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“Os seguros têm feito quase o mesmo caminho que o sector bancário”

Administradora da Global Seguros, Domingas Rangel, defende que fusões podem resultar no sector dos seguros como aconteceu na banca. Aponta ainda que algumas empresas que também foram autuadas pela ARSEG podem ver uma solução de união com outras seguradoras para conseguirem sair da situação em que se encontram, bem como operadores com necessidade de fortalecer presença no mercado podem optar por fundir-se.

Luanda /
08 Nov 2021 / 13:50 H.

Algumas seguradoras foram instadas pela ARSEG a fazer actualização do seu capital. Qual é a situação da Global Seguros?

A Arseg enquanto regulador tem feito o seu papel em garantir que o mercado tenha uma robustez financeira e as seguradoras possam, efectivamente, apresentar soluções e tenham a capacidade para garantir uma confiança ao consumidor final. A global não ficou de fora deste processo e desde que fomos contactos pela ARSEG foi uma das prioridades alterar todo este cenário, até porque que não foi nada abonatório para a nossa imagem enquanto empresa. Mas felizmente estamos no bom caminho. Fizemos recentemente uma injecção de capital, estamos a formalizar todo este processo e isto vai melhorar em muito os resultados da empresa.

Qual foi a evolução dos resultados da Global Seguros mos últimos dez meses?

Tivemos resultados muito positivos. Estamos num processo de implementação de um plano estratégico e todas as actividades que estão associadas a este plano implicam, de alguma forma, a melhoria dos nossos níveis e a nossa robustez financeira. Nos últimos 10 meses fizemos um aumento de capital, que já foi aprovado pelo Ministério das Finanças. Segue em marcha o nosso plano de restruturação e fizemos uma renegociação com os credores estrangeiros com sucesso, facto que contribuiu para a melhoria dos nossos resultados. Até à data pode-se dizer que tivemos resultados positivos face ao ano anterior.

Em que consiste este Plano Estratégico?

O Plano Estratégico tem um período horizontal de três anos, foi desenvolvido para olhar em todos os processos da Global Seguros e está assente em três pilares fundamentais, que passa pela gestão de riscos, clientes até a área de suporte. Isto faz com que estejamos todos focados hoje, desde o Conselho de Administração até os colaboradores de base estão envolvidos e comprometidos em levar a bom rumo este plano.

O litígio com a GBG Insurance está terminado? Existem outros processos que a Global Seguros enfrenta?

O processo da GBG está terminado sim e ficou de alguma forma complexo, não propriamente por alguma falta de vontade do nosso lado em resolvê-lo, aliás nunca deixamos de cooperar com a outra parte. Mas a situação e a conjuntura do nosso País não permitiu. Tivemos dificuldades como qualquer empresa num outro sector teve, e isto dificultou com que tivéssemos que honrar com o nosso compromisso junto da GBG. Felizmente isso já não é um problema e não temos nenhum processo em tribunal. O que temos hoje são processo de renegociações de dívida com credores internacionais e nacionais para garantir efectivamente a exposição que nos tínhamos. No caso da divida estrangeira tínhamos uma exposição cambial e isto foi um dos focos que tivemos para eliminar e assim melhorar os nossos resultados.

A informação que circula é de que a Global Seguros teve de pagar cerca de 17,5 milhões USD para liquidar a dívida...

A nossa divida era esta, mas passamos por um período de renegociação e fizemos um pagamento para eliminar esta divida. E a negociação teve um bom porto.

E em relação à carteira de investimento, o volume atende a expectativa da empresa?

É importante esclarecer que a Global Seguros enquanto seguradora, os seus investimentos seguem aquilo que são os instrumentos que a própria legislação disponibiliza. Neste momento temos investido em activo que nos traz alguma rentabilidade, mas é do nosso interesse cumprir com aquilo que são os requisitos legais na partilha de investimentos por forma a garantir e a suportar todas as responsabilidades que nós assumimos.

