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“O segmento mais rentável e atractivo é o negócio de transporte de cargas”

Membro da Comissão de Gestão da Secil Marítima, faz uma introspecção aos indicadores financeiros da empresa em 2021, fala da estratégia da Secil em adquirir no médio prazo um navio porta-contentores para responder as necessidades do mercado, para além de um balanço positivo as viagens na rota Soyo/Cabinda que renderam mais de 100 milhões Kz em quatro meses de operações, entre outros desafios.

Luanda /
13 Set 2022 / 11:21 H.

Qual é a saúde financeira da empresa por esta altura?

A saúde financeira é estável mas ainda precária. É de ressaltar que a empresa tem meios suficientes para a realização do seu objectivo.

O que é preciso fazer para se ter uma empresa robusta?

Concluir as obras de construção do cais de Cabinda e Luanda para operar o transporte de cargas. Ter liquidez suficiente para sanar as dívidas passadas, para se conseguir rentabilizar a frota disponível, através da venda ou parceria de negócio com privados.

Em quanto está avaliada a dívida?

Estamos num processo de certificação das dívidas.

Quer ser mais preciso?

Por enquanto não. Só quando esses dados estiverem reflectidos nas nossas contas de 2022.

Quais são os indicadores financeiros 2021?

O resultado líquido é 10 071 442 mil Kz, proveitos (facturação) estão na ordem dos 3 129 702 mil Kz, o activo é de 15 769 045 mil Kz e o capital próprio: - 14 017 781 mil Kz (negativo).

O lançamento da rede de cabotagem na rota Soyo/Cabinda aconteceu no dia 20 de Abril do corrente ano, ao passo que a ligação comercial entre as duas cidades iniciou no dia 26 do mesmo mês. Hoje qual é o balanço que faz?

O balanço é bastante positivo na medida em que registamos, desde o início da actividade uma aderência massiva da população. As ligações marítimas entre Soyo e Cabinda eram até então realizadas em condições muito precárias, atentavam a vida das pessoas, pela falta de condições de segurança e de embarcações adequadas para o transporte de passageiros. Com a construção dos novos terminais de passageiros do Soyo e de Cabinda e todas as infra-estruturas a sua volta, as populações passaram a ter uma solução de transporte segura, comoda, que cumpre com as regras de navegação e tráfego marítimo de pessoas e bens. Estamos ainda no início, mas o crescimento tem sido notável superando em alguns casos a nossa espectativa.

O custo do preço do bilhete de passagem de 15 mil kz vai manter-se?

Este preço irá manter-se por enquanto. Está em curso um processo de redução das taxas e tarifas portuárias com a revisão e regulamentação do Decreto Executivo Conjunto 323/08, de 16 de Dezembro, que levará a uma possível revisão do preço nos próximos tempos.

Pode quantificar as viagens feitas desde o início da actividade?

Do dia 26 de Abril até 31 de Agosto de 2022 foram realizadas 109 viagens.

Em um mês de operações a empresa arrecadou mais de 29 milhões kz com o transporte de passageiros por catamarã na rota Cabinda/Soyo e vice-versa. Volvidos quatro meses a empresa arrecadou mais de 100 milhões Kz. O que esteve na base deste aumento de arrecadação?

A empresa registou esse crescimento das receitas em função do aumento gradual do número de passageiros, principalmente na viagem Cabinda/Soyo chegando a atingir 100% da capacidade da embarcação, ou seja, 276 passageiros por viagem. E por outro lado, deveu-se também ao aumento das frequências semanais de dois para três. Importa realçar que de igual forma as despesas também aumentaram na mesma proporção.

Quantos passageiros perspectiva transportar na rota recém-aberta Luanda/Cabinda?

Tão logo foram criadas as condições operacionais no Terminal de Passageiros de Luanda a empresa concebeu a rota Luanda – Cabinda e vice-versa, cujo início deu-se a 29 de Julho de 2022. Desde o seu arranque temos registado uma média de 180 passageiros por viagem, pelo que observamos até ao momento ser uma rota viável, considerando os custos operacionais.

Qual é a quantidade e tipo de carga transportada até a presente data?

