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Com petróleo a 60 USD, OGE 2021 tem uma “almofada” de 3,61 mil milhões USD

Caso o ouro negro se mantenha durante o resto do ano aos níveis desta semana, o Tesouro encaixará 9,2 mil milhões em receitas petrolíferas, contra os 5, 6 mil milhões USD orçamentados. Economistas receiam que, em vésperas de eleições, dinheiro seja gasto para “comprar” votos.

Luanda /
22 Fev 2021 / 08:59 H.

Com um preço do petróleo 60 USD por barril, o Orçamento Geral do Estado (OGE) 2021 tem uma almofada do lado da receita de cerca de 3,6 mil milhões USD, de acordo com cálculos do Mercado a partir de dados do gabinete de estudos do Banco Fomento Angola (BFA).

Ao preço de 39 USD, referência do OGE 2021, o governo espera uma receita petrolífera de 4,06 biliões Kz. Com o petróleo a 60 USD a receita petrolífera situar-se-ia nos 6,71 biliões Kz, garante o BFA. Feitas as contas caso o petróleo se mantenha aos níveis actuais o governo encaixaria mais 2,65 milhões Kz do que o orçamentado. Considerando uma taxa de câmbio de 730 Kz por USD em 2021, estamos a falar de uma almofada de 3,6 mil milhões USD.

O barril de petróleo Brent, referência das exportações angolanas, furou a barreira dos 60 USD esta segunda-feira e tem-se mantido. A alta do crude é justificada com um redução da oferta, cortes da OPEP+ mas também dos produtores de Xisto dos EUA, e aumento da procura impulsionada pelo início da vacinação nos países mais desenvolvidos.

Apesar do optimismo, a nova estirpe da COVID-19 é uma forte ameaça aos mercados, pois um novo fecho pode fazer cair todas as expectativas de uma rápida recuperação do choque do ano passado. O Banco de Fomento Angola (BFA) aquando da análise do OGE para 2021 ano já referia que o orçamento parecia bastante conservador devido aos pressupostos pessimistas sobre a performance da economia e, sobretudo, do preço do petróleo.

De acordo com uma nota de informação divulgada em Janeiro, o preço do barril de Brent de 39 USD pressupõe um desempenho da economia global “pior”, do que em 2020 quando a média do Brent situou-se pouco acima dos 43 USD. As previsões do mercado internacional para 2021 apontam para um nível médio próximo dos 50 USD e a previsão compósita da Bloomberg vai mais longe: 54,3 USD, lê-se no documento.

Os cálculos do BFA assumem um valor médio do Brent de 51,5 USD em linha com o valor a que o crude foi negociado início deste ano.

O banco também é mais optimista do que o governo sobre o desempenho da economia nacional apontando para um crescimento de 3%, contra os 0,3% oficiais. A diferença estás nas projecções para a economia petrolífera e não petrolífera. Enquanto o OGE 2021 espera um recuo de 6,2% da economia petrolífera este ano, o BFA antecipa um decréscimo ligeiramente menos acentuado de 5,3%. Já do lado da economia não-petrolífera, o governo prevê um crescimento de 2,1% mas o BFA é mais optimista, prevendo uma expansão de 6,8%.

A diferença significativa resulta do efeito de um preço do petróleo mais elevado, através de maiores receitas fiscais e de uma maior disponibilidade de divisas, que resultará num Kwanza menos enfraquecido do que no cenário do Executivo; ambas estas consequências resultam num ambiente mais benigno para a economia não petrolífera”, elabora o BFA.

Com petróleo a 60 USD, OGE 2021 tem uma “almofada” de 3,61 mil milhões USD

Angola não tem motivos para festejar

“Eu acho que não temos motivos para euforias, nem para dar festas com o aumento do preço do petróleo”, afirmou Carlos Vaz, economista e investigador do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola (CEIC).

“É verdade que é uma diferença razoável, de quase 20 USD em relação ao que foi orçamentado, mas, no entanto, sabemos que o mercado petrolífero é volátil, hoje os preços estão a subir, mas podem cair 60 ou 70% e podemos perder esses ganhos em pouco tempo”, afirmou.

“É uma grande notícia para o governo angolano, uma vez que temos o petróleo como principal garante da nossa economia, por exemplo no ano passado o petróleo representou mais de 90% da nossa importação e para esse ano com o preço do orçamento, podemos aqui olhar para uma “almofada” nas receitas de petróleo para o ano de 2021”, reforça o especialista em petróleo e gás, Patrício Wanderley.

“O que verdadeiramente interessa é o preço médio no final do ano”, aponta Carlos Vaz ao exemplificar que “o preço pode subir a 60, em Abril cair para 18, e depois em Maio voltar a subir, se por acaso conseguirmos manter os preços altos e no final do ano existir alguma poupança, poderá servir para pagar dívidas”.

“Devemos ter muito cuidado porque estamos em ano pré-eleitoral e todo o tipo de ganho que poderá se obter deve ser bem alocado”, alerta o economista.

“Espera-se que não se use essa receita para campanha eleitoral, com investimentos paliativos, que acabam por consumir muitos recursos e dando resultados que não estão a medida dos investimentos esperados”, clarificou.

“É importante referir que não há ainda motivos para se fazer excessos de gastos e também para poder retomar a prática negocial nos últimos dois anos, uma vez que a pandemia continua a ser um dos principais factores que têm impactado a indústria de petróleo e gás”, acrescenta Wanderley.

Segundo o especialista, a melhoria do preço deve-se à retoma nos níveis de importação da China e da Índia e à descida significativa da exploração de petróleo de xisto nos Estados Unidos da América que caiu em cerca de 20% se comparados aos níveis de 2019, bem como a notícia da vacina contra o coronavírus.

“Precisamos garantir uma eficácia na vacinação e nos resultados positivos que esses possam trazer a economia global para que haja um consumo ainda maior de energia em todo mundo, e com isso, reanimar os mercados petrolíferos”, apelou Wanderley.

“A medida que os países vão vacinando os cidadãos, tornam mais flexíveis as medidas de biossegurança e de confinamento, no entanto, a mensagem que a vacina passa aos mercados é que poderá haver uma recuperação na procura porque os países ficaram fechados, quase um ano e agora com essa abertura motiva os mercados”, realça Carlos Vaz.

“Não espero que o preço do petróleo volte a passar barra dos 60 ou a alcançar os anos anteriores, com 100 USD, porque as causas desse aumento são conjunturais e hoje a consciência do mundo está virada as energias renováveis e limpas, com zero poluição, entretanto, haverá uma mudança para energias mais limpas, e nós dependentes do petróleo não seremos os beneficiados com essa nova consciência”, avisa.