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África: um caso grave na economia

África tem apenas uma fracção dos casos de coronavírus a nível mundial, mas as economias da região – incluindo a de Angola – já estão a sofrer impactos e o pior pode estar para vir, com a guerra de preços entre a Arábia Saudita e a Rússia. Perdas na África subsariana podem superar quatro mil milhões USD.

China /
16 Mar 2020 / 11:51 H.

A suspensão, anunciada, nesta quinta-feira última, de madrugada pelo presidente Trump, por 30 dias, dos voos provenientes da maior parte dos países europeus para território norte-americano é o mais recente golpe na economia global causado pelo coronavírus.

A indústria aérea é desde há semanas vítima da agora pandemia – foi declarada nesta semana pela Organização Mundial de Saúde -, que ontem ao final da manhã tinha infectado mais de 126.600 pessoas e causado a morte a quase 4.700 em todo o mundo, estando em 125 países.

Há cerca de uma semana, a associação internacional que agrega as companhias aéreas, a IATA, anunciou que o impacto do Covid-19 sobre o sector poderia ascender, neste ano, a 63 mil milhões USD, dos quais 17,5 mil milhões USD na Europa, incluindo 4,5 mil milhões USD em Itália.

O país europeu é o segundo mais afectado do mundo depois da China - e onde o vírus já tinha infectado ontem, até à hora de fecho desta edição, mais de 12.400 pessoas, causando a morte a 827.

Num cenário mais grave, a IATA aponta para perdas de cerca de 100 mil milhões neste ano, a nível global, mas o impacto da medida aplicada pelos EUA pode, pelo menos no próximo mês, contribuir para agravar as perdas.

Hecatombe petrolífera

O anúncio do presidente dos EUA, onde há perto de 1.340 casos e 38 mortes causadas pela infecção viral, foi uma péssima notícia numa semana que começou da pior maneira para os mercados internacionais. Segunda-feira, o preço do petróleo afundou 30%, a maior queda desde 1991, após o não acordo entre a OPEP+ e a Rússia para prolongar os cortes na produção – a única forma de segurar os preços face à quebra da procura e às perspectivas de abrandamento da economia mundial que o coronavírus gerou.

Ontem, ao final da manhã, o barril de petróleo Brent, que serve de referências às exportações angolanas, valia 33,73 USD, e as bolsas internacionais afundavam, sobretudo nos EUA, pondo fim a um período de ouro que se fazia sentir desde 2009. A guerra de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita, para já, está instalada – e os mercados estão a sofrer.

Uma ‘ilha’ chamada África

O continente africano é ainda uma ‘ilha’ no mapa da pandemia, com menos de centena e meia de casos e três mortes confirmadas, mas os especialistas em saúde publica alertam que não é garantido que a infecção não alastre, o que causaria fortes pressões sobre os sistemas de saúde e despesas públicas de países que, na maior parte dos casos, não estão em condições de suportar mais golpes do que aqueles que já enfrentam neste capítulo.

Mas há um impacto imediato no continente: o afundanço no preço do petróleo e na cotação de minérios exportados por vários países africanos está a pressionar os governos e vai causar danos económicos e financeiros ainda difíceis de quantificar. O facto de o coração da crise estar na China, o principal parceiro comercial de muitos países da região, não deixa margem para optimismos.

Nesta semana, o sul-africano Institute for Security Studies (ISS) alertou para os riscos “duradouros” sobre África, apesar do escasso número de casos. Ainda que o impacto nos mercados financeiros seja quase imediato, é provável que as consequências económicas sejam mais profundas e durem significativamente mais tempo”, apontou o centro de pesquisa.

O organismo referiu que uma pandemia de Covid-19 “afectaria desproporcionadamente África, dado o seu sector de saúde relativamente subdesenvolvido, infra-estruturas insuficientes e fronteiras porosas”.

“As consequências económicas para o continente serão provavelmente graves e duradouras. Muitos dos seus países têm uma elevada dependência das exportações de mercadorias para a China, contas públicas fracas, elevados encargos com a dívida e moedas voláteis, entre numerosas outras fragilidades externas”, acrescenta a nota do ISS.

A crise no sector mineiro está a afectar países como a África do Sul (ferro) e a Zâmbia (cobre), sendo que Angola, Nigéria e Gana são as principais vítimas da queda do preço do petróleo – que a Goldman Sachs estimou nesta semana que possa ficar nos 30 USD nos segundo e terceiro trimestres.

Ferro (África do Sul), cobre (Zâmbia) e petróleo (Nigéria, Angola e Gana) têm sido os sectores mineiros mais atingidos, mas é expectável que que haja perdas “severas” em áreas como aviação, turismo e congressos e hotelaria. A África do Sul, as Maurícias, Madagáscar, Quénia, Tanzânia e Seicheles devem ser os mais atingidos pelas quebras no turismo.

Angola em modo espera

No caso de Angola, uma quebra no preço do petróleo prolongada terá efeitos graves sobre a economia, fortemente dependente da commodity, cujo preço médio anual previsto no Orçamento Geral do Estado para este ano é de 55 USD. Ainda assim, para já, o Governo espera para ver, adiando uma eventual revisão do OGE2020.

O documento prevê receitas directas ligadas ao petróleo na ordem dos cinco biliões Kz (excluindo imposto industrial), sendo que mais de metade da despesa neste OGE é para pagar dívida. Não há, por isso, margem para muito: com as receitas petrolíferas a afundar, o Estado terá de cortar despesa e procurar alternativas de financiamento, ou seja, nova dívida, dado que aumentar a receita fiscal por outras vias tem um efeito limitado.

O OGE2020 prevê uma produção de cerca de 1,43 milhões de barris por dia, pelo que, por cada dólar a menos no preço do barril, Angola perde – ou não ganha - 1,4 milhões USD por dia. Em Fevereiro, de acordo com a OPEP, a produção foi de 1,39 milhões de barris por dia, mais 15 mil por dia face ao mês anterior.

Um estudo do Overseas Development Institute (ODI), um think tank global baseado em Londres, citado nesta semana pela Africa Report, estima em pelo menos quatro mil milhões USD as perdas na África subsariana ligadas à quebra de receitas de petróleo e cobre, uma ‘migalha’ face aos 360 mil milhões USD previstos a nível global, mas com impacto elevado no continente, que poderá receber do Banco Mundial 12 mil milhões USD em programas de apoio ao combate ao coronavírus.