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“Os EAU estão de olhos nas privatizações mas devemos comunicar mais”

O empresário Vando Matias proclamou, na última terça-feira, a Comissão Instaladora da Câmara de Comércio e Indústria de Angola-Emirados Árabes Unidos. O jornal Mercado aproveitou a ocasião, para neste espaço de entrevistas darmos conhecer, o seu plano de accões e metas, na voz do também coordenador da mais recente câmara empresarial.

Luanda /
14 Out 2019 / 07:29 H.

Porque razão escolheu Os Emirados Árabes Unidos País para viver?

No início foi mais uma decisão familiar do que empresarial. A ideia partiu da minha esposa, queríamos que os nossos filhos crescessem num ambiente diferente. Mas em pouco tempo mostrou-se que foi a melhor escolha para o trabalho que pretendemos desenvolver ao nível da câmara de comércio e Indústria Angola-Emirados Árabes Unidos.

De que forma esta decisão trouxe uma mais valia para os negócios?

Por um lado, os Emirados Árabes Unidos atraíram de várias origens, 350 mil milhões USD, o ano passado, por isso é que são uma grande potência, principalmente dos países asiáticos, europeus e EUA, mas muito pouco de África. Por outro, o facto de crescer num ambiente empresarial há mais de 30 anos, serviu de alicerce, mas a verdade é que encontrei no Dubai outra dinâmica empresarial. Estamos a falar de uma realidade que representa um hub mundial entre vários sectores da economia. Este dinamismo despertou em mim, rapidamente, um forte interesse, para falar com empresários locais e captar investimentos. Descobri vários empresários angolanos a residir no Dubai e com muito interesse vir investir também em Angola, inclusive dos Emirados.

O que impedia esses empresários de virem investir no País?

A cultura empresarial existente, a mentalidade, a forma de fazer as coisas acontecer e a língua são grandes barreiras. Temos aqui problemas de base, como por exemplo, no responder a tempo, temos dificuldade de falar o que queremos de facto, além disso, aqui as coisas acontecem com muita lentidão. Para quem vem de fora, está acostumado com outra dinâmica tem dificuldade de perceber. Mas fruto das recentes reformas, começamos a ter alguma esperança. Por isso é fundamental existir uma organização que vem facilitar o entendimento entre as partes e classes empresariais.

Que barreiras entende e verifica no dia-a-dia que terão sido já removidas?

Como dizia, fruto das novas reformas que o executivo tem implementado, Angola começa a ser vista de outra forma. Temos olhado para a questão do visto simplificado para Angola. Hoje, qualquer investidor daquele Emirado tem a facilidade em chegar a Angola. Os consolados têm feito um trabalho espectacular. A ideia de uma nova Angola está a ajudar a remover muitas barreiras, inclusive ao nível da mentalidade da nossa classe empresarial. Começam a ter a percepção de que muitas práticas do passado estão erradas. Daqui é para frente deverá ser diferente, porque os empresários dos Emirados levam a sério e trabalham com muita transparência. São pessoas de palavras, aquilo que eles falam é que procuram realizar. A câmara vai ajudar a quebrar as barreiras de língua e cultura, para que haja entendimento e parcerias sólidas.

Agora que a Comissão Instaladora da Câmara de Comércio e Indústria foi lançada, quais são os passos seguintes?

A Câmara está legalmente constituída, e poderá abrir ainda este ano um escritório de representação, nos EAU, provavelmente, em Novembro do ano em curso, mais concretamente no Dubai e em Abu Dhabi e Sharjah. Daqui para frente, o plano é começar já a congregar a classe empresarial dos dois países, faremos o lançamento oficial da câmara, numa cerimônia onde teremos a classe empresarial dos dois países e representantes dos dois governos e realizar conferências. Pretendemos levar uma delegação empresarial angolana nos EUA, para começar a estreitar relações, transmitir uma imagem positiva de Angola e as oportunidades de negócio de parte a parte. Trabalharemos afincadamente com o comissariado da Expo, para que a participação de Angola na Expo 2020 seja um sucesso. Acreditamos que a nossa classe empresarial pode vencer nos Emirados. Há empresários angolanos que venceram naquele mercado. Tenho falado com muitos que têm empresas lá e alguns nem sequer têm empresas em Angola.

Em que sectores operam os empresários angolanos que residem nos Emirados?

Temos empresas de angolanos no sector do trading e serviços, mas não só nos Emirados, como também noutros países da região. Mas temos também aqui potencial para levar empresas para lá.

Quais são as empresas dos Emirados já identificadas localmente pela Comissão Instaladora?

