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Sílvio Almada: “Temos uma visão que permite que os negócios dos associados não fiquem estagnados”

Presidente da Associação Angolana de Provedores de Serviços de Internet, Sílvio Almada, diz que o sector no País evoluiu, mas ainda há um longo caminho por percorrer. E alerta que a tecnologia está concentrada nas grandes cidades, deixando um vazio em muitos pontos do País.

16 Set 2019 / 15:58 H.

Como caracteriza o sector de tecnologias de informação (IT) no mercado angolano?

Já estamos numa fase bastante madura. Há mais de cinco anos que falámos da tendência de alojar os conteúdos cá no País e hoje já há um despertar para isso. As empresas que estão ligadas ao ramo estão a investir em data center, e alguns tipos de serviços, como o correio electrónico, os operadores encarregaram-se de ter os seus próprios servidores, confiando nos primeiros provedores que tinham know-how. Os primeiros emails já estavam alojados nos provedores. Com o andar do tempo, as empresas e os técnicos foram-se também aperfeiçoando. Depois de se estabelecer a rede como instrumento que permite interligar ao mundo, o resto é muito mais fácil, porque o mundo tornou-se uma aldeia global. Depois foram surgindo empresas sem data center. As primeiras que surgiram no sector eram agentes ligados ao marketing, mas o negócio esteve sempre domiciliado lá fora, porque, como o País estava em guerra, poucos acreditavam no futuro, então era mais fácil os experts ficarem lá fora.

Hoje já há experts no País?

Sim. Hoje já há todas as expertises no País. Boa parte dos jovens que estava a formar-se lá fora, hoje, trabalha localmente e o mundo continua uma aldeia global. Mas, ainda assim, o que verificamos é que há mais downloads do que uploads, o que significa que consumimos mais do que produzimos. As aplicações todas estão lá fora e todos nós, quando precisamos consultar alguma coisa, vamos a um data center onde está o conteúdo está - lá fora. Como já referi, ultimamente a tendência já é de se inverter a situação.

A questão de alojar os nossos conteúdos lá fora não coloca em risco a soberania, ou esta questão aqui não é chamada?

Não podemos, de maneira nenhuma, pegar em todos os nossos conteúdos e alojá-los lá fora. Há conteúdos que são públicos, mas a tecnologia permite-nos criar redes privadas - as clouds, ou nuvens- que estão num local incerto.

Podemos criar estas redes privadas e os conteúdos ficarem alojados cá. Por exemplo, serviços que só se prestam em Angola não faz sentido que os seus conteúdos estejam alojados lá fora.

Por que é que vamos pegar num conteúdo que só os angolanos consomem para alojá-los lá fora e suportarmos custos com o espaço de alojamento?

Se quisermos crescer, conteúdos como da Administração Geral Tributária (AGT), por exemplo, têm de estar alojados localmente. Já viu o que é pegar em conteúdos da AGT e alojá-los nos EUA?

Quem é que tem interesse em conteúdos da AGT?

Certamente que é mais o angolano, então tem que estar num data center cá em Angola. Os equipamentos e a tecnologia utilizados no data center nos Estados Unidos são os mesmos utilizados em Angola.

Que conteúdos ainda seriam necessários alojar lá fora nesta altura?

Qualquer conteúdo que seja angolano, não há necessidade de alojar lá fora, tem que estar no País, num dos nossos data center, porque, como já referi, tem as mesmas características dos equipamentos lá fora, então podemos confiar. Por outro lado, temos o exchange point, ou ponto de troca de tráfego, que permite aos operadores estarem interligados ao mesmo ponto de acesso, com um IXP comunitário. São grandes investimentos que foram feitos e não faz sentido que continuemos a guardar informações que só a nós dizem respeito lá fora.

Quantos provedores de internet existem no mercado e quantos são associados da AAPSI?

A AAPSI tem 20 associado. Os associados não são só os operadores de serviços de internet. Inicialmente, quando nos propusemos criar a associação, pensámos apenas nos provedores de acesso, que disponibilizam uma linha, independentemente do conteúdo que está alojado lá fora, mas actualmente procuramos criar um estatuto para permitir que todas as empresas que fazem parte da indústria da Internet possam ser membros, opinarem e ajudarem a pensar o futuro, que nos reserva muita coisa. Fala-se em big data, internet das coisas, internet 5G, portanto, tudo isso envolve os provedores de acesso e os provedores de conteúdos. Não basta termos a parte de hardware, precisamos também da parte de software. Tentamos congregar todos e termos uma voz única. A ideia não é impor coisas, é pensarmos o que podemos fazer bem.

Quantos data center temos?

Não consigo precisar, mas o que sei é que quase todos os operadores têm pelo menos um, e há provedores que têm outros serviços especializados, como os serviços da cloud, e que já estão a ser prestados cá em Angola.

Recentemente a MSTelcom anunciou um serviço de cloud e cyber-segurança. Além desta, há mais empresas com estes serviços?

