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“Temos que motivar o sector privado a investir mais em zonas que eventualmente são de baixo retorno”

O Director Geral da ITA (que a partir de 08 de Julho vai chamar-se Paratus Angola), fala da estratégia do grupo que tem representação em sete países africanos e actua em outros 30 do continente. Francisco Leite chama também a atenção pelo facto de o Estado exercer dois papéis no sector das telecomunicações: o de árbitro e jogador ao mesmo tempo, o que é prejudicial para o sector.

Luanda /
20 Jun 2022 / 09:14 H.

A ITA vai passar por rebranding, depois de 18 anos a operar no País. O que está na base da mudança de nome?

Decidimos uniformizar a marca em todos os países, porque inicialmente quando se formaram as empresas que hoje fazem parte do grupo Paratus, todas elas começaram com a mesma designação, como Internet Technologies e depois o nome do país. A primeira foi cá, como Internet Technologies Angola (ITA), na mesma altura foi também criada a Internet Technologies Namíbia (ITN) e posteriormente a de Botswana (ITB). Mas depois, por uma questão estratégica do mercado, decidiu-se fazer um rebranding nesses países há alguns anos para a Paratus. Em Angola, dada a posição que a ITA tinha naquele momento, a própria estratégia de consolidação do mercado e porque o nome ITA soa bem em português, decidimos deixar a marca até um estado mais maduro e de consolidação de mercado. Neste momento temos a marca ITA consolidada no mercado angolano, então, decidimos uniformizar para termos esse alinhamento total com o grupo do qual somos parte fundadora.

Como decorre o processo?

É um processo que já decorre há mais de um ano, com pequenas acções, a começar na própria divulgação interna para fazermos perceber aos nossos colaboradores, em primeiro lugar, sobre o rebranding, que não se trata de uma nova empresa mas, simplesmente, de uma nova marca como tal. Hoje os nossos colaboradores já percebem exactamente o que se pretende, para que não se cause confusão nem mal-entendidos dentro da própria estrutura e depois passamos para os externos, nomeadamente, os nossos parceiros, clientes e fornecedores.

Para quando a mudança efectiva do nome?

É um processo que dura algum tempo. Estamos num momento crucial desse processo que culminará no dia 8 de Julho com a cerimónia oficial de passagem da marca ITA para a marca Paratus. Porém, temos que continuar a esclarecer o mercado porque consolidamos a marca e acho que nesse aspecto conseguimos fazer muitas maravilhas durante esses 18 anos de ITA, com maior incisão nos últimos cinco anos. Trouxemos a ITA como uma marca de prestígio no mercado, pelo menos é essa a percepção que temos pelo feedback que recebemos do mercado. Portanto, essa passagem tem de ser feita com muito cuidado para não perdermos os ganhos e todo o valor que a marca ITA neste momento tem. Esperamos que o processo se transforme apenas numa passagem e que a marca Paratus esteja ao mesmo nível da marca ITA que ainda vigora.

O rebranding vai significar também uma mudança de estratégia?

Na verdade, há alguns anos que já temos estado alinhados com a estratégia e a visão do grupo. A visão do grupo Paratus é construir em África uma infra-estrutura de telecomunicações e tecnologia de informação que catalise a inclusão social dos países africanos e tem sido esse o principal driver de todos os investimentos que a ITA vem fazendo ao longo dos anos. A mudança da marca vai consolidar a nossa posição dentro do grupo, mas por outro lado, também traz-nos outro posicionamento a nível do mercado: abre-nos maiores horizontes, não só internamente, mas principalmente no que concerne à estratégia de internacionalização e de consolidação dentro de uma rede africana Paratus. E por outro lado, traz-nos também outras valências, tal como maior poder negocial. Utilizando o prestígio que o grupo hoje tem e a capacidade financeira, permite-nos uma melhor posição negocial com os nossos parceiros, bem como uma melhor exposição em termos dos clientes globais, como por exemplo, as redes de supermercados, redes bancárias e de distribuição de correios a todas as redes que operam nos vários países de África. Em termos de grupo, dá-nos mais poder, mais possibilidades de trazermos esses negócios a Angola.

Em quantos países o grupo Paratus está representado?

Como escritórios e operação terrestre, neste momento, para além de Angola com a ITA (que será Paratus Angola a partir de Julho), estamos na África do Sul, Botswana, Moçambique, Namíbia e Zâmbia. Mais recentemente abrimos, e continuamos ainda numa fase de startup do negócio na República Democrática do Congo. Com isso, estamos com operação local em sete países de África. Continuamos a olhar para outros países e dentro em breve vamos anunciar outros onde estamos a fazer operações de trabalho. Porém, como footprint do nosso negócio, neste momento já actuamos em mais de 30 países africanos, onde temos o negócio consolidado.

Citou países como Namíbia, Botswana e África do Sul. Como Angola se posiciona em relação a estes países?

