O realizador que foi a França mostrar o cinema angolano. Sem medos, porque ‘não há memórias mal captadas”.

Angola /
12 Fev 2019 / 09:13 H.

Ery Claver. “Não ter vergonha de errar”

Como foi recebido o filme ´Lúcia no Céu com Semáforos’ em França?

O balanço foi positivo, eu creio, só por ser inédito, o filme fez parte de um programa, dentro do festival, exclusivo a filmes africanos e é a primeira vez no festival que há uma presença angolana. A recepção do público foi muito boa e com muita curiosidade demonstrada em quererem conhecer mais do que se faz por cá.

O que está por trás desta internacionalização?

Nesse caso, falo especificamente no tipo de cinema que faço, com um cariz mais experimental, a internacionalização é quase o único veículo para exibi-los, tenho de estar à procura de lugares onde o meu trabalho possa ser “incluído”, pois não existem, oficialmente, circuitos cinematográficos por cá.

De regresso a Luanda, qual a próxima ideia a ser projectada?

De concreto, em termos cinematográficos, estamos na Geração 80 em fase de pré-produção para uma longa metragem, com o título de “Ar-Condicionado”, com realização de Fradique, a ser gravada ainda no primeiro semestre do ano. E espero poder terminar também uma série de 5 curtas, denominada “A Love Story About Power”, que estreou a primeira parte na última exposição colectiva “Fuckin Globo”, em Dezembro passado.

Quão complicado é ...produzir e realizar um filme em Angola?

Primeiro, é óbvio que não existe apoio institucional, nem conhecimento abrangente para que se possam criar condições contínuas para se produzirem filmes por cá, mas, como sabemos, o cinema, a cultura, não são os únicos sectores a “sofrerem” por falta de estruturas ou apoio governamental...mas acho que a maior dificuldade com o cinema está na nossa demora em criar alternativas, tanto na concepção como na exibição dos nossos filmes, penso que precisamos de assumir as nossas limitações técnicas, e não ter vergonha de errar, porque o que interessa é gravar o nosso tempo com as nossas estórias...afinal não existem memórias mal captadas.

Inspirações...existem?

Apesar de ser bom cinéfilo, as minhas influências são muito arbitrárias...são mais os lugares, as partes “escuras” da cidade, as pessoas que encontro, a verdade que acompanha sempre a boémia, enfim, tudo que acontece depois da meia-noite inspira-me bastante.

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