Até a data foram transportados aproximadamente 46 mil quilogramas. A carga transportada é, essencialmente, bagagem acompanhada e não acompanhada, nomeadamente bens de uso pessoal dos passageiros e alguns produtos como equipamentos informáticos, mobiliário e bens alimentares (pescado).

Que tipo de catamarãs a empresa utiliza e qual é a capacidade de transportação por viagem?

Neste momento estão a ser utilizados dois catamarãs modelo Rodman 84 que em princípio veio com uma capacidade de 350 passageiros, mas que para acomodar a carga tivemos que fazer algumas adaptações que culminaram com a redução do número de acentos, tendo ficado com a capacidade de 272 passageiros e seis toneladas de bagagem.

Pode dizer-se que os seis catamarãs já estão em operacionalização?

Dos seis catamarãs da marca Rodman 84 recebidos da Sonangol, via Ministério dos Transportes, estão em funcionamento três, sendo dois para passageiros e um requalificado para carga geral.

Qual é a avaliação que faz a este segmento de negócio (cabotagem)?

O transporte de passageiros é, essencialmente, um serviço público e de cariz social, porque tem como principal objectivo atender a necessidade de transporte e ligação com Cabinda por causa da descontinuidade geográfica. Portanto, não é um segmento de negócio muito rentável e atractivo, razão pela qual nunca houve adesão por parte de empresas privadas. Daí o engajamento do Executivo em criar as condições, materiais, financeiras e legais para o ressurgimento e implementação do projecto de Cabotagem Norte. O segmento mais rentável e atractivo é o negócio de transporte de cargas.

Com que base cientifica faz esta analogia?

Estudos apontam para uma procura na ordem dos 780 contentores equivalente a seis mil toneladas por ano. Infelizmente, do total de 12 embarcações da nossa frota, apenas uma é específica para carga, que é o Ferry Cabinda do tipo Ro-Ro, com capacidade para 9 TEUS, 10 viaturas e 60 passageiros. Com a requalificação de uma das embarcações Rodman, ganhamos mais uma embarcação para transporte de carga geral leve (não contentorizada).

Alguma saída para este desafio em concreto?

A estratégia da Secil passa pela aquisição no médio prazo de um navio porta-contentores para responder a necessidade do mercado.

Para quando a retoma de viagem ao nível de Luanda (Mussulo, Cacuaco, etc)?

Estamos a criar as condições para a retoma das travessias entre Luanda e a Península do Mussulo com início previsto para o dia 09/09/2022. A Secil procedeu a aquisição de uma embarcação de pequeno porte com capacidade de 26 passageiros com maior flexibilidade e ajustado às necessidades deste tipo de travessias. Prevê-se a aquisição de mais embarcações semelhantes, quando as condições financeiras da empresa o permitirem para fazer ligações ao longo da costa, dentro de Luanda.

O projecto de cabotagem prevê rotas para as províncias ao nível da faixa litoral do País?

Até ao momento não. Por exemplo para o transporte de passageiros nos portos ao sul de Luanda, ainda não estão criadas as infra-estruturas, tais como os terminais de passageiros que possam acomodar os passageiros. Mesmo para a carga, somente o porto do Lobito é que tem um terminal dedicado a cabotagem. Nos outros portos os navios de cabotagem têm que concorrer com os de longo curso.

A tripulação é assegurada por técnicos nacionais e quantos novos postos de trabalho foram criados?

A tripulação é composta 100% por técnicos nacionais. E foram criados 88 postos de trabalho entre tripulantes e pessoal de apoio em terra, em Luanda, Soyo e Cabinda.

Quanto foi investido pelo Estado até aqui para permitir as condições para viagens Cabinda/Soyo?

Do conhecimento que temos, foram investidos cerca de 300 milhões USD, que inclui a construção dos terminais de Cabinda e o do Soyo, a construção do quebra-mar em Cabinda e a remodelação do terminal de Luanda e construção da Ponte Cais. Para a Secil Marítima, para além das embarcações recebidas, o Estado aloucou uma verba de mais de 9 mil milhões Kz para as aquisições estratégicas, ou seja, para aquisição dos equipamentos de segurança, equipamentos de movimentação de carga, viaturas de apoio logístico, docagem e reparação das embarcações.