Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

Os OICs irão possibilitar a diferentes tipos de investidores acederem às oportunidades de investimento em bolsa

Luanda /
28 Mar 2022 / 12:10 H.

O mercado de OICs em Angola tem vindo a ganhar profundidade ao nível de OICs registados na Comissão do Mercado de Capitais, com maior preponderância para os fundos que investem em títulos de dívida pública e imobiliário

Que análise faz da Indústria de fundos em Angola?

R: Os Organismos de Investimento Colectivos (”OICs”) têm ganho dimensão e relevância em Angola ao longo dos últimos anos.

O ano de 2021 apresentou perspectivas mais optimistas face às do ano anterior, tendo sido marcado 1) pela última revisão positiva realizada pelo FMI em Angola, 2) pela revisão em alta do rating da dívida de Angola pela agência de notação financeira Moody´s, pela subida dos preços do petróleo, e 3) pela apreciação da moeda, contribuindo para uma redução no rácio dívida/PIB e consequentemente impactando positivamente a confiança de investidores nacionais e internacionais no País.

Apesar do período de constrangimentos económicos, a indústria de OICs apresentou níveis de crescimento visíveis, com maior adesão pelos investidores, pela oferta de gestão profissional e especializada, rentabilidades competitivas, diversificação das aplicações e minimização do risco.

Contudo, os valores subscritos nos OICs em Angola ainda representam uma parcela residual do PIB, com activos sob gestão em AOA 486,5 mil milhões em 2020, que representa pouco mais de 1% do PIB. Estes indicadores são ainda muito distantes do verificado em economias mais desenvolvidas, nas quais o montante de activos dos OICs ascendem a 100% do PIB.

..Mas há aspectos positivos?

Ao longo dos úlitmos anos a indústria de OICs registou diversos aspectos positivos como a criação de novos OICs, o aparecimento de novos players, a consolidação da regulação e o crescimento dos activos sob gestão.

A recuperação gradual tanto da economia como do ambiente de negócios, ainda não se traduziu numa recuperação / melhoria na captação de investimento estrangeiro, que é uma fonte importante de liquidez para o mercado de capitais em qualquer País.

O mercado de OICs em Angola tem vindo a ganhar profundidade ao nível de OICs registados na Comissão do Mercado de Capitais, com maior preponderância para os fundos que investem em títulos de dívida pública e imobiliário. Contudo, há ainda espaço para a implementação de fundos com maturidades mais alongadas, e de diferentes classes de activos como Acções Cotadas, Capital de Risco (ou Private Equity), Titularização de Activos e outros com perfil alternativo, bem como de fundos com políticas de investimento que contemplem a integração de critérios ESG.

Quais são as perspectivas da Hemera Capital Partners para 2022?

R: A Hemera Capital Partners (“HCP”) enquanto entidade financeira independente tem hoje sob gestão fundos abertos e fechados, mobiliários e imobiliários, tendo recentemente registado junto da Comissão do Mercado de Capitais o primeiro fundo de capital de risco de impacto do mercado, o Dual Impact Fund. Alguns destes fundos estão mais direccionados para os chamados investidores qualificados, mas outros, como o fundo aberto de liquidez, é direccionado ao público em geral, e permite uma exposição por parte dos participantes ao mercado monetário e obrigacionista doméstico.

Para 2022, estamos a acompanhar de perto e com grande expectativa os processos de lançamento de emissões de acções em mercado bolsista em Angola. O lançamento do mercado de acções terá um papel importante no processo de financiamento de capital das empresas e poderá ser muito relevante para incrementar os níveis do desenvolvimento económico sustentável do País.

E como os OIC´s poderão contribuir?

Os OICs irão possibilitar a diferentes tipos de investidores acederem às oportunidades de investimento em bolsa através de um processo simplificado, geridos por equipas profissionais e independentes que conhecem os mercados em que os activos são negociados, e que se dedicam à rentabilização da carteira com uma gestão de risco robusta.

Actualmente o mercado ainda não tem registados fundos de investimento dedicados para investimento em acções cotadas em bolsa. A HCP tem fundos que investem em activos mobiliários, mas apenas em títulos e obrigações (em particular dívida pública). A criação de fundos de investimento em acções pela HCP não teve ainda lugar exactamente por não existirem, no mercado nacional, empresas cotadas e logo activos nos quais esse tipo de fundo pudessem investir. Por outro lado, o processo de investimento em acções cotadas em outras praças, via mercado nacional de OICs, não tem ainda sido possível. Mas tão logo o mercado nos permita, iremos seguramente avaliar a estruturação de instrumentos que permitam aos aforradores nacionais e demais residentes cambiais terem exposição a acções de empresas cotadas na BODIVA.

Acreditamos que o processo de negociação das Unidades de Participação (“UPs”) no mercado secundário é mais um passo de consolidação do plano de implementação do mercado regulado da BODIVA e da indústria de OICs, e que pode ganhar uma dinâmica diferente em 2022. Este processo irá permitir atribuir maior liquidez às transacções de UPs e consequentemente a promoção de fundos fechados e com maturidades mais longas de investimento.

A HCP pretende continuar a ter um papel activo na dinamização do mercado de OICs e está actualmente a estudar, para os OICs que tem sob gestão, a oportunidade de vir a registar as UPs dos mesmos na BODIVA, sempre de acordo com a estratégia de comercialização associada a cada um destes OICs.

E quanto aos ESG?

Adicionalmente, a temática do investimento de Impacto continuará em 2022 a ser cada vez mais debatida, aumentando os níveis de awareness sobre a importância de inclusão dos critérios ESG na política de investimento dos OICs. Neste aspecto, a HCP pretende este ano continuar a reforçar o seu papel na promoção do investimento sustentável em Angola. Como exemplo, em 2021 organizámos o primeiro Angola Sustainability E-summit, fórum que reuniu as referências internacionais sobre a Sustentabilidade e sobre Investimentos de Impacto, incluindo representantes das Nações Unidas e do IFC. O nosso objectivo é o de contribuir para colocar na agenda dos investidores a necessidade de transformação do paradigma de investimento, onde o retorno de investimento e as tomadas de decisão devem ser avaliadas tendo em conta não só uma perspectiva financeira, mas também social e ambiental, em linha com as melhores práticas de governo.

Administrador-Executivo da Hemeral Capital Partners, Mário Amaral