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Ascensão do RMB ainda não belisca hegemonia do dólar norte-americano

Cerca de 59,1% de todos financiamentos no mundo ainda são concedidos em dólar, o que mostra a segurança, a garantia e a confiança que estão ancoroadas à moeda da maior economia mundial.

Porto /
11 Mai 2020 / 12:51 H.

A propagação global da COVID-19 e o seu impacto negativo no sistema económico-financeiro tem permitido à moeda chinesa, o renminbi (RMB), ganhar cada vez mais adeptos globalmente, o que tem gerado especulações o eventual fim da liderança da moeda norte americana neste palco.

A procura pelo RMB tem aumentado nos últimos anos, devido ao crescimento económico da China, de quase ou acima de dois dígitos por ano, sobretudo antes da guerra comercial com os EUA. A pujança económica do gigante asiático foi determinante para fortalecer o RMB diante do dólar .

Outra razão para o avanço da moeda chinesa resulta dos esforços das autoridades financeiras de Pequim em estabelecer acordos com alguns países para que o RMB seja o meio de pagamento nas transacções internacionais.

A China pagou em RMB um quarto das últimas importações e designou bancos de compensação e linhas de Swap para o exterior, inclusive em Nova Iorque.

A Coreia do Sul, a Polónia e a Hungria começaram a emitir dívida soberana em RMB, e até o Bundesbank (Alemanha), vinculado à tradição, anunciou planos de incluir o renminbi nas moedas de reservas.

Nesta cartada, muito recentemente o Banco Central da China (PBOC) lançou um programa teste para uso do renmimbi digital (E-RMB) em Shenzhen, Suzhou, Xiongan e Chengdu com recursos a cripto moedas. Inicialmente, os funcionários públicos destas cidades passarão a receber salários na moeda virtual.

Tais factos são suficientes para que o RMB destrone a liderança económica do USD? Acredita-se que não! Para que tal aconteça, a China terá de implementar reformas económicas e políticas mais profundas.

Caso contrário, a moeda será apenas um instrumento para diversificação de portefólio financeiro, a fim de mitigar riscos inerentes às sanções impostas pelo Ocidente.

Entretanto, o grande handicap político para recear da moeda chinesa é o facto de estar apoiada num governo autoritário e anti-democrático, o que propicia pouco controlo sobre os líderes chineses, de tal forma que pode despoletar instabilidade decorrente das lideranças unipessoais.

Dados da Eichengreen e Xia apontam o dólar norte-americano como mais procurado pelo mundo, independentemente do período recessivo actual. A título de exemplo, cerca de 59,1% de todos financiamentos no mundo ainda são concedidos em dólar, o que mostra a segurança, a garantia e a confiança que estão ancoroadas à moeda da maior economia mundial.

Fraco peso no crédito

Quanto à China, embora represente cerca de 12% do PIB global e do comércio, o RMB representa apenas cerca de 2% das concessões de crédito no mundo, muito abaixo do euro e da libra esterlina.

Quanto à circulação da moeda no sistema financeiro internacional, cerca de 43,8% ocorrem na moeda norte-america e apenas 2% na chinesa (ver gráfico).

Apesar de biliões de dólares em dívidas externas e de grandes gastos, com défices contínuos, os EUA ainda mantêm a confiança global e a capacidade de pagar as obrigações, pelo que a moeda continua a ser a mais forte.

Contudo, a história mostra que nenhum país ou economia pode permanecer dominante para sempre, e essa mudança, às vezes, ocorre rapidamente, como ocorreu com o dólar a substituir a libra no início do século XX.

Mas s a história também mostra que o mundo pode viver confortavelmente com mais de uma moeda dominante, o que implica que o euro, o renminbi ou mesmo o yen japonês possam dividir o palco com o dólar nas próximas décadas.

Quanto ao RMB, também pode tornar-se num porto seguro em tempos de crise, como tem sido a moeda norte-americana nos diferentes ciclos de contracção económica mundial. Para o efeito, a moeda deve ganhar cada vez mais espaço no sistema monetário internacional.

Isto implica que a China terá de estreitar laços com as duas grandes instituições mutilarias, Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, no sentido de disponibilizar créditos por via da sua moeda. Adicionalmente, vai precisar do apoio de mercados financeiros líquidos, que podem levar décadas para se desenvolver, mesmo que a economia chinesa continue a crescer sem interrupções nos próximos tempos.