Quais são os ramos que têm demostrado maior crescimento?

Estamos num contexto de alguma dificuldade, quer no sector quer na economia. Estamos a ver pequenos sinais de recuperação economia e nesta situação é normal que os ramos que tenham maior crescimento ou aderência por parte da população e das empresas sejam os obrigatórios. Isso recai no ramo automóvel, incêndio, acidente de trabalho para empresas e o ramo doença (não sendo obrigatório) é um ramo que temos visto bastante crescimento por causa da procura, para algumas empresas é um benefício para os seus colaboradores, mas também a alguns particulares por forma a estarem protegidos financeiramente.

Quais são os números que nos pode avançar?

Daquilo que são os indicadores partilhados pela ASAN a nível de doença temos um crescimento de 15% a 20%, mesmo o ramo automóvel tem um crescimento na ordem dos 12%. Os acidentes de trabalho é que estão a ter um crescimento moderado, mas explicasse pelo facto de algumas empresas estarem a reduzir pessoal e outras a fazer contenção de custos com alguma redução salarial e isso impactou nos prémios emitidos neste ramo. Mas o outro ramo que cresce muito a nível de 30% por ano neste momento é o da petroquímica, em que todas seguradoras que investem neste ramo vêm os seus indicadores a crescer.

A Global Seguros faz parte deste cosseguro?

A global neste momento está excluída, mas estamos a trabalhar e é todo nosso interesse assim que tivermos todas as condições criadas voltar a subscrever integrar o cosseguro.

O que a Global Seguros tem feito em prol da literacia financeira?

A global tem feito algum trabalho neste sentido, mas é necessário olhar para aquilo que o órgão regulador tem feito. A ARSEG tem trabalhado muito com algumas instituições que possam levar a educação da “ Devo dizer que a 6ª posição num grupo de 23 seguradoras não é mau de todo. Ainda é uma posição de destaque... nunca foi nosso interesse sermos a maior seguradora de Angola, mas uma referência importância dos seguros nas famílias e nas empresas, e, inclusive está agora com um projecto que leva a literacia dos seguros em línguas nacionais e isto é um indicador muito positivo.

As empresas e os operadores também têm feito, mas é importante percebemos que este processo não passa apenas pelos operadores nem pelo regulador. Ou seja, todos os intervenientes do sector devem participar e é importante também chamar os prestadores que possam ajudar em todo esse plano de educar a população. Não é apenas uma estratégia do órgão regulador, acaba por ser uma estratégia nacional em conseguirmos atingir os mesmos níveis que a região da da SADEC, que actualmente anda na ordem dos 3% a 5%. Angola conta ainda com um taxa de penetração inferior a 1%. Há ainda muito trabalho a fazer, mas, esse caminho está a ser feito e creio que estamos a conseguir alguns resultados positivos.

Como é que caracteriza o mercado segurador nacional?

De forma geral, podemos dizer que estamos a fazer o caminho caminhando. O contexto pandémico não foi abonatório para todos, algumas instituições, empresas e sectores entraram em pânico e no nosso caso também foi o mesmo. A pandemia arrancou logo numa altura em que nós tínhamos a necessidade de começar com o plano estratégico, e isso deixou-nos em pânico. Tivemos que alterar toda a visão que tínhamos e reestruturar todo o plano e se isso aconteceu connosco, claramente deve ter acontecido também com outras empresas que também passaram pelo mesmo processo.

Mas é importante também vermos que esses desafios podem ser oportunidades para caminharmos de forma diferente, com uma solidez e robustez em todos os sectores, e isso tem ajudado muito as empresas a melhorarem toda aquela prestação de serviço para o consumidor. Eu digo sempre que o consumidor angolano é um consumidor exigente, porque de alguma forma, sempre que há necessidade de acharmos que já conseguimos convencer, é nessa altura que ele praticamente muda o contexto e precisa outra vez de soluções novas para conseguir estar interessado nos seus serviços. Portanto, posso dizer que toda essa situação que temos vivido tem sido os desafios e temos conseguido ultrapassar com alguma responsabilidade.

