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O Aviso 10 permitiu que empresários locais apostassem mais na produção nacional em vez das importações

Em entrevista ao Mercado, a Directora Executiva para pequenas e medias empresas do Standard Bank Angola avança que o banco de origem sul-africana foi o que mais contribuiu para o financiamento da economia real ao abrigo do Aviso nº10 do BNA ao desembolsar 189 mil milhões kz, o que representa 26% do total.

Luanda /
28 Mar 2022 / 08:57 H.

Para financiar a economia real, o Banco Nacional de Angola instituiu o Aviso nº10/ 2020, que obriga os bancos comerciais a concederem crédito à economia no mínimo de 2,5% da carteira de activos. Que avaliação faz deste aviso?

Faço uma avaliação positiva. Conseguimos dar uma oportunidade aos investidores de se financiarem a uma taxa de juro mais barata de 7,5%, o que criou um dinamismo que não existia na economia, permitindo que os empresários locais apostassem mais na produção nacional em vez das importações.

O Standard Bank tem alguma dificuldade na execução deste aviso?

Não! Tanto é que o Standard Bank financiou ao abrigo deste aviso 189 mil milhões kz e a obrigatoriedade era de 15 mil milhões. O Standard bank é o que mais financiou ao abrigo do Aviso nº10, na totalidade de todos os empréstimos, o banco conseguiu financiar 26% de todo o mercado.

Podemos ter noção de quanto gerou em termos de emprego?

Temos indicação que financiamos empregos directos que geraram 6.144 postos de trabalhos.

Que projectos o banco prioriza na cedência de crédito?

O Standard Bank avaliou todos que foram recepcionados. Contudo, tivemos algum cuidado em financiar os que fomentam a produção nacional, sobretudo no sector da alimentação e das pescas. Financiámos projectos nos quais os empresários já tinham algum know-how do mercado angolano para que estes tivessem uma taxa maior.

Estamos a falar de que tipos de produtos?

Financiamos uma cesta básica bastante simpática, como o sabão, detergentes, moagem, massa e óleo alimentar, trigo, soja, café e milho. Já financiámos também vários produtos que nos ajudam a compor a cesta básica de produção nacional.

Qual dos sectores congrega maior percentagem?

Ao abrigo do Aviso nº10 do BNA, financiamos 189 mil milhões kz, em que 43% desse montante foi para alimentação. Foi o sector que mais beneficiou.

Há muita procura neste sector?

Há bastante procura, temos visto bons projectos em que os empresários já importavam e agora decidiram fazer uma integração vertical. Por um exemplo, um empresário que já importava massa com as quantidades que o mercado necessita, que já tem os canais de distribuição e decidiu investir na produção. O que fez com que tornasse mais fácil a penetração deste produto no mercado, uma vez que está a substituir uma demanda que estava a ser fornecida por importações com a produção local.

O BNA elevou a taxa de juros e isso faz com que o financiamento fica mais caro. Como olha para este dilema?

Isso tem um impacto grande. Se olharmos para o crédito com uma taxa normal, a Luibor mais um spread, estaríamos a falar de 22 ou 23% de taxa de financiamento, o que faz com que o custo de financiamento seja muito alto, enquanto para o Aviso nº 10 em que o custo final do cliente é de 7,5%. O aviso nº10 foi uma excelente iniciativa porque veio proporcionar aos investidores uma taxa mais atractiva. Quando olhamos para África como um todo, tendencialmente existem taxas de juros mais altas e o Aviso nº 10 fez que a nossa fosse a mais apetecível para investimento, tanto nacional como o estrangeiro.

Sem o Aviso, como o vosso banco tem financiado a economia?

De notar que o Aviso nº 10 tem algumas lacunas que poderão ser corrigidas no próximo aviso, ou seja, este aviso é para o longo prazo e não curto e para o financiamento de maquinaria e não de matéria-prima. O que vemos é que financiamos muitas matérias-primas no curto prazo e também temos outros financiamentos que não eram abrangidos pelo aviso 10, o Standard Bank financiou a taxa de juros normais, o que cria um esforço adicional por parte dos empresários, a fim de gerar mais cash-flows para pagarem a dívida.

O banco tem recebido empresários internacionais que pretendem investir em Angola?

Sim, surpreendentemente temos recebido, quase todas as semanas, empresários internacionais que estão confiantes na economia de Angola. Estamos num ano de eleições e não é historicamente normal termos muita procura por parte de empresários estrangeiros. Noutras situações, teríamos todo investimento parado em que as pessoas estariam à espera para ver o que poderá acontecer para fazer novos investimentos. E está a ser o oposto neste ano, temos visto muitos empresários a investirem. Não se verificou nenhum congelamento no investimento local e internacional, o que significa que há bastante confiança no mercado e no País.

Isso quer dizer que a banca angolana está mais atractiva?

