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“Vemos a necessidade angolana de infra-estruturas e indústrias”

Segundo o embaixador da maior economia europeia, as empresas alemãs reconhecem as oportunidades que Angola oferece, mas vêm também os acentuados desequilíbrios socioeconómicos entre as diferentes camadas populacionais e a necessidade de elevar o nível de vida da grande parte da população, bem como a necessidade de infra-estruturas e indústrias, que segundo o mesmo, não diminuirá com um crescimento populacional de cerca de 3%. Ainda assim, afirma que Alemanha pode contribuir para a diversificação da economia angolana.

Luanda /
02 Mai 2022 / 10:18 H.

Qual é o estágio actual da relação entre Angola e a Alemanha?

As relações bilaterais entre Angola e a Alemanha existem desde 1979 e são muito boas e amigáveis. Em Julho de 2011, foi lançada uma parceria abrangente entre os nossos dois países e criada uma Comissão Bilateral, que se reúne regularmente. O Presidente da República João Lourenço visitou a Alemanha em Agosto de 2018, e a então Chanceler Federal Angela Merkel até visitou Angola duas vezes durante o seu mandato, em 2011 e, mais recentemente, em Fevereiro de 2020. No nível menos político, o intercâmbio é igualmente intenso, também por razões históricas: Mais de dois mil angolanos estudaram ou formaram-se na República Democrática Alemã. Entre eles encontram-se actuais e antigos ministros, professores universitários ou empresários. Estou satisfeito e grato por estes antigos alunos continuarem a ter laços com a Alemanha e também com a língua alemã. Também foram celebrados alguns casamentos angolano-alemães, de modo que as relações entre Angola e a Alemanha têm um forte carácter familiar, para além das puramente políticas.

Qual é a dimensão da comunidade alemã em Angola?

Há cerca de 150 alemães a viver em Angola, cerca de metade tem dupla nacionalidade.

Que instituições e organizações alemãs operam em Angola?

A Alemanha tem uma base ampla em Angola. A Delegação da Economia Alemã promove as relações económicas e acolhe o recém-fundado Gabinete de Hidrogénio Alemão-Angolano. O Goethe-Institut está presente com eventos culturais e oferece cursos de alemão. A Fundação Hanns Seidel também actua em Angola desde meados de 2021, e pretende por exemplo apoiar projectos agrícolas em conjunto com empresas alemãs de média dimensão. No entanto, o grande potencial de Angola está longe de estar esgotado. Isto é particularmente evidente no nível muito baixo do comércio externo bilateral ou do investimento directo.

De que forma a Alemanha contribui ou pode contribuir para a estabilização e desenvolvimento económico de Angola?

Temos muitos planos! Acima de tudo, queremos desenvolver ainda mais as relações económicas. Umas boas duas dezenas de empresas alemãs já estão activas em Angola, incluindo pesos pesados dos sectores da energia e das infra-estruturas. Gostaria de citar como exemplo a Siemens, Voith, Andritz, Gauff e a filial da Fresenius Vamed. E, é claro, a Lufthansa voa para Angola. Mas a Alemanha também tem experiência em muitos outros sectores-chave. Da engenharia mecânica aos produtos farmacêuticos, passando pela indústria química. Na Alemanha pode encontrar quase todo o tipo de know-how. As empresas alemãs têm décadas de experiência nos mercados mundiais e podem introduzi-la ainda mais em Angola.

Em termos tecnológicos, como Angola pode aproveitar a vasta experiência da Alemanha?

Especialmente no sector da energia, queremos dedicar-nos às novas tecnologias. Os temas das energias renováveis e da protecção climática têm grande prioridade para o novo Governo Federal e para as empresas relevantes, razão pela qual queremos fundar o gabinete de hidrogénio já mencionado e desenvolver oportunidades de cooperação neste sector. Com a experiência no sector energético, especialmente no sector hidroeléctrico, Angola é para nós um parceiro de topo, que também pretende diversificar ainda mais a sua economia, melhorar o fornecimento de energia eléctrica no país e apostar mais nas energias renováveis. Portanto, é uma situação claramente vantajosa para ambas as partes.

Que análise faz das reformas económicas em curso em Angola?

Existe um consenso absoluto de que Angola deve reduzir a sua dependência do petróleo. Mesmo a actual subida do preço do petróleo não muda nada. Devido à pandemia de Corona, a situação global deteriorou-se significativamente. Algumas cadeias de produção e fornecimento foram severamente afectadas, os custos de frete aumentaram em alguns casos sete vezes. Uma situação dramática para um país altamente dependente da importação de bens. O desenvolvimento das suas próprias indústrias é, portanto, urgentemente necessário. Angola reconheceu isto e está no bom caminho. Com as suas tecnologias, a Alemanha pode contribuir para a diversificação da economia angolana.

De um tempo a esta parte tem-se assistido a uma redução do número de empresas estrangeiras a operarem no em Angola. Também tem sido o caso das empresas alemãs?

É claro que os últimos dois anos têm sido difíceis para todos por causa da Covid. No entanto, as empresas alemãs ainda estão activas em Angola. Infelizmente, os contactos pessoais foram muito limitados devido à redução das oportunidades de viagem. Espero sinceramente que em 2022 vejamos uma reviravolta para melhor e que os contactos, bem como as actividades económicas em geral, possam ser significativamente intensificados de novo. Os encontros pessoais são cruciais para o sucesso sustentável.

A Embaixada tem acompanhado (as empresas alemãs)?

Claro que sim. A Embaixada e a Delegação da Economia Alemã oferecem aconselhamento e apoio a empresas alemãs e angolanas com boas ideias de negócio. Também fazemos publicidade na Alemanha para engajamento em Angola, o que acreditamos valer a pena. Vemos a necessidade angolana de infraestruturas e indústria, que certamente não diminuirá com um crescimento populacional de cerca de 3%.

O que dizem os empresários a respeito da situação político-económica de Angola?

As empresas reconhecem as oportunidades que Angola oferece. Vêm também os acentuados desequilíbrios socioeconómicos entre as diferentes camadas populacionais e a grande necessidade de elevar o nível de vida de grande parte da população, por exemplo em termos de alimentação ou acesso a água, electricidade ou serviços de saúde. Os empresários afirmam que por vezes lutam com o que consideram ser uma burocracia demasiado complexa. O financiamento de projectos também nem sempre é fácil. Com a sua seguradora de crédito estatal Euler-Hermes, a Alemanha oferece um instrumento útil e adequado para minimizar os riscos. No entanto, o financiamento através dos bancos comerciais deve ser feito numa base estável.

Que peso ocupa Angola na relação da Alemanha com o continente Africano?

Angola é um dos três países africanos com os quais a Alemanha acordou uma parceria estratégica. É uma âncora de estabilidade numa vizinhança por vezes turbulenta e por isso extremamente importante para nós. Vemos o extraordinário e elevado empenho político de Angola na região e partilhamos a sua abordagem multilateral. Isto aplica-se particularmente à Conferência dos Grandes Lagos, na qual Angola desempenha um papel proeminente e responsável e fornece o Director Executivo da organização, o Embaixador João Samuel Caholo.

Já está em Angola há mais de seis meses, já conseguiu viajar um pouco pelo país?

Já estive na Huíla e no Cunene e, claro, tenciono viajar mais e conhecer Angola profundamente. Para além da minha curiosidade profissional, também sou movido pela curiosidade turística. Estou ansioso por conhecer o país e o seu povo.