Quais são os principais desafios das seguradoras nacionais na sua óptica?

O primeiro desafio está na falta de cultura de seguros em Angola, que deve ser invertido imediatamente. Isto dificulta a actuação das seguradoras porque nós não temos só o papel de ser vendedores de seguros, como também temos de informar, temos que educar, é todo um processo que nos leva a colaborar com o órgão regulador no sentido de conseguirmos num futuro próximo garantir uma maior abrangência da utilização dos seguros por parte da população.

Acredita que as seguradoras poderiam entrar num processo de fusões e aquisições para solucionar alguns problemas?

Acredito que sim, até porque se olharmos para o sector, os seguros têm feito quase o mesmo caminho que o sector bancário fez, e nós vimos isso a acontecer na banca e resultou. Se resultou na banca, com certeza irá resultar também no sector segurador, e isso nós podemos ver de alguma forma como um indicador positivo. Algumas empresas que também foram autuadas pela ARSEG podem ver uma solução de uma união com outras seguradoras para conseguirem sair da situação em que se encontram ou mesmo alguns operadores que tenham a necessidade de fortalecer-se no mercado e podem sempre fundir-se com outras para garantir alguma presença mais fortalecida no mercado.

Como olha para o desenvolvimento do canal bancassurance em Angola?

A bancassurance, como um todo, é um canal de distribuição importante para o sector de seguros, até porque a banca fez de alguma forma o seu trabalho de bancarização. Hoje temos imensas pessoas com uma conta bancária e os bancos cada vez mais quererem diversificar os seus serviços e é normal que eles possam querer incluir os seguros na oferta aos clientes. Vemos aqui a banca como um forte parceiro na promoção do seguro vida. Por via dos créditos bancários pode sempre ser possível desenvolver este ramo do sector dos seguros, e não só, muitos dos produtos que os bancos oferecem hoje casam perfeitamente com os produtos do sector segurador, então, a bancassurance, sem sombras de dúvidas. Trata-se de um canal muito forte e pode ser um grande apoio para as operadoras disseminarem os produtos de seguros.

Quais são os bancos que a Global Seguros tem parceria?

Temos parcerias com alguns bancos, neste momento com três. Ainda é muito franco o crescimento que temos neste momento, mas, estamos a trabalhar e também faz parte do nosso plano estratégico o estímulo neste canal.

O último relatório da ARSEG revela que a Global Seguros baixou a sua quota de mercado, e neste momento está abaixo das cinco maiores seguradoras. Como olha para a concorrência neste mercado?

Devo dizer que a sexta posição num grupo de 23 seguradoras não é mau de todo, ainda é uma posição de destaque e o facto de perdemos aqui quota de mercado não nos assusta, porque também nunca foi nosso interesse sermos a maior seguradora de Angola, mas sermos a seguradora de referência em Angola (muitas das vezes grandeza não significa qualidade).

Somos muito focados nos nossos processos em garantir o melhor serviço para os clientes e actualmente a nossa visão passa por tornar a Global Seguros numa empresa sólida, robusta financeiramente, com processos muito flexíveis e de tal transparência para o cliente e termos uma gestão de sinistros de referência para o mercado, este nesse momento é o nosso foco.

Para este ano projecta-se um crescimento da quota de mercado e dos lucros?

Este ano ainda estamos empenhados em garantir a robustez financeira da empresa e o facto “ Somos muito focados nos nossos processos em garantir o melhor serviço para os clientes. Actualmente a nossa visão passa por tornar a Global Seguros numa empresa sólida e robusta financeiramente de termos sido excluídos do ramo petroquímica não nos facilita termos receitas ou prémios que nos permita concorrer em quotas de mercado. Neste momento queremos garantir os melhores serviços para os nossos clientes. Depois de implementarmos todo o plano estratégico, podemos trazer outras variáveis para começarmos a analisar e uma delas poderá ser efectivamente ganhar quota de mercado.

