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Sidney Magalhães

“A implementação de uma estratégia de sustentabilidade dinamizada pelo sector público em forte colaboração com o sector privado é a fórmula de sucesso para a criação de valor”

Luanda /
24 Mai 2021 / 15:56 H.

O administrador executivo da Hemera Capital Partners, HCP, fala sobre a realização do 1º e-Summit de Sustentabilidade em Angola que abordará o papel chave que a Sustentabilidade e as Finanças Sustentáveis podem desempenhar no crescimento socioeconómico de Angola bem como na atracção de investimento internacional.

Qual é o objectivo do 1º eSummit de Sustentabilidade Q em Angola, que a HCP irá organizar no próximo dia 25 de Maio de 2021?

O objectivo é demonstrar o papel chave que a Sustentabilidade e as Finanças Sustentáveis podem desempenhar no crescimento socioeconómico de Angola bem como na atracção de investimento internacional. Os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas fornecem um guião para que cada país possa envolver agentes públicos e privados no alcance de um conjunto de metas, de forma a fomentar um desenvolvimento económico mais inclusivo e sustentável, trabalhando sob o lema “Não deixar ninguém para trás”.

Estando Angola actualmente a elaborar o seu relatório de acompanhamento destes objectivos sob a coordenação do Ministério da Economia e Planeamento, parece-nos crucial a abordagem ao tema de Sustentabilidade com a participação de oradores do sector público e privado, nacional e internacional, para reflectirem sobre qual o caminho futuro a percorrer de forma a que Angola continue a fortalecer o seu posicionamento no continente africano como um mercado actrativo, não só para investidores “tradicionais”, mas também para aqueles que procuram aliar retorno financeiro ao retorno social.

Em que medida este tema é pertinente para o País?

Este tema é crucial para Angola, não só pelo compromisso que assumimos com as Nações Unidas, mas pela importância e inevitabilidade que uma estratégia de sustentabilidade no sector público e privado representa para o crescimento económico e resolução de desafios sociais do País. Com a realização deste evento, pretendemos abordar o papel que o sector público, tem na adopção, regulação, implementação e dinamização deste tópico e trazer testemunhos de entidades financeiras internacionais de como a implementação de estratégias de sustentabilidade, não limitado a, mas em especial ao nível das finanças, potenciou a criação de valor de longo prazo, não somente para os accionistas (Estado ou privados), mas para todos os stakeholders, nomeadamente a comunidade, criando um crescimento mais inclusivo.

É oportuno falar de sustentabilidade, num momento em que Angola mal produz para satisfazer as necessidades actuais?

Exactamente por essa razão, pelo momento que passamos não só em Angola, mas nível mundial, que a abordagem e franca discussão sobre o tema não poderia ser mais oportuna. Uma visão do sector público e privado no sentido de construir uma sociedade e uma economia mais inclusiva e próspera são as metas dos Objectivo de Desenvolvimento Sustentável.

A implementação de uma estratégia de sustentabilidade dinamizada pelo sector público em forte colaboração com o sector privado é a fórmula de sucesso para a criação de valor, económico e para a nossa sociedade (de forma inclusiva), associado a uma melhor utilização dos recursos de que dispomos, aumentado por isso a produtividade em geral e benefícios resultantes como aumento de receitas, redução de custos, promoção da inovação, inclusão social e financeira, robustez do ambiente de governance, etc.

A Sustentabilidade, não se limita à Responsabilidade Social ou ao Ambiente, esta é uma estratégia transversal que visa repensar e maximizar a criação de valor a longo prazo e com objectivos claros, mensuráveis e em especial que envolvam todos.

Até 2030 todos os países do mundo devem implementar os 17 objectivos e 169 metas. De forma realista, Angola vai conseguir chegar perto desta meta, dado o contexto económico e social agravado pela pandemia da COVID-19?

Os ODS foram pensados a partir do sucesso dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) – entre 2000 e 2015 – e têm como objetivo ir mais longe na sua actuação e objectivos a alcançar bem como ser mais inclusivos, envolvendo todos os países. Trata-se de uma agenda alargada e ambiciosa que aborda as três dimensões do desenvolvimento sustentável: Económica, Ambiental, e sociais, que incluem importantes questões relacionadas com a paz, a justiça e instituições eficazes.

