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Jorge Pereira Ramos: “Os investidores externos querem transparência, simplicidade e previsibilidade fiscal”

Arrumou a ‘casa’ da antiga BESAACTIF e lidera a Económico Fundos de Investimento, o novo ‘braço armado’ do Banco Económico para o mercado de capitais. Este ano, prevê lançar um fundo imobiliário de 20 biliões Kz, a cinco anos, e um mobiliário, de 10 biliões Kz de três a cinco anos. As privatizações via bolsa, em 2020, poderão servir para o lançamento de um fundo de acções, diz o CEO, que apela a que haja regras claras e mais mobilidade de capital para que surjam investidores estrangeiros.

Angola /
15 Jul 2019 / 14:56 H.

A Económico Fundos de Investimento resulta da BESAACTIF, formada há 11 anos. O que é novo?

A Económico Fundos, basicamente, do ponto de vista funcional e societário, herda a tradição da antiga sociedade BESAACTIF, assim como o Banco Económico herda os direitos e obrigações do antigo BESA. Assistimos a uma alteração societária, no âmbito da resolução do Banco Nacional de Angola (BNA) de 2014, na sequência do bailout do Banco Espírito Santo Angola, que criou uma nova marca, uma nova firma, com novos accionistas e nova administração, e o mesmo se passou como as sociedades gestoras, no caso, a BESAACTIF.

Mas não parou actividade...

A sociedade geria dois organismos de investimento colectivo (OIC’s), dois fundos imobiliários, o BESA Valorização e o BESA Património, que foram liquidados no âmbito da intervenção dos reguladores, incluindo a Comissão do Mercado de Capitais (CMC).

A liquidação passou por entregar os valores aos investidores?

Sim, de acordo com as avaliações das unidades de participação (UP) dos fundos. O processo de liquidação do BESA Valorização foi concluído no dia 22 de Fevereiro de 2018, e a liquidação do BESA Património foi feita a 14 de Julho de 2018.

Eram muitos investidores?

Eram muito poucos investidores. O BESA Património tinha alguns clientes do banco, investidores singulares e fundamentalmente o Grupo ENSA, que ficou detentor de UP, de direitos de crédito e de activos imobiliários no âmbito do processo de reestruturação do próprio banco. No fundo o banco cedeu activos a este grupo, escolhido pelo Estado, para que pudesse pagar o crédito ao banco. De outro modo, o banco cedeu esses activos e ficou credor do produto da sua venda.

Qual é o próximo passo?

Agora não temos OIC’s e estamos a pedir à CMC a constituição de novos OIC’s imobiliários.

Os activos que tinham, já não têm...

Neste momento, os activos estão na esfera do Grupo ENSA. Continuamos a apoiar na sua gestão, mas de uma forma comercial e não sob a forma de OIC’s.

De que valores estamos a falar?

O valor dos dois fundos liquidados ronda os 600 milhões USD.

Agora é começar do zero...

Exacto. Estamos a propor à ENSA a constituição de OIC’s e estamos a constituir um novo fundo imobiliário para o banco, que tem um conjunto de activos patrimoniais não operacionais, por exemplo, terrenos, edifícios, armazéns, que recebeu por incumprimento de créditos e que não quer gerir - e é aí que nós entramos. Há também activos operacionais, como agências encerradas, que podemos gerir.

Entre activos operacionais e não operacionais, de que valores falamos?

Pedimos à CMC um fundo na casa dos 20 biliões Kz, que inclui os tais activos não operacionais, alguns activos operacionais – armazéns, centros logísticos, alguns terrenos para futura promoção imobiliária– que o banco passou para nós. Dada a situação do mercado, no curto prazo não vamos fazer promoção imobiliária, vamos aguardar melhores dias, mas nesse fundo mais de 70% dos activos podem ser rentabilizados, por exemplo no mercado de aluguer.

Será um fundo aberto ou fechado?

Será fechado, mas com subscrição pública através do banco, para permitir que tenha vantagens fiscais. Achamos ser o momento certo para lançar, mesmo sendo difícil, em termos de rentabilidade, neste momento, bater a dívida pública.

Já tem ideia da rentabilidade que vai ter?

Não, mas sei que um fundo destes, nesta conjuntura, não consegue ter rentabilidades de dois dígitos nos primeiros um a dois anos.

Qual a maturidade?

De cinco anos, sendo que, por decisão dos participantes, pode ser aumentada até ao dobro.

O que estão a prever mais?

Prevemos também avançar com um fundo de investimento mobiliário.

Com títulos que estão no banco?

Ou isso, ou comprados no mercado em função das melhores oportunidades. Apontamos para um valor de cerca de 10 biliões Kz e as taxas são boas, mesmo com erosão cambial, da qual nos podemos proteger com obrigações indexadas.

A ideia é lançar também este ano?

Sim.

Também será de cinco anos?

Deverá ser entre três e cinco anos, também para clientes do banco, sobretudo do segmento private e institucionais, até porque são produtos que, mal ou bem, têm sempre algum risco, menos no caso do mobiliário. O mercado imobiliário está a cair desde 2014, mas começamos a ver alguma procura de petrolíferas, empresas prestadoras de serviços, embaixadas, etc., a porem novas pessoas cá. Vejo algum ‘mar’ a mexer-se desde o segundo semestre do ano passado, o mercado reagiu à baixa das rendas, e vemos também algum aumento de intenções de investimento na área da banca de investimento, por exemplo.

Não olham para outro de tipo de fundos, por exemplo, de infra-estruturas, capital de risco...

Não temos essa vocação. Para já avançamos com estes, este ano. Sabemos que vêm ai as privatizações, que são um objectivo central do Governo, não só pela receita que trarão, mas pela alteração que vão trazer à forma como o Estado angolano é visto lá fora.

Angola já tem estas características?

Ainda não tem o quadro fiscal adequado, em especial em relação aos valores mobiliários. Angola tem que fazer um quadro fiscal mais simples para as mais- valias. Muitos países isentam os não residentes de pagamento de imposto sobre mais-valias, em especial quando estão a abrir o mercado, por exemplo. O que aplicam é uma taxa liberatória sobre os dividendos e juros.

E há ainda a questão da conta-capital...

Sim, que não está resolvida e sobre a qual os investidores querem saber. Eles estão habituados, em momentos de stress nestes países, a quererem repatriar e não conseguir, e o risco já está embutido na taxa de retorno. Mas não estão habituados a stress permanente. Querem poder repatriar fora dos momentos de stress e até aceitam mínimos de retenção temporária de capital. Mas tem que haver clareza, e a abertura da conta-capital, que aqui ainda não ocorreu, tem que ser feita, e de forma diferente para acções e obrigações. As acções são mais voláteis, mas pode haver interesse em captar investidores em dívida pública, que tem rendimentos mais previsíveis.

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