Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

“Temos muitos negócios e parcerias económicas por fazer”

Em entrevista ao Mercado, o diplomata israelita de origem etíope afirma que Israel está disposto a estreitar as relações e a investir em diferentes áreas de Angola, desde tecnologias, agricultura, tratamento de água, diamantes até mesmo no ouro e no petróleo. Segundo o representante da “Terra Santa”, o comércio entre Angola e Israel está em torno de menos de meio milhão de dólares, coisa que considera irrelevante.

Luanda /
21 Mar 2022 / 15:11 H.

É a primeira vez que exerce o cargo de embaixador?

Sim, mas estar perto da diplomacia e conhecer a África não é novidade para mim.

Como recebeu a notícia de ser embaixador em Angola?

Já tenho trabalhado muitos anos em África e estou ciente da importância das relações entre África e Israel. Trabalhei em alguns países africanos por muitos anos, por exemplo na Etiópia e no Ruanda. Até no parlamento onde fui uma espécie de responsável pelas relações de amizade entre Israel e África. Em 2015, a cargo do ministro das Relações Exteriores de Israel, visitei a África para encorajar e fortalecer as relações. Por fim me nomeou embaixador para Angola, República Democrática do Congo, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Estou feliz por estar aqui, vejo o potencial e podemos fazer muitas coisas.

É a primeira vez que vem a Angola?

Sim!

O que irá priorizar na sua missão?

Existem muitos sectores. Mas, por enquanto o melhor a ser feito é aprender, manter os olhos abertos, fazer parte do País, principalmente conhecer os governantes, a forma como trabalha e as necessidades do País. Angola é um lugar novo, então é melhor aprender primeiro, estou aqui há apenas um mês, tenho tantas ideias e certeza de que teremos algumas prioridades, poderá não ser numa ordem do primeiro ao terceiro. Às vezes, há coisas que podemos avançar em paralelo e promover em Angola. Por agora estou focado nisso.

Em Janeiro deste ano, recebemos o enviado especial do ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Iddo Moed, que afirmou que Angola está no topo da agenda e das prioridades na relação com o continente africano. Também é a sua visão?

É também meu interesse. Vejo o potencial económico de Angola e coisas em comum com Israel. África não está tão longe de Israel, é claro que temos muitos negócios e parcerias económicas por fazer. Temos a Mashav (Agência de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento do Ministério das Relações Exteriores de Israel) que é responsável pela concepção, coordenação e implementação dos programas mundiais de desenvolvimento, seja na agricultura; tecnologia; educação; energia solar e outros. Há tantas áreas em que podemos trabalhar juntos, não apenas negócios e empresas. Realçar que a agência tem um departamento que trabalha em todo o mundo. Israel tem especialistas em todas as áreas (então) para mim é positivo. Claro que (há quase) um ano sem embaixador em Angola criou uma espécie de lacuna; mas, meu plano é fortalecer as relações em todas as áreas, principalmente Estado a Estado.

Qual foi o seu contributo para o reforço da cooperação com a África?

Em 2015, com o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, eu (como responsável pelas relações de amizade Israel-África) pressionava e sugeria que devíamos fazer mais para melhorar as relações entre Israel e África. lembro-me de que na época percorremos cinco países (Etiópia, Quênia, Ruanda, Costa do Marfim e Gana) em cinco a oito dias. O que quero passar é a minha ambição, abordagem para África e Angola que é um país bonito com potencial em diversas áreas. Temos de trabalhar para implementar no campo e não apenas em palavras a fim de melhorar as relações.

Das pesquisas que fez, como olha para a economia angolana?

Ainda estou a pesquisar, mas o potencial é alto em diferentes áreas, tais como a agricultura, água, diamantes, até ouro e petróleo. São tantas áreas potenciais. Vou-me inteirar melhor dos detalhes para saber como é a economia de Angola. Um dado sobre o País que tenho pesquisado e aprendido (...) olhemos para as idades em Angola, 48% da população tem menos de 14 anos e 66% da população tem menos de 24 anos. É incrível, Trata-se de um país moderno e muito jovem. Significa que o limite é o céu, por isso estou optimista.

Como andam as trocas comerciais entre Israel e Angola?

A importação e exportação entre Israel e Angola são baixas, se compararmos de 2016 a 2020, pelo menos o que foi publicado. O comércio está em torno de menos de meio milhão de dólares. Em termos de trocas comerciais entre países não é relevante; mas como disse, vejo o potencial e podemos fazer muitas coisas em diferentes áreas. É nisso que vamos trabalhar.

Já teve reuniões com empresários israelitas em Angola?

Ainda não. Conheço alguns empresários, mas a minha prioridade, por agora, é ver e aprender sobre o País, a lei, os negócios, o modo de vida a nível micro e macro, depois terei um encontro com os empresários.

Mas, pelo menos sabe quais são as principais preocupações dos empresários israelitas em Angola?

Não sei muitos detalhes, o meu foco para os próximos meses é conhecê-los e saber dos seus desafios. Algumas coisas já sei, desde que estive no parlamento e por ter sido membro da Câmara de Comércio África-Israel, onde estão quase todos os empresários e as empresas israelitas com negócios em África. Várias vezes mantive encontros com representantes de empresas israelitas que querem vir para aqui. Foi-me apresentada diferentes actividades empresariais para promover em Angola. São muitas empresas. Estamos a falar das que têm experiência em pesquisar, explorar, identificar o potencial e ir atrás.

Que projectos Israel tem para implementar em Angola?

