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“Queremos transformar a Carrinho Indústria num importante instrumento de produção de alimentos”

O Complexo Industrial Carrinho, localizado na província de Benguela, quer associar a marca aos desafios da substituição das importações, com a produção anual de 1,2 mil milhões de toneladas de alimentos por ano, conforme indicou ao Mercado o CEO do empreendimento, Décio Catarro.

Luanda /
04 Mar 2022 / 12:17 H.

O grupo Carrinho tornou-se mediático nos últimos tempos e tem chamado a atenção de muita gente. Como surge a empresa?

Na fundação a empresa chamava-se Leonor Carrinho. Foi em 2014 quando começámos a fazer a transformação daquilo que era uma empresa de catering, logística, importação e exportação.

O que importava na altura?

Na altura importava todos os produtos da cesta básica, era um player no mercado que foi crescendo. Em 2010 e 2011, o actual presidente do conselho da administração da Carrinho Holding pensou em alterar a lógica de mercado e de negócio. Tinha de transformar o negócio da logística de importação em produção nacional. Isso aconteceu em 2014 quando me juntei ao grupo e começámos a projectar esse complexo industrial. Finalizado o projecto, pensámos que era também importante fazer uma transformação daquilo que era a Leonor Carrinho no Grupo Carrinho, portanto, hoje já não existe Leonor Carrinho enquanto entidade comercial.

Foi aí que surgiu a holding?

Sim, começámos por criar uma holding, que é a Carrinhos S.A. que tem as subsidiárias (empresas autónomas, mas dependentes 100% da holding), nomeadamente a Carrinho Agri que é a empresa mais recente e neste momento está num processo de fomento à agricultura familiar que, durante este ano, pretende envolver milhares de famílias em Angola, a fim de criar uma linha de abastecimento para a Carrinho Indústria que vai transformar a produção. Existe também a Carrinho Comércio que faz a distribuição e a venda nas (suas) lojas “Bem Barato”. Cada uma dessas empresas tem os respectivos CEO. No meu caso em concreto, respondo pela Carrinho Indústria.

Quantas fábricas existem na Carrinho Indústria?

No Complexo Industrial Carrinho (CIC), situado na zona da Taka, em Benguela, temos 17 fábricas de produtos alimentares, incluindo as que entraram em funcionamento esta semana. Estão prontas desde a inauguração, em Novembro de 2019. Acontece que surgiu a pandemia e como são muito tecnológicas, necessitam de tecnologia exterior e de técnicos expatriados. Devido a dificuldades de viagens, tivemos de pôr algumas fábricas em stand by, são os casos da refinaria e da fábrica de ração animal. Essas 17 infra-estruturas serão complementadas com mais três unidades, na fase III, cuja primeira pedra foi colocada ainda esta semana. Tratam-se das fábricas de extracção de óleo alimentar, refinaria de açúcar e de glucose.

Qual é a capacidade das fábricas que vão compor a III fase do CIC?

A fábrica de extracção de óleo terá capacidade de 4 000 toneladas de processamento de grão de soja por dia, 3 mil toneladas refinadas de açúcar por dia e 150 toneladas de glucose por dia.

De uma forma geral, qual foi o volume do investimento nas 17 fábricas que compõem o CIC?

O investimento foi à volta dos 600 milhões USD.

Qual é o nível de aceitação dos vossos produtos, no caso do arroz, açúcar, farinha, feijão e outros?

A aceitação é muito boa. Neste momento também já programamos a construção (na parte exterior do complexo) de uma torre de moagem para aumentar a capacidade de moagem de trigo e mais uma fábrica de descasque de arroz porque no momento estamos limitados para aquilo que é a nossa demanda.

Em relação ao arroz, é importado ou de produção nacional?

É importado e embalado cá, depois de passar por um processo de tratamento. A importação pode ser feita em casca. Neste momento estamos a importar o arroz castanho. Internamente, comprámos as primeiras 800 toneladas em Camacupa, província do Bié, que passará por um processo de branqueamento, polimento e depois embalado. Por outro lado, temos 1 200 toneladas de arroz em silo, adquirido no ano passado na província do Uíge. Estavam a deteriorar-se numa fazenda. Desde que seja cortado e seco no campo, temos capacidade de transformá-lo do princípio ao fim.

Em relação ao açúcar, existe um grande concorrente, a Biocom que tem fazendas de produção de cana-de-açúcar.