Fala-se muito das insurtechs (Startups viradas para o sector segurador). Acredita que o mercado está aberto a este tipo de iniciativas?

Podemos dizer que sim, porque todo este contexto pandémico mudou o nosso estilo de vida. As pessoas cada vez mais querem adquirir serviços em casa, não querem deslocar-se e isso faz com que todos os operadores olhem para insurtechs como um canal alternativo ao canal tradicional (as agências), acredito que no futuro o presencial poderá desaparecer. Tem havido muitas empresas a apostar na tecnologia e a Global também tem apostado nesta área. Nós tivemos uma modernização recente por forma a tornar o software mais leve e que possa ser partilhado por todos os nossos parceiros. Há uma possibilidade de termos investimentos significativos no ramo da tecnologia por forma a ter melhores serviços, e aquisição de produtos de seguros via internet.

Onde a Global Seguros tem feito maior parte dos seus investimentos?

A par dos investimentos obrigatórios, por forma a conseguirmos ter uma responsabilidade com os nossos compromissos, temos tido investimentos ao nível da comunicação, tecnologia e informática. Mas mesmo com a situação em que nos encontramos não deixamos de investir nas pessoas. No final do dia as empresas são as pessoas, e o sector segurador ainda tem uma certa complexidade, e a todo momento temos de capacitar a nossa equipa por forma a conseguirmos dar respostas, e com toda mudança no negócio é mais uma razão para continuarmos a apostar na formação e capacitação dos quadros.

Como está constituído o capital humano da empresa?

A Global Seguros é uma equipa maioritariamente jovem, temos uma idade média de sensivelmente 37 anos, somos actualmente 150 pessoas e somos uma equipa muito resiliente. Temos feito um excelente trabalho. Temos sensivelmente 98% se não 99% dos nossos quadros nacionais. Trazemos um contacto com os colaboradores e o conselho de administração numa hierarquia muito achatada em que estamos sempre em comunicação para conseguir traduzir tudo isto naquilo que são as melhorias do processo.

Que análise faz do sector segurador nos próximos cinco anos?

É claro que ainda temos muito a fazer, mas estamos a caminhar. Noutros países, por exemplo, quando alguém vai à uma rent-a-car, jamais sai sem questionar o seguro. Claramente é um indicador de que a maturidade e a literacia dos seguros, “lá fora” está impregnada nas pessoas. Angola precisa de seguir este caminho. O cidadão não pode sair a rua sem seguros e contar com a sorte para não ter acidente até ao seu destino. Até porque neste momento com todo este contexto pandémico ficamos todos expostos a capacidade financeira no caso de alguma eventualidade.

O órgão regulador muito tem feito naquilo que é a necessidade de trazermos todos ao sector dos seguros. É importante olharmos para as pequenas actividades, a banca fez o seu trabalho no respeita a literacia financeira. Uma vez que já tem a educação financeira por via da banca, podem também ser trazidos para o sector de seguros. É importante também olhar para as funcionalidades do mercado informal, por forma a fazermos um trabalho de futuro e conseguirmos uma maior abrangência.

Em poucas palavras falar do futuro para o sector de seguros de Angola é resiliência. A situação económica actual torna a seguradora mais resiliente?

Com o contexto actual, temos, efectivamente, de ser mais resilientes. Se ajuda ou não, é assustador, mas também podemos ter isso como oportunidade. A situação actual tem sido muito difícil para muitos sectores e temos visto o sector segurador a crescer no todo. Assim, de acordo com indicadores que a ASAM partilha com as assegurados que fazem parte da associação, neste momento os indicadores apontam um crescimento na ordem dos 30%, isto por si só é indicador suficiente para dizer que há futuro.