Não sei responder se alguns desses países estarão mais ou menos avançados em relação a Angola. São cenários e oportunidades diferentes. Apesar da visão global que temos, também temos a visão de cada país onde os próprios gestores têm autonomia para gerirem e adaptarem os projectos à realidade de cada país.

Isso seria um desafio...

Cada País tem os seus desafios, e nós como grupo, queremos criar essa malha africana, que é interligar os países e fazer com que as comunicações dentro do nosso continente, a começar pela zona Austral, nos permita fazer a integração da SADC, não só do ponto de vista político, económico e social mas também do ponto de vista tecnológico, que acaba por ser o grande catalisador e impulsionador para a integração regional que se pretende. Por exemplo, para passarmos para uma moeda única africana ou para o controlo migratório, ou para uma isenção de taxas e controlo alfandegário mais uniforme na nossa zona, só será possível se tivermos plataformas comuns e comunicação que seja suportada no mesmo tipo de malha. Como grupo Paratus temos esse propósito de ajudar a nossa região e África em geral, na construção de uma infra-estrutura consolidada que permita o desenvolvimento do continente.

E para Angola, quais são os desafios?

Continuamos com muitos desafios em Angola. Mas podemos dizer que já demos passos interessantes no ramo das TICs, principalmente no período pós-guerra, de 2002 para a frente, e temos vindo a dar passos cada vez mais assertivos. Cometemos alguns erros de percurso, principalmente no que diz respeito a investimentos, mas o facto é que hoje estamos bastante independentes em termos de base de telecomunicações e tecnologias de informação que actualmente temos no País. Basta pensarmos no que foi feito durante a pandemia, conseguimos, apesar de tudo, manter operacional alguns serviços de forma remota, bem como no sector de finanças e da banca, com uma série de pagamentos que hoje são feitos utilizando a tecnologia. Um dos grandes desafios que temos é continuar a construir infra-estruturas, continuamos com um país bastante “litoralizado”, e a litoralização de Angola não é só em termos de telecomunicações, mas de forma geral, no que diz respeito às infra-estruturas.

Está a dizer que há uma concentração dos investimentos nesta região do País?

Sim, no litoral, de forma geral. Se olharmos para Cabinda, até devido à própria especificidade dos negócios do Oil & Gas e depois para Luanda, Benguela, Namibe e Lubango, e talvez haja alguma excepção se olharmos para o Huambo. Obviamente que os investimentos iniciais são catalisados para as zonas economicamente mais apetecíveis, principalmente, empresas de carácter privado.

O que acha que deve ser feito para inverter o quadro?

Temos de criar incentivos para que empresas como a ITA (Paratus Angola, brevemente) possam realmente sentir-se mais motivadas em investir nas zonas mais remotas de Angola onde, eventualmente, do ponto de vista de retorno de investimento não sejam zonas apetecíveis. Outro desafio passa, por exemplo, numa melhor distribuição e utilização do fundo de desenvolvimento das comunicações, que existe formalmente, mas que na verdade não vemos grande retorno para os operadores deste fundo. Outro tipo de desafio, do ponto de vista da regulação, pode ser um incentivo sobre as próprias taxas e licenças que os operadores pagam para o regulador (INACOM). Temos que olhar para o País no sentido de motivar principalmente o sector privado em investir mais em zonas onde, eventualmente, numa primeira fase são zonas de baixo retorno de investimento.

E como andamos a nível dos quadros nacionais?

Em muitos sectores temos que recorrer a mão-de-obra estrangeira porque ainda não temos quadros com experiência e qualificação suficiente para desenvolver, instalar e depois fazer operações de algumas redes. Portanto, o nosso próprio sistema de ensino no geral, voltado para as tecnologias, no meu ponto de vista, terá que ser repensado e refeito, no sentido de ter um foco mais directo nas necessidades da empregabilidade no sector das tecnologias no País.

No geral os colaboradores da ITA são angolanos ou expatriados?

A maioria é angolana e sobretudo jovem. Muitos deles começaram sem experiência, fomos dando formação e hoje temos um manancial de jovens angolanos bastante competentes, mas ainda não conseguimos colmatar todas as necessidades de quadros apenas com o mercado angolano. Continuamos a recorrer a expatriados em algumas áreas específicas, mas sempre na perspectiva de no curto e médio prazo, irmos formando angolanos e substituindo paulatinamente os quadros estrangeiros que actuam na nossa empresa. Porém, devemos tocar num aspecto importante: hoje o mundo começa a ficar mais global e não podemos ter em nenhum país a intenção de que vamos cobrir tudo com apenas o know-how nacional. Temos que preferencialmente dar oportunidades aos nacionais, mas, por outro lado, devemos trazer também para o País todo conhecimento que traga valor ao crescimento da nação. Basta lembrarmos como foi o crescimento dos Estados Unidos.