Quando pensam em investir nesse segmento?

Estamos a falar de duas coisas diferentes. Uma é a refinaria de açúcar e outra é a extracção do açúcar. A Biocom tem as duas. Faz a extracção da cana, tira da cana, aquilo que chamam de açúcar em rama e depois vai à refinaria para a refinação. A particularidade da Biocom é que a refinação é grosseira e isto mede se o açúcar é mais escuro ou mais branco. A Biocom não tem capacidade de refinação até ao final. A nossa refinaria fará esta refinação, desde a grosseira até ao açúcar mais fino e nomeadamente o açúcar em pó.

Vão continuar a importar a granel?

Numa primeira fase, vamos continuar a importar a rama porque claramente identificamos que um produto comprado em rama faz sentido. Com a Biocom estamos sempre abertos a eventuais parcerias, na medida em que possamos usar o açúcar em rama deles.

Qual é o maior desafio da Carrinho Indústria, em relação às três fábricas que tiveram o seu arranque?

O maior desafio passa pela extracção do óleo de soja no País. Lidar com uma fábrica pesada da indústria alimentar (que não é tradicional) levou-nos a crer que tínhamos de ter mão-de-obra nacional especializada. Neste paradigma temos o maior desafio, que é a formação de recursos humanos para colocar as fábricas em funcionamento. Por outro lado (o que é urgente), estamos a fazer o fomento agrícola do grão de soja e do girassol. Temos de ter essa fábrica pronta para fazer a transformação.

Quantos postos de trabalho foram criados?

Até ao momento temos 2000 já a trabalhar no CIC e no final estaremos na ordem dos 3200 a 3500.

Por que do nome Tio Lucas para as marcas da Carrinho Indústria?

Tio Lucas tem várias conexões. Quando começamos a embalar o arroz necessitamos de uma marca. Nos EUA o arroz é Uncle Ben, no Brasil é o tio João e nós o primeiro empregado da Carrinho que se chamava Tio Lucas. O Nelson Carrinho, Pai, tinha um negócio que trabalhava com o Tio Lucas que até hoje ainda trabalha connosco. Está nas oficinas e tem cerca de 60 anos. Portanto, é uma homenagem ao tio Lucas.

Qual será o investimento da terceira fase do projecto?

Será um investimento muito grande. Só em equipamentos industriais são 200 milhões USD e depois mais 200 milhões USD para toda obra civil, acabamento e terraplanagem.

De onde virá todo esse dinheiro?

O dinheiro virá do nosso trabalho. O financiamento é feito a partir do exterior, através de uma linha de crédito internacional do Deutsche Bank, na qual os fornecedores vão produzir os equipamentos e depois irão envia-los para nós. Ao contrário do que muitos pensam, nós não vemos a cor do dinheiro. O banco paga directamente aos fornecedores do equipamento e depois colocam os equipamentos cá para darmos início à produção. É um processo que envolve o Deutsche Bank alemão, envolve neste caso particular a Itália, que são os fornecedores do equipamento e por fim o BDA que é o Banco que garante que as divisas ou Kzs sejam transformados em divisas e transferidos para o exterior do País e o BFA, nosso parceiro em vários projectos. Assim, para o caso da refinaria de soja temos em números exactos 37,15% a serem financiados pelo BFA, 32.84% pelo BDA-Deutsche Bank e 30% de fundos próprios. Para a refinaria de açúcar, continuamos com 30%, o BDADeutsche Bank com 35,46% e o BFA com 34,54%.

Qual é a proveniência da matéria-prima para o fabrico dos diversos produtos no CIC?

Vem maioritariamente da Rússia (milho e trigo) e algum da Argentina. Mas essencialmente do mar negro, Ucrânia e Rússia. Quando passarmos a transformar soja internamente e não tivermos capacidade de produção iremos importar do Brasil.

Como caracteriza os preços praticados pelo grupo nos mais variados produtos?