Eu diria que não só a Banca, mas toda conjuntura está mais atractiva. Temos um regulador preocupado com a produção local e com os investidores. Portanto, cria aqui um ambiente mais propício e confortável para os investidores. Como vemos, a banca está a financiar o sector real da economia e a ajudar nos projectos de desenvolvimento. E a própria estabilidade política que se conseguiu instalar ao longo dos anos, criaram as condições perfeitas para termos mais investimentos.

Que desafio a banca tem pela frente para financiar a economia?

Um dos maiores desafios é a taxa de juros, se não estivermos a falar do aviso nº 10, temos taxas muito altas. Outro desafio tem a ver com a identificação dos projectos. Existem projectos que chegam a nós sem know-how e projectos em que as pessoas têm capital para investir, mas não têm conhecimento do sector. Isso faz que não tenha condições propícias para o sucesso dos projectos. Mas estes desafios existem em Angola como em qualquer parte do mundo. Acredito que os desafios da banca angolana são iguais ao resto do mundo.

E o que o têm feito melhorar essa situação?

Temos feito várias iniciativas, uma delas é a literacia financeira. Quando se fala do jovem empresário e do empreendedor do mercado informal se nota que existe pouca literacia financeira, ou seja, pouco conhecimento dos produtos bancários e o Standard Bank tem feito várias acções neste sentido nas quais, ajudamos os nossos clientes a perceber melhor os produtos bancários.

Além da falta de literacia financeira, que outros problemas alguns empresários apresentam?

Quando vemos empresários menos formais notamos que existe uma falta de conhecimento de como tornar um projecto rentável. Não existe um relatório e contas e balancetes, ou seja, não existe uma contabilidade organizada. E não ter estes elementos cria dificuldades para que esses agentes se financiem através da banca. Aqui estamos a falar outra vez da necessidade de haver uma maior literacia financeira por parte dos empreendedores, de formas a ter noção real dos cash-flows das suas empresas e poder emprestar de forma segura.

Qual é a dimensão dos projectos que mais aprovam?

Aprovamos projectos de todas dimensões, micro, pequena, média e grandes empresas. Gostaria de poder financiar mais projectos pequenos. Analisámos todos os projectos que chegaram até nós, mas muitos não apresentaram qualidades necessárias para poder receber financiamento, porque temos de olhar para o tipo de risco e quando falamos do aviso nº 10 os bancos podem emprestar com um desconto das reservas obrigatórias, não existe uma partilha de risco por parte do regulador e dos bancos comerciais. Toda análise de risco é feita pela banca comercial, o que limita o financiamento de alguns projectos. Não acho que isso seja um ponto negativo porque um projecto que não tenha um apetite de risco não interessa a garantia que lhe é associada, o interessante é financiar projectos com os quais temos confiança que vão ter sucesso e que consigam pagar as dívidas.

O BNA diz que vai estender o Aviso nº10, vocês estão confortáveis em continuar a executar o aviso?

Sentimos que sim, porque é a forma que temos de emprestar a taxa mais reduzidas. Contudo, existe alguma limitação, quando chegamos ao montante das nossas reservas não podemos emprestar além deste montante, o que faz uma pressão aos bancos para atrair mais depósitos para ter mais reservas e , posteriormente, poder financiar o Aviso 10, o que cria uma limitação natural. Os bancos vão emprestar a taxas mais reduzidas até ao montante das suas reservas para além disto não vão conseguir remunerar este empréstimo de forma eficiente.

Há quem defenda que as taxas praticadas no aviso nº 10 deviam ser mais baixas. Concorda?

Não acredito que as taxas do aviso 10 sejam altas. Acho que não temos condições para reduzir as taxas porque temos de ter em conta o factor de risco associado e o crédito malparado cria um impacto muito grande no banco. As taxas estão associadas ao factor risco e se retirarmos as taxas estaríamos a dizer que temos projectos com menos risco, logo não sou apologista de que as taxas sejam mais baixas. Por isso, acho que a taxa de 7,5% é bastante atractiva quando comparado com o resto do continente africano.

Em termos gerais, como avalia a economia angolana?

Avalio a economia angolana de uma forma positiva. Temos visto vários empresários a investirem os próprios capitais em projectos de produção local. Empresários a investirem mais em Angola, quando no passado as receitas eram investidas fora do País. Vejo uma economia onde podemos apostar com segurança na produção local, coisa que já temos feito e quando olhamos à volta podemos notar alguns projectos de sucesso de produção local. Temos de fechar alguns ecossistemas, apostar mais na economia e na agricultura, não apenas financiar as fazendas. Temos de financiar desde a semente ao produto final que pomos na mesa do consumidor. Portanto, temos de financiar toda cadeia de valor para que ela funcione. Devíamos estar mais focados nos projectos de ecossistema na segunda fase do aviso nº 10 para garantir que toda cadeia de valor funcione.