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Quando o mal de quase todos é o ganho de uns poucos

Há negócios que podem ganhar mais dinheiro, por mais ou menos tempo, na sequência da crise instalada pela pandemia do Coronavírus, e tendo em conta as medidas que isolamento social que estão a ser postas em prática um pouco por todo o lado, Angola incluída. O vírus está a mudar a forma como trabalhamos, nos movimentamos e interagimos socialmente. E há lições a retirar no que diz respeito a velhos
e novos negócios.

Luanda /
01 Abr 2020 / 13:24 H.

A crise instalada por causa da pandemia do Coronavírus afecta de forma severa as economias e a generalidade dos negócios, mas nem todos por igual. Nalguns casos, pelo menos nos curto e médio prazos, as receitas ou o valor das empresas até podem aumentar. E, como em todas as crises, há oportunidades. Sem esquecer que pouco ou nada há de positivo em toda esta situação, porque afecta a saúde das pessoas – e não há nada mais valioso do que isso.

Produtos de desinfecção e limpeza

Um pouco por todos o lado, esgotaram os stocks de produtos como álcool-gel e outros desinfectantes, do álcool etílico à lixívia, passando pelos vulgares detergentes. Em muitos casos, por ausência de controlo das autoridades e falta de escrúpulo dos empresários, os preços são fortemente inflacionados. Em Luanda, por exemplo, há registo de farmácias que vendem frascos de álcool-gel a 35 mil Kz, dez vezes mais caros do que em situações ‘normais’. Em geral, todos os produtos de higiene estão a vender mais nesta crise.

Produtos de protecção pessoal e equipamento médico

Tornou-se noutro ‘maná’ para algumas empresas. Luvas e máscaras vendem-se como ‘pãezinhos quentes’, ainda que nem sempre seja recomendado o uso de máscara por toda a gente. E, muitas vezes, os preços reflectem mais do que o desequilíbrio entre a oferta e a procura: são fruto de puro aproveitamento da situação.

Também a indústria de equipamentos médicos, em especial ventiladores, está a ganhar. Portugal por exemplo, vai comprar 500 ventiladores... à China, onde tudo começou no ano passado e que agora parece (ou afirma) estar a controlar o surto.

Empresas de limpeza e desinfecção

Em Portugal, empresas que habitualmente fazem limpeza e/ou desinfecção periódica de fábricas ou escritórios estão sem mãos a medir para as encomendas, e isto acontece um pouco por todo o mundo. Em muitos países, as ruas e espaços públicos já estão a ser desinfectados, o que gera dinheiro (muito) para estas empresas e para as que fazem os produtos de limpeza.

Laboratórios de análises

Muitos não têm mãos a medir, com a procura de exames ao Coronavírus e a garantia de que, mais tarde ou mais cedo, vão receber milhões dos Estados, que não têm capacidade laboratorial instalada para fazer todos os testes que vão sendo (e serão) necessários. Acresce que, em muitos casos, há mais exames feitos a doentes e suspeitos, para ganho deste tipo de negócios.

Farmácias e indústria farmacêutica

Mesmo em estado de emergência, as farmácias são autorizadas a operar, sendo que, para além dos ganhos com material de protecção e etc., acabam por ter mais procura de medicamentos de combate aos sintomas da doença – ou de outras relacionadas.

Quanto à indústria, ganha porque vende mais medicamentos e, quando for descoberta a vacina, os países e as pessoas irão gastar biliões – dinheiro que vai direitinho para este sector, um dos mais poderosos (e nem sempre transparente) do mundo.

Clínicas privadas

Com o aumento do número de casos de COVID-19, sobem os internamentos. Não tendo o Estado capacidade para internar e tratar todos os casos, surgem os privados a apoiar, recebendo dinheiro público para o efeito.

Superfícies comerciais

As grandes superfícies – e até as pequenas cantinas – têm vindo a registar aumentos de vendas um pouco por todo o lado. As pessoas compram mais produtos de higiene e limpeza e, sempre que podem, adquirem produtos em maior quantidade, incluindo alimentares, porque temem ter que estar em casa mais tempo do que o desejável. Ganham as grandes superfícies, pelo menos enquanto houver stock que resista – ou capacidade de o ir renovando, até para que não haja disparos irracionais nos preços.

Telecomunicações

Ainda que os operadores, como a TV Cabo ou a ZAP, optem por segurar preços, não esgotando já os aumentos que estão autorizados a fazer pelo regulador (o INACOM), há uma tendência para que as pessoas usem mais estes serviços, por estarem mais tempo em casa. Em Angola, como a maior parte dos utilizadores é pré-pago e o poder de compra da maioria da população vai ser afectado, é provável que estas operadoras percam dinheiro a prazo. Mas na Europa, por exemplo, muitas famílias acrescentaram aos seus pacotes canais para crianças e filmes.