Existem empresas dos Emirados a operar em Angola no sector industrial, na produção de tranctores, na ZEE, na agricultora, no município da Quibala, no Kwanza Sul, que vai gerar 3 mil postos de trabalho, em breve. Existe há quatro anos outra empresa que presta serviços as empresas privadas do ramo tecnológico, como por exemplo, a YahClick, uma subsidiária da Al Yah Satellite Communications Company e que faz parte do maior fundo de investimentos dos Emirados Árabes Unidos e um dos maiores do médio Oirente, que é o Mubadala. Este fundo está muito interessado em investir em Angola.

O que é necessário para começarem a canalizar investimentos para Angola?

Esperam simplesmente que nós angolanos manifestemos interesse, porque têm investido em várias partes do mundo, em infraestruturas, agricultura, Oil&Gas. Estão disponíveis, mas temos de nos organizar internamente, com a criação de projectos viáveis, para que estejam aptos depois de analisados, ao financiamento. Não só financiamentos que exijam garantias Soberanas, como também financiamentos directos.

Também existem duas grandes empresas que são das maiores do mundo, que é a DP World, que é a maior empresa do medio oriente no sector da logística e gestão de portos e a Denata- Dubai National Air Transport Association, empresa que faz gestão aeroportuária, que têm muito interesse de fazer a gestão do novo aeroporto de Luanda. Para além da companhia aérea Emirates, que já opera em Angola. Mas há outras empresas que no futuro poderão mostrar também interesse.

Que sectores estão a ser observados para eventuais financiamentos?

Nas infraestruturas tal como estradas e pontes, agricultura porque eles querem ser os principais beneficiários, no sector de Oil&Gas e energias limpas. Os EAU estão muito interessados nas privatizações, mas Angola tem de saber comunicar. As vezes comunicamos pouco, para que o investidor estrangeiro possa entender como participar. Mas a câmara fará um trabalho para transmitir essa mensagem aos investidores dos EUA.

No mês passado, o Ministério dos Recursos Minerais e Petróleos realizou no Dubai, o segundo “roadshow”, foi consequente?

Foi interessante e acredito que deviam existir mais. Ao nível da câmara também pensamos realizar actividades similares, mas em vários sectores da nossa economia, porque o País tem potencial e o mundo deve conhecer, principalmente nos sectores da agricultura, energias limpas, pescas, entre outros.

Qual é a vossa expectativa de congregação de lado a lado?

A câmara é uma organização aberta. Queremos abraçar todos os empresários que queiram contribuir para o desenvolvimento do País. Por isso vamos congregar todos os empresários angolanos que abraçaram esta nova diplomacia económica. Já temos muitas empresas identificadas de lado a lado, entre as empresas angolanas identificadas estamos a falar de um número superior a 17, incluindo no sector bancário e agricultura, onde há muito interesse.

Estive reunido com empresários que querem comprar produtos nacionais e também nas minas. Há muito interesse na compra do nosso granito e mármore.

Os números que deu a conhecer sobre a balança comercial entre Angola e os EAU dão conta de um grande superavit desfavorável para o País. Que estratégia estão alinhadas para ajudar a equilibrar esta diferença?

A estratégia para mudarmos esta diferença é trabalhar com a classe empresarial, identificando os sectores, dar a conhecer as potencialidades de exportação para os EAU, o que cada um de lado a lado têm a ganhar. Pretendemos fazer com que os empresários angolanos que ainda não saibam tenham conhecimento de como fazer negócios nos EUA. Temos vários acordos de cooperação entre os dois países já assinados, que concorrem para fortalecer esta parceria, mas muitos empresários ainda não conhecem de facto, como o acordo de dupla tributação entre outros que facilitam a exportação de produtos nacionais aos EUA. Acredito que temos a capacidade e há condições para que em pouco tempo equilibraremos a balança de pagamentos. Mas temos de nos organizar internamente para atender um mercado que consome muito.

Que negócios tem já inseridos na câmara?

Sou o CEO de um grupo Royal Crown que opera em quatro sectores, na Saúde (fornecimento de medicamentos e equipamentos hospitalares), temos clientes ao nível do País, privados e governamentais, estamos também no sector Segurança, engenharia e Tecnologia, mais voltados a Indústria petroquímica, fazemos manutenção, gestão e montagem de bombas de combustíveis, limpeza, entre outros. Estamos em Luanda, mas com operações na Africa do Sul e EUA.

Quantos postos de trabalho foram criados pelo grupo, desde a sua criação?

O grupo existe desde 2008 e estimamos que até ao final do ano teremos mais de 100 postos de trabalho directos, mas pretendemos criar muito mais.

O que gera o grupo, em termos de volume de negócios?

O grupo vai oscilando em função da realidade económica do País, mas somos resilientes, continuamos a resistir à crise apostando na inovação constante. 2014, ano em que a crise começou, foi o melhor ano para o grupo, facturamos um valor significativo, à volta dos milhões USD.