A mobilização dos meios de implementação, incluindo os recursos financeiros, tecnologia de desenvolvimento e transferência de capacitação, bem como o papel das parcerias, são também reconhecidos como fundamentais. Apesar dos desafios serem globais cada país, naturalmente vive contextos particulares nas três grandes dimensões dos ODS, e deve, portanto, definir prioridades e meios de como alcançar esses objectivos.

Naturalmente a pandemia trouxe desafios adicionais mas também acentuou a necessidade do cumprimento de diversos passos no sentido de se tentar alcançar as metas dos 17 objectivos. Enquanto guião os ODS devem servir para as entidades públicas e privadas definirem prioridades e objectivos de implementação, traçarem planos e em especial actuarem de forma conjunta e em parceria para a criação de valor inclusivo. É por isso importante esta mobilização de todos os agentes para acelerarem o cumprimento das diversas metas.

Que balanço faz do desempenho de Angola no alcance dos ODS?

Existem um conjunto de oportunidades por explorar tanto ao nível do sector público como privado.

Para os países africanos conseguirem atingir os 17 Objectivos necessitam de um investimento que anual de cerca de 354 mil milhões USD. Existe, portanto, uma oportunidade única para atrair o muito capital (de impacto) disponível a nível mundial para África e naturalmente para Angola.

A indústria de investimento de impacto que é um segmento de mercado cujos investidores pretendem que o seu capital gere não só retorno financeiro, mas exigem também que esse capital tenha ummpacto significativo na sociedade e no ambiente.

O total de investimento de impacto representa já 715 mil milhões USD a nível mundial. A parcela que África representa neste montante é de 15%, que apesar de ser um montante pequeno no total é proporcionalmente muito superior ao valor que o continente ocupa na captação de investimento tradicional.

Angola irá apresentar em Julho o seu Primeiro Relatório Voluntário de acompanhamento dos ODS e a Hemera Capital Partners, através da H-Impact, a sua iniciativa de impacto fez parte desta equipa multidisciplinar liderada pelas Nações Unidas, Executivo, INE e outros agentes, e onde se poderá ver que estamos a fazer o nosso caminho no alcance dos ODS. Esterelatório é de extrema importância pois dará o mapa do que está a ser feito e o que ainda precisa de ser realizado para se caminhar para a ambição dos ODS.

De que forma este evento contribui para a materialização dos ODS?

Este evento ao juntar o sector público e privado, bem como multilaterais e entidades internacionais pretende trazer pistas de como as finanças sustentáveis podem fornecer a bússola para um crescimento económico sustentável e inclusivo, captando recursos internacionais que apoiem esta tarefa de capacitação do talento. Pretende-se demonstrar como o Estado pode fomentar o sector privado a criar valor para todos os stakeholders, em especial a comunidade e não tendo uma visão redutora do seu papel na sociedade enquanto filantropo ou através de políticas individuais de responsabilidade social. O sector privado tem um papel muito relevante no desenvolvimento socioeconómico das comunidades e deve trabalhar em conjunto com o Estado para alcançar a melhoria das condições de vida das populações através de estratégias que passem por uma integração da chamada temática ESG (Environmental, Social e Governance).

Estas três dimensões são catalisadoras de iniciativas que irão criar valor para as empresas, e importa referir que falo de valor como aumento de receitas, redução de custos, aumento da base de clientes, criação de novos produtos / serviços, ao mesmo tempo que estão a contribuirpara a melhoria da qualidade de vida das pessoas, tanto ao nível social dos seus quadros e famílias, como das comunidades em que estão inseridas, dos seus fornecedores, dos seus clientes e demais stakeholders.

O tema da sustentabilidade está fortemente associado as questões ambientais, o que será desenvolvido neste âmbito?

O tema ambiental é também crítico numa altura em que o clima tem um forte impacto na vida das pessoas e pode significar a perda de rendimentos como vemos por exemplo com as chuvas intensas, pragas de gafanhotos entre outras questões que vão surgindo e que devem ser mitigadas para apoiar as pessoas que hoje vemos a (sobre)viver em condições precárias. Ao trazermos como oradores, agentes experientes na implementação de estratégias bem-sucedidas de sustentabilidade no contexto africano, pensamos que podem ser bons exemplos que demonstrem como esta pode e deve ser uma realidade para Angola. O que estes oradores partilham é a nossa visão de que uma estratégia de sustentabilidade tem um alcance muito visível, prático e mensurável em inúmeras dimensões, como benefícios sociais para a comunidade, criação de valor através de novas oportunidades de negócio, atracção de novos investidores que procuram cada vez mais produtos e empresas alinhadas com estratégias de sustentabilidade, nas quais os ODS são uma das componentes, redução de custos através de uma melhor utilização dos recursos escassos, como através de aplicação de políticas de economia circular, de reciclagem, medição e redução de consumos de electricidade, água, entre muitas outras vantagens.