Não estamos dissociados dos preços das commodities mundial. Por causa da pandemia da Covid-19, não podemos esquecer que uma tonelada há dois anos custava 250 USD e agora vale 350 USD. Infelizmente ainda importamos muita matéria-prima. Mesmo assim, os produtos alimentares e a farinha (por exemplo) baixaram os preços nos últimos dois anos. Uma caixa de massa alimentícia tio Lucas vendíamos entre 5 a 6 mil Kwanzas, actualmente custa 4 mil Kz. Não conseguimos fazer concorrência desleal porque (acima de tudo) queremos manter a qualidade, o óleo tio Lucas cumpre com todos os requisitos. Uma garrafa de um litro vai rondar os 1 500 Kz. Para os produtos mais baratos vamos lançar a ‘B! ‘ Trata-se de uma marca para quem persegue um preço mais acessível. O nosso objectivo é que a marca seja a mais barata do mercado, mas isso não quer dizer que seja um mal que mata, mas uma chamada à inclusão social, não queremos deixar ninguém de fora.

Há muitas fábricas que surgiram no País e fruto de vários processos económicos e crises acabaram por desaparecer. Como a Carrinho olha o futuro para manter a estabilidade no mercado?

Trabalhamos e temos uma paixão desmedida por Angola. Acreditamos no País e nas pessoas que querem melhorar tudo isso. Portanto, essa paixão é algo muito importante para fazer com que as dificuldades de hoje sejam as oportunidades de amanhã. É assim que pensamos e vamos continuar com aqueles que estão actualmente connosco ou os outros que vierem a seguir.

Qual é a possibilidade da criação de complexos nas outras províncias do País?

Quando inauguramos este complexo industrial, fizemos o lançamento do segundo complexo industrial que inicialmente seria construído no Soyo, denominado Wakanda que é o ciclo 2 (CIC 2). Já não será construído lá como previsto. Em princípio, será erguido no Ambriz. Devo dizer que vamos construir o maior complexo agro-industrial de África, três vezes maior que o de Benguela, onde vamos (além da produção dos produtos básicos) vai contar com outras particularidades. Vamos fazer à volta da fábrica a plantação de palmeiras para extrair o óleo de palma. Como o complexo estará numa zona agrícola, à volta vamos fazer a primeira grande fábrica de bombó com uma capacidade de 400 toneladas por dia. Portanto, vamos necessitar de muita mandioca e de batata-doce. Também, vamos fazer farinha de batata-doce, farinha de bombó e a parte do óleo de palma será algo complementar ao projecto de Benguela. Não deixaremos a comunidade de fora, nós somos pela inclusão, porque realmente acreditamos e vivemos o espírito de que Angola merecer o melhor.

Qual é o valor do investimento?

Ainda não temos uma noção, mas o CIC vai criar liquidez excessiva ao grupo. Como o grupo e a família têm o objectivo de (nos próximos 10 anos) investir 98% dos rendimentos da empresa, consideramos que haverá excedente em dinheiro e é isso que será aplicado. Neste momento estamos num processo de avaliação de quanto é que vai custar o projecto, mas andará na ordem dos mil milhões USD. O nosso objectivo é investir em Angola a riqueza que estamos a produzir.

Quem são os accionistas do Grupo Carrinho?

É a família Carrinho. O accionista maioritário é o Nelson Carrinho que tem 50% das acções, o irmão Rui Carrinho tem 40%, o restante é dividido por uma irmã e pela mãe que têm 2 e 8% respectivamente.

Há algum accionista que faz parte da administração do grupo?

Apenas Nelson Carrinho, que é o Presidente do Conselho de Administração da Holding e o Rui Carrinho que é o Vice-presidente da Holding. Depois, a administração é composta pelos dois donos: o presidente e vice-presidente da Holding e tem os administradores, que são os CEO’s das empresas, no qual eu sou um deles, o Marcos é da área do Comércio e o David que responde pela Carrinho Agri e fazemos o Conselho de Administração Executivo da empresa.

Um engenheiro ligado à produção alimentar

Décio Catarro, 55 anos, casado e pai de dois filhos, passou por uma escola militar em Portugal. Depois formou-se em engenharia de sistemas de potências e ingressou nos primeiros empregos nas áreas das engenharias, manutenção e planeamento.

Especializou-se mais tarde em operações nas áreas de gestão e produção, gestão industrial. Já trabalhou em multinacionais e em empresas de relevâncias em Portugal.

Tem uma vasta experiência em indústria alimentar, fazendo acontecer projectos em Portugal, Espanha, França, Alemanha e Itália. Em 2014 é convidado para realizar aquilo que considera um sonho para um engenheiro, que é pôr em prática não só o projecto em si das fábricas, mas um conceito de negócio bastante inovador.