Sim, sei que a empresa Multipla também presta este serviço, e há outras a anunciarem. Se estão a anunciar, temos que confiar, porque são operadores que já demonstraram que são capazes de fazer as coisas, uma vez que esta é a tendência do mercado que não temos como inverter. Como já disse, já falávamos sobre isso há mais de cinco anos como uma tendência - e hoje é uma realidade. A cloud é algo que existe há muito tempo.

Antes, as máquinas que existiam eram centrais com terminais burros, é assim mesmo que se chamavam: as pessoas acediam às máquinas ao nível local e ocupavam muito espaço e não havia a possibilidade de toda a gente ter uma máquina. Hoje, a filosofia é a mesma, só que agora, atrás disso já existem grandes provedores de infraestrutura com empresas como a Intel e HP, que produzem hardware, e o seu tempo de duração vai baixando. Portanto, para um determinado negócio, as empresas não precisam ter tanto hardware que depois se transforma em ferro velho.

É preferível entregar a hospedagem dos conteúdos a uma empresa especializada e dedicar-se apenas ao core business. Se for uma empresa especialista em TI, terá um acesso para gerir os seus conteúdos e desenvolver o seu negócio, reduzindo, assim, os custos e tornando a empresa mais rentável. Não fica a perder tempo com problemas de falha de energia em que as máquinas se reiniciam, climatização para arrefecimento e outros factores que encarecem o negócio.A tecnologia avançou com a Internet e com a inteligência das coisas.

Qual será a tendência de evolução nos próximos cinco anos?

Ao nível do País, ainda temos um longo caminho por percorrer. Hoje, a tecnologia está toda concentrada nas grandes cidades, mas há muitos pontos do País onde precisamos chegar com a tecnologia. Mas também temos noção que, á medida que as regiões se desenvolverem, a tecnologia vai acompanhar. A tecnologia está preparada para ir onde há desenvolvimento. Há várias formas de a tecnologia chegar às zonas recônditas, como o investimento em satélites, que já foi feito, mas pensamos que ainda há muito por se fazer e o mercado tem uma grande margem de crescimento. Como associação, estamos a olhar também para o empreendedorismo tecnológico. Temos uma parceria com a Found Institute, em que tratamos de transformar as ideias em negócio.

Já há projectos concretos?

Já. Começámos o ano passado, e este ano lançamos as primeiras nove empresas/startups e vamos continuar, porque temos a noção de que o Estado não vai empregar todos os jovens e as startups são grandes geradoras de emprego. A nossa ideia é que, dentro das infra-estruturas tecnológicas que estão a ser montadas, surjam oportunidades de negócio que gerem empregos directos, com o surgimento de pequenos projectos que desenvolvam projectos e vendam os seus produtos ou as suas ideias.

Veja que, actualmente, muitas das tecnologias que estamos a utilizar são coisas que se desenvolveram com estas mesmas tendências. Alguém teve uma ideia, desenvolveu-a, surgiu um provedor que comprou ou investiu e transformou em negócio e alguns hoje são negócios milionários.

As tecnologias, a par do petróleo, são um negócio que move e dá emprego a milhões, portanto é uma aposta em que temos que incentivar os jovens, por isso apoiamos o empreendedorismo e estabelecemos uma parceria com a Founder Institute, situado em Silicon Valley, existe há mais de 10 anos e tem contribuído para a geração de muitos postos de trabalho.

Há mercado para as empresas detentoras de data centers que esperam hospedar conteúdos de outras empresas?

Há, e bastante. É só ver que a maior parte das empresas ainda tem os seus conteúdos alojados lá fora. Por exemplo, onde é que a TPA guarda os seus conteúdos? Muitos de nós fazemos download de músicas e vídeos nacionais, onde é que estes conteúdos estão guardados? Muitos deles ainda não estão cá. Portanto, todos estes são conteúdos podem ser alojados cá no País e podem ajudar o mercado e os operadores a crescerem, o dinheiro fica no País, o que ajudaria outros sectores a crescerem.

É fundador da primeira empresa de internet. Como surgiu e qual é o estado actual?

Depois da formação, em 1993, trabalhei para as Nações Unidas para desenvolver um projecto-piloto de redes de desenvolvimento sustentável, cujo objectivo era a preservação do ambiente, mas era preciso haver uma rede tecnológica. O PNUD entrou com uma parte do financiamento e o Governo com a outra parte, e havia a Universidade Agostinho Neto também envolvida. O projecto avançou de 1993 a 1995. Em 1996, com a experiência adquirida, chegámos à conclusão que era viável criar um projecto em Angola e idealizámos uma startup em que poucos acreditavam. Mas tínhamos o conhecimento, e o próprio entusiasmo fez com que continuássemos com o projecto até materializá-lo.

Qual era o projecto?

Inicialmente era o Angonet e, com o fim do fim do projecto da Nações Unidas e do Angonet, avançámos com um projecto mais comercial que se chamaou Ebonet, tornando-se, assim, na primeira startup do sector que cresceu, desenvolveu-se e foi criando parcerias e vendeu-se à Sonangol.

Das várias empresas de referência no mercado, em qual delas já trabalhou?

Eu posso dizer que sou um dos pioneiros da internet no País, que com um projecto transformei-o em negócio. Actualmente sou quadro da MSTelcom.