Em relação a HCP, sendo uma entidade financeira independente sustentável nas áreas de Gestão de Activos, Banca de Investimento, com foco na África Austral, como avalia a economia angolana e quais os desafios prioritários a solucionar?

Temos enormes expectativas para a economia angolana e para o seu futuro. Acreditamos que são precisos dar passos nomeadamente em termos de um desenvolvimento mais sustentável e mais alinhados com as preocupações dos investidores internacionais que têm cada vez mais um foco e escopo por entidades e estados que tenham um forte alinhamento com os ODS e que o reportem. Mas este caminho motiva-nos tanto ao nível da literacia financeira, como da regulação passando pela criação de novos produtos financeiros sustentáveis, e que são áreas onde se poderá crescer e melhorar a vida do cidadão comum e das empresas, através do empoderamento das pessoas por via do conhecimento e da criação de melhores condições de vida que possa aumentar a renda média das famílias.

De que forma...?

Por exemplo, existem oportunidades estruturais em Angola que são similares ao continente como na agricultura onde se estima que África poderia produzir 2 a 3 vezes mais cereais e grão, o que teria um impacto a nível mundial no acréscimo de 20% da produção actual. Mas para isso são necessários investimentos ao nível dos insumos (fertilizantes, sementes), infraestruturas (irrigação, armazenamento) e outros, e mercados (aumentar o comércio regional e mundial), além de um incremento na produtividade, reduzindo também os custos totais de produção. Atrair investidores que tenham um perfil de longo prazo e um compromisso com as diferentes vertentes da criação de valor partilhado é uma das fórmulas de sucesso para Angola e isso tem uma forte relação com os temas que queremos abordar.

Para além da área de gestão de activos, o nosso contributo enquanto HCP para solucionar os desafios que temos pela frente, passa pelo apoio que podemos dar às empresas e entidades públicas, através das nossas equipas de Banca de Investimento e a nossa iniciativa de impacto a Kairos cuja mudança de marca para H-Impact foi ontem anunciada nos nossos “ Existem também classes de activos por explorar, estando por exemplo a HCP actualmente a trabalhar para num futuro muito próximo lançar um Fundo de Capital de Risco de Impacto Sid’ney Magalhães Administrador Executivo na Hemera Capital Partners Com 12 anos de experiência no sector Financeiro e em Consultoria Estratégica em diversos mercados, é actualmente o Chief Impact Officer (CIMO) da Hemera Capital Partners e responsável pela sua iniciativa de impacto , a H-Impact. Enquanto CIMO, é responsável pelo desenvolvimento da estratégia do negócio e de abordagem ao mercado, adicionalmente é responsável pela gestão e, se necessário, execução dos projectos de consultoria de sustentabilidade bem como pelo desenvolvimento de produtos de investimento sustentáveis, desenvolvidos com base em critérios ESG. Adicionalmente esta também a liderar a constituição do primeiro fundo de capital de risco de impacto cujo objectivo será apoiar empreendedores e PMEs em Angola.

Anteriormente foi consultor da Boston Consulting Group (BCG), uma das lideres mundiais de consultoria em estratégia e gestão, onde trabalhou essencialmente com empresas de sectores como o Petrolífero, Mineiro, Telecomunicações e Sector Público, tendo apoiado inúmeros clientes a endereçar os seus diferentes desafios de negócio.

Previamente, desempenhou funções na equipa de Risco e Análise Quantitativa na BlackRock, no seu escritório de Londres, e no início da sua carreira passou também pelo Barclays Global Investors, como parte da equipa de Risco, e pela Lehman Brothers como membro da equipa de Auditoria Interna. Tem uma licenciatura em Business (Hons) pela Universidade de Bath no Reino Unido. canais de comunicação.

Que avaliação faz da indústria de Organismos de Investimento Colectivo em Angola?