Os projectos serão implementados através do Mashav. Olhando para Israel, há uma agência excelente com conhecimento israelita em diferentes áreas. Uma organização sólida e filantrópica de Israel para os diferentes países nas mais variadas regiões, principalmente na África e na América do Sul. Israel é um país desértico e não tem nenhum mineral. Quando se tem problemas, temos de pensar numa forma de os resolver com tecnologia e diferentes ferramentas. O nosso deserto parece o paraíso, todo verde com uvas e legumes. Para o transformar usamos alta tecnologia e outras simples.

Israel é o quinto maior credor de Angola, as estatísticas do BNA apontam que a dívida está avaliada em 2,18 mil milhões USD. Como está a correr o processo de negociação de pagamento?

Ainda estou a estudar este tema, mas entendamos o sistema. Existe uma grande empresa, a Ashra que é uma espécie de seguradora. Emite seguros ou garantias para diferentes empresas israelitas que fazem negócios no exterior. Não tenho detalhes. Em geral, a empresa consegue o dinheiro e trata directamente com o país interessado sem envolver o Estado de Israel por causa do seguro. Então, não sei se verdadeiramente foram 2 mil milhões USD; 2,5 mil milhões USD ou 2,18 mil milhões USD. Existem dados diferentes, vou investigar melhor sobre o tema. Conheço a situação (junto da Câmara de Comércio), mas saberei melhor num futuro próximo porque exige alguma pesquisa. Temos de trabalhar com as empresas com o país, principalmente o Departamento Económico do Ministério das Relações Exteriores de Israel.

Que avaliação faz das relações entre Israel e Angola?

Fruto das reuniões que tive com o ministro das Relações Exteriores de Angola e também com o privilégio de partilhar algumas palavras com o Presidente de Angola, ao apresentar as minhas credenciais, percebi que existe proximidade. Temos bom espírito para promover e fortalecer as relações entre Angola e Israel. Depois dos discursos veremos como será em campo. Uma coisa posso dizer, estamos prontos e dispostos a estreitar as relações. Agora como embaixador devo trabalhar nisso. Tenho um plano, mas não é uma pessoa que vá fazer sozinha, temos de dar as mãos e ver o que podemos fazer juntos.

O que podemos esperar das relações entre os dois países nos próximos anos?

Muita coisa. Por exemplo, se eu puder pegar a questão da agricultura. Acabei de ver uma coisa que me chamou a atenção, o deserto no Sul, o problema da água. Em Angola existe (há alguns anos) o programa água para todos, sabemos que Israel tem vários especialistas nessa área. Israel, tinha um pequeno rio, uma pequena lagoa, o mar da Galileia que serviu de fonte de água de consumo diário e para a agricultura. Costumávamos levar água do mar da Galileia do norte ao sul e foi ficando com cada vez menos água, quase chegou fim. Isso fez buscar outras soluções. Agora, do deserto podemos usar a água para beber, dentro de casa podemos gerar água a partir da circulação do ar e usar até na agricultura. Usamos água do mar para beber, fruto das soluções que criamos.

Israel tem partilhado esta experiência com o mundo?

A propósito, em breve haverá uma conferência internacional em Dakar, Senegal, sobre as questões da água no mundo que é um problema global. Israel está entre os especialistas. Angola tem tantos recursos minerais e Israel especialistas. Até na questão dos diamantes, em Israel temos um instituto de alto padrão, o Israel Diamond Exchange, aqui existe a Sodiam e a Endiama. Por que não cooperar no ramo da cibernética e na questão da energia solar? Angola tem bastante sol, não é tão escuro como a Europa ou como em outros países. A energia solar pode resolver tantos problemas. Uma das maiores empresas de energia solar em Israel está no Sul. Há muitas ideias e essa cooperação é apenas para crescermos juntos. Vou usar minha experiência como ex-parlamentar e como educador, o que aprendi ao longo da minha trajectória não só como israelita, mas também como africano. Quero ser a ponte, é isso que tenho a dizer à nação angolana. O meu comprometimento é alto e vim aqui pela vitória. Estou optimista e espero que possamos fazer muitas coisas juntos.

Shimon Solomon, da Etíópia para Israel

Nascido na região de Tigray, na Etiópia, Shimon Solomon imigrou para Israel em 1980 como parte da Operação Brothers. Trabalhou como consultor educacional na escola secundária AMIT em Beersheba de 1992 a 1994, antes de se tornar um consultor educacional do Ministro da Educação, Cultura e Esportes em Jerusalém entre 1994 e 1996. Entre 1996 e 1999 actuou como consultor da Associação para o Avanço da Educação, além de se tornar diretor executivo de um centro comunitário etíope. Em 1999 retornou ao Ministério da Educação, onde trabalhou como conselheiro de dois Ministros até 2001. Após um curto período na Sociedade para a Proteção da Natureza em Israel em 2003, tornou-se Director de Serviços de Emprego para Acadêmicos da Etiópia para a Agência Judaica e o Ministério da Absorção entre 2003 e 2005. Entre 2005 e 2007 trabalhou na Embaixada israelense em Addis Abeba. O diplomata indicado de Israel em Angola já trabalhou, também, como director de educação na vila de jovens Agahozo-Shalom, que é uma comunidade de vida, aprendizado e cura, maioritariamente integrada por jovens vulneráveis do Ruanda. Foi um dos fundadores do novo partido Yesh Atid antes das eleições de 2013 , e foi colocado em décimo segundo lugar na lista do partido, tornando-se membro do Knesset quando o partido conquistou 19 assentos. Antes das eleições de 2015, optou por não concorrer à reeleição.