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Banca e seguros: ‘aliança’ estratégica fortalece sector financiero

O avanço da consolidação nos sectores bancário e segurador, as mudanças regulatórias - no caso da actualização de alguma legislação por parte da Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG) - aliada à crescente participação dos seguros no resultado dos bancos, têm estimulado a revisão da estratégia de actuação dos bancos comerciais tendo como parceiro as seguradoras.

Luanda /
13 Set 2021 / 08:54 H.

Com a evolução do mercado segurador, a nível nacional, a relação entre os sectores bancário e segurador tornou-se mais estreita, o que abre portas ao fortalecimento do sector financeiro do País.

Por outro lado, o avanço da consolidação nos sectores bancário e segurador, as mudanças regulatórias - no caso da actualização de alguma legislação por parte da Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG) - aliada à crescente participação dos seguros no resultado dos bancos, têm estimulado a revisão da estratégia de actuação dos bancos comerciais tendo como parceiro as seguradoras.

Dentro desta perspectiva, alguns especialistas concordam que parceria estratégicas entre a banca e as seguradoras surge, não só como um importante meio para alavancar as vantagens competitivas, com a comercialização de produtos de seguros pela banca, como também por uma questão de salvaguardar os riscos inerentes ao crédito malparado, no caso do seguro de crédito, por exemplo.

O mercado conta , nesta altura, cerca de 25 bancos comerciais e 23 seguradoras autorizadas, que na sua maioria utilizam a rede bancária para a comercialização dos seus produtos, sobretudo o seguros relacionados ao ramo Vida, sendo que alguns bancos têm como apêndice uma seguradora.

Tal é o banco Sol, que tem como “afilhado” a seguradora Sol Seguros. O banco BAI, que é o maior accionista da Nossa Seguros, o banco BIC, que detém o BIC Seguros, o Banco Millennium Atlântico, maior accionista da Fortaleza Seguros, o BPC que concentra 70% do capital accionista da Mundial Seguros, bem como o banco Keve, que detém a Global Seguros.

Outras parcerias não menos importantes têm que ver, por exemplo, com a STAS Seguros e o BCI, a Sanlam e o Standard Bank, a Fidelidade e o Banco Caixa Angola, Tranquilidade e o Banco Económico entre outros.

Peso do canal bancassurance

O canal bancário tem sido uma das principais fontes de receitas de determinadas seguradoras, tal é a Fortaleza Seguros, que emitiu, no ano passado 155 654 apólices e o canal bancário representou 99% do total. Com um volume de prémios de seguro directo estimado em 5,55 mil milhões Kz, o canal bancário representou 36% do total de prémios emitidos.

Os prémios brutos emitidos pela Nossa Seguros registaram um crescimento significativo de 32% acima do mercado em 2020. O canal directo representou 68% do peso da produção da companhia, enquanto o canal bancassurance teve um peso de apenas 5% pela utilização dos balcões do banco BAI.

Na Fidelidade, além das agências e da mediação, a actividade do canal bancário se desenvolveu através de parcerias com sete bancos comerciais, o que se traduziu num forte crescimento do volume de prémios 5,3 mil milhões Kz em relação ao período anterior e na diversificação dos riscos. Ou seja, dos 29 mil milhões Kz do volume de negócios da seguradora, em 2020, 5,3 mil milhões Kz são provenientes da exploração do canal bancassurance.

A estratégia de negócio do BIC Seguros tem um grande foco na aplicação prática do conceito bancassurance usando os balcões do BIC, principal canal de distribuição da seguradora.

Para a CEO da seguradora, Fátima Monteiro, os dois sectores se complementam na sua oferta de produtos. Os bancos, através da sua presença massiva e da actividade que desenvolvem têm no sector segurador um aliado de peso, relação que é recíproca.

Nota que os seguros têm chegado cada vez mais longe dentro do território nacional com a utilização dos balcões de mais de 230 agências do banco BIC, o que permitiu que muitas populações tivessem o primeiro contacto com a realidade e vantagens do seguro.

