Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

Sérgio Hirose: “Quero quebrar o paradigma de que banco só quer ganhar dinheiro”

O empresário Sérgio Hirose confirma que cumpriu com os requisitos legais exigidos pelo (BNA), desde o capital social, estrutura, balanço, compliance, entre outros, para a abertura do banco digital DUbank. Avança que o site da instituição já registou mais de 6500 pré-cadastros para a abertura de contas e mais de 350 candidatos concorrem para 100 postos de emprego directos. O empresário esclareceu que o banco digital não quer ser concorrente da banca tradicional, porque terá o seu foco na informalidade e na educação financeira para que mais pessoas possam gerir melhor os recursos e passarem para o mercado formal.

Japão /
03 Fev 2020 / 12:15 H.

Há cerca de uma semana foi anunciado o primeiro banco digital angolano, denominado DUbank Angola, com um investimento inicial orçado em 12 milhões USD. O seu CEO, Sérgio Hirose, acredita que poderá ser inaugurado no primeiro trimestre deste ano. O empresário explicou, nessa altura, que o investimento está a ser feito desde Abril de 2019, aguardando apenas pela licença do Banco Nacional de Angola (BNA) para iniciar as operações. Apesar de Angola ainda não ter regulamentação ou legislação específica para a actividade de banca 100% digital. Ainda assim, o empresário, que também é o accionista majoritário, garante que a plataforma está pronta a funcionar, com alto nível de segurança e transparência, sendo que será igualmente auditado pelo supervisor, como um banco convencional.

Está há quase dois anos a residir no País como tem sido a experiência?

Há muitas semelhanças com o Brasil, tem um lado bom e mau, penso que depende da região onde estivermos, isso em termos de segurança. Mas o que me impressionou muito foi a diferença social, que se verifica ao atravessar a rua. Isso chamou-me a atenção, porque no Brasil, a riqueza e a pobreza estão equidistantes. Mas aqui estão lado a lado. O que mais me chamou a atenção foi o mercado informal. Fui estudar os números e estando a viver cá ajudoume a conhecer a realidade.

Quem criou o DUbank e o que significa DU?

Foi criado por mim. É a primeira vez que me perguntam cá o significado. O nosso conceito é fazer do DUbank o seu banco. O DU, vem de DUO, ou seja, dueto. Tal como num dueto em que temos de ter duas pessoas afinadas para ter uma boa canção. Essa é a nossa filosofia. Hoje as pessoas vêem os bancos como o vilão. Mas nós vamos ser o parceiro, o dueto.

Porquê que escolheu Angola para lançar um banco digital?

Era para lançar no Brasil, justamente quando vim para Angola, então confrontei-me com um momento em que tive de escolher: ou Angola ou Brasil. Mas no Brasil já existem muitos bancos, então eu seria mais um. Mas cá o DUbank é o primeiro.

Os bancos comerciais de uma maneira geral investem no que dizem ser banca digital. O que o DUbank traz de diferente?

O banco tradicional tem um internet banking e uma pessoa física para o atender, um gestor de conta. Mas no DUbank não precisará sair de casa para abrir uma conta, porque não teremos uma agência física, poderá fazêlo com um smartphone em qualquer lugar. É você quem faz a gestão da sua vida financeira, porque tudo é digital. Qualquer pessoa chega ao banco por telemóvel ou pelo site. Evidentemente, teremos uma estrutura de call center, para suporte e estaremos abertos todos os dias por 24 horas, durante os 360 dias e acessíveis em qualquer parte do mundo.

Que espaço acredita que pode conquistar neste mercado?

A banca digital está a crescer muito no mundo, pelo seu potencial, Angola não pode mais ficar fora deste movimento. No mundo todo abre um banco digital por semana, mas aqui é tudo muito novo ainda. Estamos a trazer para este país um Know how muito grande e que já vem preparado para trabalhar aqui. Assim como temos muitos investidores que querem investir no agronegócio em Angola. Hoje já temos fechado bancos correspondentes no Brasil, EUA e no Japão a esperar da concretização da DUbank para poder entrar.

Qual tem sido a reacção das pessoas desde que se soube da existência de um eventual banco 100% digital em Angola?

Depois da notícia ter saído muitas pessoas deram os parabéns e confessaram que era o que estava a faltar no sistema financeiro. Angola realmente precisa. É um mercado muito próspero para investir. E há interesse em investir em Angola. Embora ainda coloquem algumas dúvidas sobre o repatriamento de recursos investidos. Mas se se conseguir mostrar a facilidade, porque há muitos investidores estrangeiros que ainda não sabem disso, que há segurança e transparência, mais virão. Há uma semana anunciou que já tinha cinco mil pré-cadastrados para a abertura de conta. Houve alguma evolução? Até agora já contabilizamos 6500 pré-cadastrados.

Qual é o eu propósito com a criação do DUbank?

O nosso objectivo é contribuir para o aumento da educação financeira. Veja, o problema das pessoas não é só o crédito. Se fosse assim muitas empresas não quebrariam e outras que eram ricas não ficariam pobres. A questão primordial é a educação financeira, porque quando se tem, se consegue gerir adequadamente recursos. Nós vimos facilitar os meios de pagamentos. Uma das coisas que eu ainda vejo muito aqui são as filas de espera no banco e nos multicaixas. Gasta-se muito tempo nessas filas. Apenas uma minoria se privilegia das actuais opções de acesso a banca sem ficar nas filas. Então, o nosso foco é trabalhar na informalidade.

Qual é a estratégia para atrair este grupo alvo?

