas outras,

mas no nosso caso creio que é apenas um reflexo do que dizia há pouco, queremos que as pessoas cresçam com a nossa firma. Somos uma empresa Angolana e temos um compromisso grande com o país, com as pessoas e com os clientes e esse compromisso passa por investir nas pessoas de modo a formar profissionais sólidos que contribuam para o desenvolvimento do país. Prova disso é que, apesar da crise, temos mantido uma base de capital humano muito estável e não desinvestimos, nem desaparecemos do mercado como fizeram outras consultoras.

Continuámos a investir e anualmente contratamos e formamos novos quadros para as diversas práticas da firma. Temos uma estrutura assente em equipas locais e quando necessário reforçadas com equipas internacionais.

Sobre as consultoras locais, creio que não são mutuamente exclusivas, acho, aliás, que precisamos de ambas. Se olharmos para qualquer país do mundo, existe essa presença de empresas locais ou regionais e de empresas de matriz internacional. No nosso caso, somos efectivamente uma empresa com DNA global, e isso permite-nos ter acesso a frameworks que são utilizadas em qualquer parte do globo – por organizações mais pequenas e pelas maiores organizações do mundo – trazê-las para Angola e adaptá-las para responder aos nossos desafios nacionais. Se só usarmos consultoras locais deixamos de fora as oportunidades que daí advêm.