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IPO’s podem esperar, privatizações na banca e seguros seguem dentro de momentos

Media Rumo promove webinar com responsáveis do IGAPE, Bodiva e CMC sobre privatizações no sector financeiro. Prejuízos, ambiente económico e necessidade de reestruturações levam Governo a desistir, para já, de alienar BCI e ENSA via dispersão de capital em bolsa.

08 Jul 2020 / 13:39 H.

Os prejuízos registados no ano passado e o ambiente económico desfavorável ditaram o recuo do Governo na decisão de dispersar para já em bolsa parte do capital do BCI e da ENSA, revelou o responsável do sector financeiro no Grupo Técnico para o Programa de Privatizações (PROPRIV). Ednilson Sousa, que falava num webinar promovido nesta quarta-feira pela Media Rumo sobre as privatizações no sector financeiro, afirmou, contudo, que a médio prazo haverá ofertas públicas iniciais (IPO, no acrónimo inglês).

O debate, moderado pelo director executivo do Mercado, André Samuel, contou com a presença, para além de Ednilson Sousa, de Odair Costa, administrador executivo da Bodiva, e Wanilson Rangel, director do Gabinete do Desenvolvimento do Mercado da Comissão do Mercado de Capitais (CMC).

De acordo com o responsável do PROPRIV, um processo que está a ser coordenado pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), a crise provocada pela pandemia de COVID-19 “veio agravar o ambiente e as condições de negócio” em Angola, levando a equipa que está a conduzir as privatizações a “reorientar a estratégia”.

Ednilson Sousa explicou que, apesar dos constrangimentos da pandemia, tem havido reuniões, via web, com os intervenientes, para que seja possível “reestruturar as operações e as condições de participação, para se poder adequar o processo à capacidade actual dos investidores”. “Os níveis de liquidez são mais reduzidos”, admitiu o responsável, que revelou que tem havido contactos quer com investidores nacionais, quer estrangeiros no quadro do PROPRICV, um programa a executar até 2022 e que prevê a privatização de 195 empresas ou activos do Estado.

O responsável fez um balanço positivo das privatizações já realizadas na Zona Económica Especial (ZEE) e assumiu que, nos casos do BCI e da ENSA, os maus resultados financeiros e a necessidade de reestruturação levaram o Governo a não optar pelo IPO, como estava previsto. No caso do BCI, o processo vai passar pelo leilão em bolsa de um ou mais blocos indivisíveis de acções, podendo, mais tarde, ser feito um IPO.

Já no caso da ENSA, a entrada de um novo acionista será via concurso público limitado, seguindo-se a dispersão em bolsa, a prazo. A privatização dos activos do sector financeiro, recorde-se, inclui também a venda de 25% de participação no Banco Caixa Geral Angola (BCGA), para além da alienação das participações de 8,5%, detidas pela Sonangol, e de 1,5%, detidas pela Endiama, no BAI, que serão alienadas também por meio de concurso público limitado por prévia qualificação.

Ednilson Sousa lembrou que, no caso do BCI, a avaliação da qualidade de activos levada a cabo no ano passado pelo Banco Nacional de Angola (BNA), a par da aplicação da norma de contablilidade IFRS9, levou à identificação da necessidade de provisões que afectaram negativamente o resultado. E, no caso da ENSA, para além das provisões feitas por causa de prémios por cobrar, entre outras, a par da necessidade de se proceder à revisão do modelo de governance, foi igualmente decidido não avançar, para já, com IPO’s. Sem margem para falhar A opção, defendeu Wanilson Rangel, justifica-se, até porque não é desejável que as primeiras experiências de IPO em Angola possam suscitar algum tipo de problema que afecte as seguintes. “É fundamental que a primeiro IPO corra bem, para não beliscar os processos seguintes”, explicou o director do Gabinete do Desenvolvimento do Mercado da Comissão do Mercado de Capitais (CMC). Para o responsável, é “importante fazer as coisas com calma” neste processo, sendo certo que “vamos chegar lá, leve o tempo que levar”.

Wanilson Rangel reconheceu que a crise que Angola vive, e agora se agravou, “tem afectado” a promoção do mercado de capitais no exterior, assim como internamente. “O preço a que o Estado se está a financiar encarece o custo de uma empresa que queira, por exemplo, ir ao mercado emitir obrigações”, explicou, apesar de haver indicadores no sentido de aumento da procura, ou pelo menos do interesse de investidores, incluindo particulares, em títulos de dívida pública.