Se olhar toda a cadeia do mercado informal, vai encontrar pessoas que querem sair da informalidade, mas não têm como. Nó vamos ajudar a formalizar os seus negócios. As pessoas cada vez mais querem melhorar a sua gestão financeira. Uma vez que estamos em época de contenção de custos. Uma das melhores soluções é optar pelo banco digital. Deve-se acima de tudo buscar conhecimento para lidar com dinheiro de forma consciente e inteligente. O DUbank vai oferecer educação financeira para todos os clientes. Antes de abrirem uma conta ensinaremos sobre a importância da educação financeira. Essa é a melhor opção para quem quer mudar completamente a maneira de gerir o seu dinheiro.

Porquê o mercado informal?

Observamos um potencial muito grande, que pode adquirir educação financeira, ter acesso a um serviço bancário com muita facilidade, practicidade, com redução de custos e de tempo, planear os pagamentos, além de outros benefícios.

É um concorrente da banca tradicional?

Não. Como disse, quero trabalhar com o mercado informal, onde de acordo com os estudos estão pelo menos oito milhões de potenciais clientes. Se eu trabalhar com pelo menos 5% destes são 400 mil novos empregos formais que o DUbank gera, dando condições para as pessoas trabalharem. Como por exemplo, a manicure que faz o seu serviço de forma individual e que atende os seus clientes ao domicílio, pode receber pelos serviços de forma digital. Então o DUbank vai criar condições para que ela possa receber através do multicaixa ou do sistema de pagamentos. Isto quer dizer que ela está a sair da informalidade por via do sistema financeiro. Vamos investir também nos estudantes universitários, que poderão ter uma conta sem custos.

Que serviços estarão isentos de taxas?

Os clientes serão isentos de taxa de manutenção, entre outros produtos diferenciados. Embora tenhamos de aplicar igualmente as taxas regulamentadas, o cliente sentirá a grande vantagem do banco digital. Assim que estivermos a operar o mercado será impactado positivamente. Mas você diz que é um serviço, eu digo que não, é uma solução tanto para a população quanto para o Governo. É diferente. Quero quebrar o paradigma de que banco só quer ganhar dinheiro. O conceito sim, trata-se de um serviço, mas o que quero dizer é que lhe estou a dar uma solução.

Qual é a proveniência dos 12 milhões USD investidos?

Capital próprio e financiamento.

Onde investiu mais?

Em segurança. Porque vamos transaccionar os recursos financeiros das pessoas. Então precisamos garantir total segurança do serviço, temos de ser responsáveis.

Em quanto tempo estimam obter o retorno desse investimento?

Acredito que em mais ou menos três anos. Mas a nossa preocupação não é o retorno. Porque isso teremos. A nossa preocupação é tornar o DUbank um banco sólido.

Não terá sido muito arriscado realizar tal investimento antes da licença sair?

Eu tinha duas opções, esperar por essa autorização e depois começar a investir na plataforma ou como fizemos. Mas não estamos a apostar em Angola, a verdade é que acreditamos em Angola. Por isso, decidimos investir desde o início na plataforma. Hoje, estamos 100% preparados. Já temos os aplicativos e TPAs preparados. O que estamos a aguardar é a análise do BNA para nos conceder a autorização e junto à EMIS, que foi solicitada desde Junho do ano passado.

E o facto de não existir uma regulamentação ou lei específica para a banca digital não o demoveu de avançar...

Estamos aqui para ajudar, mas há coisas que de facto dependem de nós e outras do Governo. O que eu posso afirmar e garantir é que estamos prontos. Se tivesse a licença hoje, o serviço estaria disponível ao público em 40 dias.

O facto de as condições de atracção de investimento estrangeiro terem mudado foi um factor importante para decidir investir em Angola?

Sim. Porque não bom caminhar com um parceiro que não pensa igual acaba impactando. Uma coisa é pensar dentro da caixa e outra pensar fora. Isto faz toda a diferença. Eu observei fora a da caixa e vi a necessidade. Ao olhar para os problemas, vimos que podíamos ser a solução, esse é o nosso foco.

Que problemas detectou nos serviços bancários de cá?

Detectamos problemas visíveis, relacionados com os meios de pagamentos, burocracia do serviço. Por exemplo, há muito papel , que depois perde nitidez, porque se apaga. Mas no digital é só tirar uma fotografia que se mantém.

Quais são os parceiros da DUbank?

Vamos trabalhar com todas as empresas e em conjunto com seguradora, como meio de pagamentos e recebimento de serviços. Mas os grandes parceiros são empresas de alta tecnologia e segurança com quem partilhamos conhecimento. A nossa experiência vem de longa data, a equipa que construiu a plataforma trouxe a experiência dos bancos ITAÚ, Santander e outras grandes instituições financeiras. Porque a nossa grande preocupação é a segurança. Não se trata de uma aventura, mas um compromisso sério com Angola. E tem mais, quando digo que se trata de um banco 100% angolano, é porque realmente o é. Outros parceiros são fundos de investimento que querem investir em Angola em vários sectores. Vamos trabalhar também com a AGT para pagamento de impostos.

Os bancos geralmente realizam acções de responsabilidade social...

Tanto é que já colocamos no banco o DUbank social, que são projectos sociais em que vamos investir no mínimo 15% de toda a receita que o banco obtiver, para fazermos educação financeira e trazer a informalidade para a formalidade. As oito milhões de pessoas na informalidade, significa que circulam dinheiro que não desconta IVA, nem qualquer outro tipo de imposto que o Estado não arrecada. Então há aqui um grande volume não tributado.

Anunciou que poderá contratar 100 colaboradores. Quantos já se candidataram?

Já recebemos CVs de quase 550 candidatos e estou muito surpreendido com a qualidade da formação deles. Então tenho cada vez mais certeza. O País é como um diamante bruto.