Lembra que o BIC Seguros foi um dos primeiros projectos de bancassurance no País com um peso médio de cerca de 30% do número total de clientes da companhia.

Sobre os riscos que essa parceria pode acarretar no caso da falência do banco, a CEO frisou que o risco assenta, sobretudo, em factores psicológicos e de reputação uma vez que são actividades, apesar de financeiras, muito diferentes e são geridas de forma completamente autónoma, cabendo às seguradoras, mesmo tendo consciência da importância do canal bancário, diversificar os seus canais de distribuição”, alertou.

Por seu lado, o vice-presidente da Associação de Seguradoras de Angola ASAN, Paulo Bracons, olha positivamente a relação e entre a banca e os seguros, pois, como diz, na actual fase de desenvolvimento dos seguros, a nível nacional, o canal bancário, em particular ao nível do retalho, é imprescindível para a dinamização e venda dos seguros.

O entrevista do lembrou que hoje em dia no País não se comercializa, nos canais bancassurance, produtos de poupança e financeiros. No ramo Vida, adianta, apenas são comercializados produtos tradicionais (com coberturas de morte e invalidez) associados a crédito e Vida Grupo (para empresas). Daí que o mercado bancassurance esteja concentrado em produtos de retalho (não vida e vida tradicional), aponta.

Paulo Bracons afirma ainda que a ASAN é de opinião que o cliente deve ser soberano na decisão de escolher o canal e a seguradora que entender como mais adequada ao produto ou serviço que procura.

“À seguradora cabe-lhe apenas criar as condições necessárias para que isso aconteça”, disse reconhecendo a importância do agente e do corretor de seguros, sempre que cria valor na relação cliente – seguradora.

Em relação ao futuro do canal bancassurance, o vice-presidente da ASAN frisa que hoje é comum dizer-se que o futuro é digital. Avança que a importância da digitalização vai fazer-se sentir em todas as fases dos processos de negócio em seguros e na distribuição em particular.

Segundo Paulo Bracons, a abordagem é particularmente evidente nos canais bancassurance. Contudo, ressalta, apesar da crescente automatização de processos, no canal bancassurance em Angola vai prevalecer, no futuro, um misto entre automatização e relação presencial.

“No futuro, com a estabilização da economia, poderá haver um incremento dos produtos de poupança e financeiros nos canais bancassurance, que tradicionalmente vendem estes produtos. Neste contexto, é expectável que os volumes de negócio bancassurance cresçam significativamente”, estima.

Entretanto, o administrador da Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG), Jardel Duarte, precisou que não existe uma aliança entre a banca e os seguros.

“O que existe são acordos ou contratos entre seguradoras e bancos para a exploração das agências bancárias para a comercialização dos produtos de seguros”, garantiu, afirmando que os bancos são canais de distribuição válidos para a expansão da comercialização de produtos de seguros.

Destaca que a actual legislação veda o acesso a outros operadores que não sejam as seguradoras e mediadores de seguros, pelo que os bancos estão vedados de comercializar os produtos de seguros se não tiverem um acordo ou contrato com uma entidade seguradora licenciada pela ARSEG.

“A nova legislação da mediação vai, no entanto, mudar este quadro, dando a possibilidade aos bancos a exploração de produtos de seguros, realidade existente em outros mercados actualmente”, clarifica.

O administrador realça que não existe, actualmente, risco algum na relação entre as duas instituições, pois os bancos não assumem o risco, uma vez que são meros canais de venda, sendo que a responsabilidade de indemnização permanece com as seguradoras.

Jardel Duarte diz igualmente que existe espaço para todos no mercado segurador em relação aos canais de distribuição. O que a ARSEG vai salvaguardar, assevera, é que todos tenham as mesmas oportunidades de angariação.

Acrescenta que tem chegado à ARSEG informações segundo as quais alguns bancos, que possuem acordos com as seguradoras, têm agido de má-fé. “Ainda que o banco em causa tenha ligação a uma seguradora, não pode obrigar o cliente a subscrever um produto de seguro só porque está envolvido na oferta de um produto de crédito bancário”, disse.