A ITA conseguiu cumprir com a premissa de ligar o País em rede de fibra óptica?

Digamos que em grande parte cumprimos com a nossa visão estratégica, que era chegarmos às 18 províncias do País e a fronteira norte com a RDC. Neste momento, estamos muito próximo da fronteira leste. Porém, o País precisa de muito mais para estar ligado. Angola não se resume nas capitais de província, mas a uma extensão de 1.246.700km² e de angolanos que precisam de ter a tecnologia e estar digitalmente integrados na sociedade, porque só assim é que vamos construir e alinhados com a visão do grupo Paratus, que é de construir uma infra-estrutura em África que capitalize a inclusão digital dos africanos. Chegamos agora a todas as províncias. Vamos continuar a investir em redes de fibra óptica e em outro tipo de infra-estrutura que permitam serviços cada vez mais próximos dos cidadãos, apesar de termos um enorme caminho a percorrer.

Que balanço faz da actividade da ITA em 2021?

Bastante positivo. Apesar do cenário macroeconómico em 2021, que ainda não apresentou a viragem esperada, porque oficialmente tivemos um crescimento de 0,7% do PIB, e isto sem correlacionar ao crescimento da população que cresce 3% ao ano. Em termos de resultados conseguimos atingir as metas de venda, crescemos 19%. Se olharmos para as receitas, comparado ao ano de 2020, tivemos um aumento do EBITA de 34% para 35%. Quanto aos lucros (gross profit) crescemos de 16% para 24%.

Quais são as variáveis que influenciaram no resultado?

Os nossos resultados de negócio encorajaram-nos muito este ano e pensamos que isso só foi possível como resultado da estratégia de investimento e de reinvestimento e também pelo facto de termos adoptado critérios de gestão cada vez mais dentro das melhores práticas de gestão e de governança empresarial, com procedimentos e automação dos processos internos que nos permitiu melhorar a rentabilidade do negócio, controlar melhor os custos e por outro lado, em termos operacionais conseguirmos manter os nossos padrões de qualidade de serviço, desde o primeiro ponto de contacto com as nossas equipas de venda até ao processo de pós-venda com os nossos clientes.

Qual é a composição da vossa carteira de clientes?

Em termos de volume de negócios, a maioria é representada pelo sector empresarial, onde actuamos nos mais diversos segmentos de negócios, desde o Oil & Gas, retalho, sector mineiro e hotelaria e turismo. Começamos também a dar um foco particular ao sector das pequenas e médias empresas, com a criação de pacotes especiais. Fora do sector empresarial, actuamos no sector financeiro, na banca e seguros, diversificando naquilo que é o negócio do consumo. Outro segmento de negócio que é importante realçar é o “outsider” que é a venda a grosso de serviços a outros operadores e actualmente vendemos a todos operadores, seja serviços de telefonia móvel ou operadores de rede fixa que actuam no País.

Entre os sectores que acabou de mencionar, qual deles é o que mais procura pelos serviços da ITA?

Há uma grande variedade. Por conta da própria história do uso das tecnologias, obviamente que o sector financeiro, o Oil & gas e o retalho (sobretudo em redes de supermercados). Estes são os pioneiros na utilização de serviços que fornecemos, porém, hoje temos cada vez mais pedidos de clientes do sector público, através das empresas públicas e o próprio sector do Governo que era mais “conservador” e que demorava a adoptar as nossas tecnologias.

De uma forma geral, que análise faz do ecossistema das telecomunicações em Angola?

Alguns passos precisam de ser dados. Fez-se um bom trabalho do ponto de vista da regulação, dá-se aqui uma boa nota a toda a legislação que o regulador aprovou e começou a implementar. Por exemplo, uma delas foi a própria segmentação de licença de operadores, que permitiu a entrada de uma quarta operadora de telefonia móvel e a legislação sobre partilha de infra-estruturas. Tem sido feito um trabalho de mérito relativamente à regulação, porém, existe ainda uma gap em alguns aspectos em relação a legislação e a prática da actividade.

Pode clarificar?

Há que se fazer algum trabalho no sentido de se pôr em prática alguns aspectos da própria legislação, porque é a base para realmente alinharmos alguns aspectos do Ecossistema. Outra questão tem que ver com o próprio mercado. Do ponto de vista da concorrência no mercado, o próprio Estado, devido ao histórico de monopólio, ainda mantém alguma relutância e influência em alguns sectores. Posiciona-se por um lado, como árbitro e por outro como jogador. Do ponto de vista estrutural, tem de se olhar para a estratégia do Estado para disseminar o acesso às tecnologias pelo País. Isso começa, por exemplo, pela própria política de preços, pela política dos acessos aos cabos internacionais e pelos incentivos. Há necessidade de haver uma maior incidência para se materializar as intenções e construirmos o grande sonho que é transformar Angola numa real potência em África.