Este interesse, de resto, traduz-se no aumento do volume de negócios da Bodiva, acrescentou Odair Costa.

De acordo com o administrador executivo da bolsa angolana, a capacidade de negociação da Bodiva “não foi afectada” pela pandemia, “pelo contrário”. “Em Março, atingimos o recorde de 135 mil milhões Kz negociados e, no mês passado, atingimos 150 mil milhões Kz”, revelou o gestor, que deu ainda conta do “aumento gradual e constante quer dos montantes negociados, quer de entrada e participação de novos operadores”, sendo o BPC um dos exemplos mais recentes. Mas, admitiu, a pandemia teve “um impacto ligeiramente negativo nos contactos com investidores”, um problema que tem sido contornado com o recurso a plataformas de reunião online.

O responsável destacou que “a Bodiva é a estação de chegada de todo o processo das privatizações em bolsa”, sendo que, nas opções que o Executivo levou em conta para a venda de activos na área financeira, nomeadamente o leilão e bolsa, há três modalidades de funcioanamento: de viva voz, como os leilões da famosa Christie’s, por envelope, ou misto. Bodiva como plataforma de financiamento A Bodiva, afirmou Odair Costa, quer “ser uma plataforma de financiamento do sector privado, que carece de investimento neste momento”. Nesta fase, acrescentou, as principais empresas que estão a operar no mercado secundário de dívida pública pertencem aos sectores do comércio, construção civil e indústria, a par da banca, que lidera as negociações.

O administrador executivo da bolsa angolana lembrou que, actualmente, a maior parte das poupanças “está parqueada em depósitos, a prazo ou à ordem, com taxas muito mais baixas do que as praticadas, por exemplo, nos títulos do Tesouro”, que atingem os 20% a 30% ao ano até à maturidade. “Falta o mercado de acções para os investidores mais propensos ao risco e mais agressivos”, disse, antecipando que, no curto prazo, não haja IPO’s. que satisfaçam este segmento.

BCI: intermediário financeiro quase escolhido Quanto ao processo do BCI, Ednilson Sousa revelou estar em fase final o concurso para a escolha do intermediário financeiro, após terem sido entregues ao IGAPE cinco candidaturas, uma das quais excluída, estando “por dias” o anúncio do vencedor.

O intermediário, explicou, irá auxiliar o banco na reestruturação e soluções de recapitalização, preparando BCI para ser vendido, sendo que a ideia é encontrar um parceiro estratégico, do sector, que leve a bom porto o plano de desenvolvimento da instituição. Neste caso, como no da ENSA, haverá um lote de acções para colaboradores, revelou Ednilson Sousa, sem avançar percentagens nem o momento em que tal poderá ocorrer.

O responsável do IGAPE garantiu haver manifestações de interesse no banco público, incluindo vindas do exterior. Internamente, um dos problemas do mercado de capitais, para além dos efeitos da crise, é haver ainda pouca cultura de literacia financeira “a vários níveis”, lembrou o director do Gabinete do Desenvolvimento do Mercado da Comissão do Mercado de Capitais (CMC). “É um trabalho de médio a longo prazo”, disse, lembrando as acções que têm sido feitas pela Bodiva junto de investidores, empresários e outros intervenientes. “O mercado de capitais em Angola começou há pouco tempo”, afirmou.

No regulador, a palavra de ordem é ‘tudo a postos’ para as privatizações, logo que elas ocorram em bolsa. “O papel da CMC será quando houver ofertas públicas de aquisição via mercado”, disse, lembrando que à instituição cabe acompanhar todo o processo de preparação e lançamento das operações, incluindo a validação do prospecto que será posto à disposição dos investidores pata cada operação.

Por enquanto, disse Wanilson Rangel, a CMC tem feito um acompanhamento “remoto e auxiliar” a entidades envolvidas nas privatizações, incluindo, desde logo, a Bodiva. O webinar, via conta de Youtube da Media Rumo, encontrou tempo para serem dadas respostas a algumas questões enviadas pela audiência, um modelo que será seguido na próxima iniciativa promovida pela empresa de media, no dia 8 de Julho, em parceria com a CMC. Em debate estarão a condições de acesso e operação no mercado nacional de investidores não residentes cambiais.