A indústria de OICs em Angola tem demonstrado um claro crescimento embora acreditemos que o seu potencial é muito superior. Comparando em termos percentuais, a poupança aplicada em depósitos, OTs e BTs com o montante aplicado em OICs percebemos o potencial que existe para uma transferência de investimento para OICs onde a existência de uma equipa de gestão profissionalizada pode oferecer maior retorno face aos riscos envolvidos, além de ter uma panóplia de produtos superior. Existem também classes de activos por explorar, estando por exemplo a HCP actualmente a trabalhar para num futuro muito próximo lançar um Fundo de Capital de Risco de Impacto, que esperamos poder comunicar muito em breve, este será um fundo de mercado estando nós actualmente disponíveis para conversar com potenciais investidores (institucionais e particulares). E já começamos a conversar com potenciais oportunidades de investimento para o fundo, tendo já identificado um pipeline de algumas centenas de empresas a nível nacional.

Qual é a vossa quota de mercado?

Entre 7 sociedades gestoras no nosso mercado, no final de 2020 a nossa quota era de 51% em termos de activos sob gestão (241 mil milhões Kz) entre 2 OICs mobiliários e 3 OICs imobiliários. Além disso, somos a sociedade que detém diversos fundos pioneiros no mercado, nomeadamente o 1º fundo Money market aberto (disponível para investimento em um banco comercializador na nossa praça), o 1º fundo imobiliário fechado de rendimento e o 1º fundo mobiliário fechado de proteção cambial, tendo a nossa equipa estado na génese de criação dos mesmos.

Relativamente ao mercado bancário, o acesso ao financiamento constitui uma das maiores preocupações dos investidores, por outro lado, a falta de confiança nos empresários inibe a banca de conceder financiamentos. Que soluções podem ser encontradas para resolver este dilema?

Passa pela construção de novos modelos tanto de análise de risco de crédito, como pela produção de dados que permita à banca conceder financiamentos deforma mais consciente e com maior mitigação dos diversos riscos.

A sustentabilidade tem também aqui um papel muito importante. Temos por exemplo na banca sul africana a incorporação nos modelos de análise de risco, critérios ESG e que permite conceder financiamentos de forma mais consciente e que levem a menores imparidades.

Mas isso também exige um esforço por parte do empresariado nacional que necessita de passar a medir e reportar a sua actividade não só ao nível de reporte financeiro, mas também da actividade não financeira e que incide sobre mensuração da sua actividade de sustentabilidade ao nível ambiental, social e de governance / económico.

São estes aliás os modelos já adoptados em vários países a nível mundial e representa a mudança do paradigma que esperamos que traga maiores oportunidades a todos os actores da economia, incluindo os bancos.

Além disso, os empresários devem estruturar melhor os seus projectos recorrendo a quem conheça a sua realidade e possa apresentar aos bancos a informação devidamente estruturada e com as métricas correctas. Por outro lado é preciso demonstrar aos bancos que possuem a equipa certa para implementar os projectos e gerir os diversos imprevistos que fazem parte das empresas.

Sidney Magalhães

Administrador Executivo na Hemera Capital Partners Com 12 anos de experiência no sector Financeiro e em Consultoria Estratégica em diversos mercados, é actualmente o Chief Impact Officer (CIMO) da Hemera Capital Partners e responsável pela sua iniciativa de impacto , a H-Impact. Enquanto CIMO, é responsável pelo desenvolvimento da estratégia do negócio e de abordagem ao mercado, adicionalmente é responsável pela gestão e, se necessário, execução dos projectos de consultoria de sustentabilidade bem como pelo desenvolvimento de produtos de investimento sustentáveis, desenvolvidos com base em critérios ESG.

Adicionalmente esta também a liderar a constituição do primeiro fundo de capital de risco de impacto cujo objectivo será apoiar empreendedores e PMEs em Angola. Anteriormente foi consultor da Boston Consulting Group (BCG), uma das lideres mundiais de consultoria em estratégia e gestão, onde trabalhou essencialmente com empresas de sectores como o Petrolífero, Mineiro, Telecomunicações e Sector Público, tendo apoiado inúmeros clientes a endereçar os seus diferentes desafios de negócio.

Previamente, desempenhou funções na equipa de Risco e Análise Quantitativa na BlackRock, no seu escritório de Londres, e no início da sua carreira passou também pelo Barclays Global Investors, como parte da equipa de Risco, e pela Lehman Brothers como membro da equipa de Auditoria Interna. Tem uma licenciatura em Business (Hons) pela Universidade de Bath no Reino Unido.