Também as operadoras de telefone podem ganhar – as pessoas, estando em isolamento social, tendem a falar mais, o que dá mais receitas a empresas como Unitel ou Movicel, incluindo na comercialização de dados móveis.

Aplicativos de comunicação/reunião

Com a necessidade de se trabalhar a partir de casa, ganharam notoriedade as aplicações para vídeo-conferencia e reuniões à distância. O Team, da Microsoft, assim como o seu principal concorrente, o Zoom, estão a registar fortes aumentos de utilização – e no caso do Zoom, do seu valor em bolsa. Ainda que haja versões gratuitas, aumenta o número de pessoas que contacta com este tipo de plataforma – são clientes pagantes em potência no médio prazo, porque o teletrabalho vai ganhar terreno. E muitos clientes, como grandes empresas, optam mesmo pelas versões pagas, para que os seus colaboradores possam reunir.

Comunicação social

É verdade que em tempo de crise as pessoas cortam, por exemplo, na compra de jornais ou revistas, mas muitos meios de comunicação estão a apostar forte na informação sobre a pandemia, oferecendo promoções para acesso aos seus sites, numa altura em que a (boa) informação vale ouro. Há casos de media que permitem o acesso gratuito a informação que em circunstâncias normais seria paga, porque as pessoas estão mais disponíveis para ler, ouvir e ver notícias. Muitas destas pessoas, mais tarde, podem tornar-se assinantes, engrossando as receitas dos media. Como em tudo na vida, a qualidade vale a pena. Os melhores, mais sérios e mais úteis, vão ganhar no futuro. Só precisam de conseguir lá chegar (o que nem sempre é fácil).

Redes sociais

Estando confinadas em casa sem trabalhar, ou trabalhando num regime mais leve, as pessoas tendem a consumir não apenas mais informação, incluindo através das redes sociais dos media e outras, mas também aderem mais a redes sociais como o Facebook, Instagram, Twiter, Youtube etc., porque aumenta a necessidade de lazer e de comunicação, sendo certo que boa parte do modelo de negócios destas plataformas se baseia na publicidade, que é tanto maior quanto maior for a audiência.

Entregas ao domicílio

Apostar no take away e nas entregas ao domicílio foi a forma encontrada por muitos restaurantes e cafés em Portugal para evitar maiores perdas, dado que o estado de emergência os impede de acolher clientes em espaços fechados. Mas as empresas que já operam nesta área ganham agora uma nova oportunidade de negócio, porque, pelo menos aqueles que têm capacidade financeira, tendem a mandar vir comida mais vezes.

Plataformas de jogos

É já um dos negócios com maior expressão na área do lazer, e deverá ganhar adeptos e utilizadores em todo o mundo – sendo que Angola não é excepção. As pessoas, mais jovens e menos jovens, estando mais em casa, podem recorrer a jogos online (ou offline) para passar o tempo, até porque muitos funcionam em rede, reduzindo o tédio e a sensação de isolamento. Há assim uma oportunidade para esta indústria e para muitos empreendedores que têm apostado neste tipo de plataforma.

Empresas de energia e água

Sendo certo que a paragem de fábricas, comércio e vários negócios implica menos consumo de energia e água, estando em casa, milhões de pessoas que estariam no trabalho em circunstâncias normais vão, assim, acabar por consumir mais electricidade, água e gás, o que pode permitir ganhos que ajudem a compensar as perdas previsíveis destas utilities.

Nalguns países, entretanto, algumas destas empresas anunciaram que não vão cortar (para já) a quem não consiga pagar as contas por ser afectado pela crise do Coronavírus. Mas não há almoços grátis: o dinheiro vai voltar, mais tarde ou mais cedo.

Meio ambiente

O meio ambiente não é um negócio – tratar dele, sim, pode ser. Mas, neste aspecto, estamos todos ganhar, ironicamente, com a pandemia, porque, com as pessoas em casa e muitas fábricas e negócios em suspenso, a poluição atmosférica baixou vertiginosamente, ajudando a combater o que, até aqui, não foi possível a bem: o aumento da emissão de gases de efeito de estufa, responsáveis em parte pelo aquecimento global.

Respira-se melhor, e as imagens de satélite não mentem: o homem faz mal a si mesmo e ao planeta, que agora agradece a redução dos níveis de poluição. Esta pode ser uma oportunidade para todos repensarmos a forma como olhamos (e tratamos) para o meio ambiente. Se formos capazes, ganhamos todos.