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Mike Ogbalu III: “Vamos trazer para Angola soluções para bancos de renome”

A multinacional nigeriana, Verve, que está presente em 13 países africanos , e que se tornou concorrente da rede Visa e Mastercard, está de olho no mercado angolano. O seu CEO esteve recentemente em Angola e concedeu esta entrevista exclusiva ao Mercado onde fala das soluções desenvolvidas nos países onde já operam e o que pretendem trazer para Angola.

21 Jan 2020 / 15:48 H.

Começou na Nigéria, em quantos países é que operam actualmente? Nos últimos 10 anos trouxemos produtos especializados em todos os mercados em que estamos a operar, com um baixo custo de transacção, o que permitiu integrar mais pessoas nos sistemas de pagamento. Verve está hoje espalhada em 13 países africanos, onde temos bancos que dão aos seus clientes cartões de crédito, débito e tokens virtuais de pagamento para transacções nos ATMs, TPAs, pagamentos online e por telemóvel. Os cartões e tokens Verve são aceitos em 21 países africanos. Os cartões Verve também são aceitos em 185 países (por via da Discover Financial Service), incluindo EUA, Reino Unido, China, África do Sul e Emirados Árabes Unidos. Portanto, Verve é um sistema multicanal.

Pretendem agora trazer para Angola. O que difere Angola dos restantes países?

Angola é actualmente um país muito importante, muito bonito - não tinha noção o quão bonito Angola é antes de cá vir - é um país que conta com 30 milhões de consumidores, que precisam, todos os dias, de transaccionar. Portanto, primeiramente gostaríamos ajudar a facilitar as transacções a um baixo custo. Segundo, pensamos que podemos trazer para Angola soluções bancárias avançadas já implementadas em bancos de renome. Por outro lado, a julgar pelo número da população em Angola, gostaríamos também de contribuir no sentido de trazer mais pessoas para os sistemas financeiro a um custo reduzido.

A Empresa Interbancária de Serviços(EMIS) está a esforçar-se para isso também. Isto não constitui um factor impeditivo para a entrada da Verve em Angola?

Em todos os países onde estamos procuramos por parceiros locais, a EMIS não representa um obstáculo, pelo contrário, vemos como um parceiro. É importante também realçar que, em todos os mercados onde actuamos, cumprimos com toda a legislação em vigor e em Angola, com toda a certeza, não será diferente, vamos cumprir toda a legislação do sector. Ao se instalem em Angola, obviamente, terão que concorrer com a EMIS.... Não é a primeira vez e nem é o primeiro país que fazemos isso. Nós gostaríamos de ser parceiros. Pensamos que o mercado é enorme, e pelos meus cálculos, a oferta de serviços ainda não é suficiente. Nós pretendemos ser parceiros da EMIS, temos tecnologia em múltiplas áreas, e o que pretendemos é trazer outro cartão, outras soluções tecnológicas que, certamente, podem representar uma maisvalia para a própria EMIS.

Essa parceria se deverá estender para os bancos. Que tipo de parcerias pretendem estabelecer com os bancos e quais serão as vantagens para os clientes? Quando falamos dos usuários de cartões, que nós chamamos de cartões económicos, basicamente, quem paga pelos produtos?

Geralmente, são os clientes bancários. O nosso custo do uso dos cartões é muito baixo, de modo a atrair mais pessoas para o sistema. O custo do skimm, e nós somos o skimmer, quando o cliente aceita a nossa marca, parte do que damos ao banco, excepto a tecnologia stack, quando colocamos a nossa marca num cartão, onde quer que os clientes estejam, nós damos a garantia de que, onde é aceite a nossa marca aquele cartão irá funcionar. Acima de tudo, garantimos a máxima qualidade a um custo muito baixo. Permite que as pessoas ligadas ao sistema façam mais dinheiro, transaccionem facilmente e no maior conforto. Na Nigéria, o que nos deixa bastante orgulhosos, o que verificamos é que as pessoas podem ir ao ATM Kenhub, e onde há ATM Kenhub se pode ter acesso directo ao banco e outras formas de pagamentos. Portanto é um sistema capaz de forçar a evolução do mercado.

Já se pode afirmar que a Verve concorre com a rede Visa e a Mastercard nos 13 países africanos onde opera?

Sim. Na Nigéria, sem sombra de dúvida, concorremos com a rede Visa e com a Mastercard, porque a única via de trazermos a nossa solução é entender o mercado local. Hoje podemos afirmar que competimos com estes dois gigantes operadores mundiais. Nós trazemos produtos com a mesma qualidade, com os mesmos standards globais com a diferença de estarmos focados para resolver necessidades locais. A nossa particularidade é entender as necessidades locais e criamos produtos com as soluções.

Cá em Angola, a Verve já sabe quais são os principais problemas e quais as soluções que vão trazer?

Temos um parceiro local, que é a Bond Capital, que tem sido muito útil em termos de envolvimento no mercado. Já começamos a reunir com alguns bancos e tem sido bastante positivo. Pensamos que podemos trazer a Verve cá e fazer este longo caminho juntos. Fundamentalmente, o que pretendemos com a Verve não é um simples acto comercial de um novo serviço, pretendemos trazer valor acrescentado em tudo o que fazemos. Não é apenas nosso objectivo fazer dinheiro. Sabemos que em todos os mercados onde entrámos é para resolver problemas. Sabemos que em todos os mercados ninguém dá tudo, temos que lutar pelo que precisamos, e o caminho para essa luta é criar valor primeiro, e para isso engajamos operadores locais, bancos locais seguimos as orientações do regulador.

Quantos clientes utilizam os vossos sistemas de pagamentos nos 13 países onde operam?

Actualmente, temos 42 milhões de utilizadores de cartões activos no mercado, criamos à volta de 25 milhões de cartões de plástico e à volta de 17 milhões de cartões virtuais. Nós começamos por cartões de baixo valor, mas que permitissem realizar pagamentos. Trabalhamos com um total de 120 bancos nos países onde operamos. Contudo, estabelecemos várias parcerias nos países africanos onde operamos, que inclui bancos, operadores de mobile money, Governos etc.

Depois de Angola, qual é o próximo país onde a Verve pretende marcar presença?

Temos 54 país africanos, estamos em 13, ainda temos um longo caminho por percorrer. Mas estamos a registar alguns progressos em países como Guiné Conacry, Libéria, Camarões, Zâmbia, Etiópia, onde temos um grande interesse em entrar e estamos a registar significativos progressos. Para nós, basta que haja uma combinação mercado-regulação, ou seja, se o ambiente de negócio no país for favorável, como já disse, nós gostamos de resolver problemas, e se tiver problemas para resolvermos, nós precisamos deste problema para resolvê-lo e é mais um mercado para aceitar a solução que temos. Claro que ainda há muitos países para irmos e, certamente, estaremos dispostos a lá ir e resolver problemas.

Actualmente, quais são os problemas dos países africanos que exigem soluções urgentes?

No passado, quando os países africanos se tornaram independentes, os países ocidentais tentaram vir ensinar-nos como resolver os nossos problemas. Mas a questão é que os ocidentais olham para o mercado e notam que o PIB per capita é muito baixo e se criarem as soluções, praticamente, ninguém vai comprar. A visão da Verve é que ninguém vai resolver os nossos problemas por nós. O que estamos a fazer é criar soluções dos nossos problemas. Voltando a questão que colocou sobre a EMIS, é nosso interesse criar juntos um forte sistema de pagamento que seja aceitável em todo o continente. Hoje vimos que a EMIS está a fazer muito bem o seu trabalho e precisa também expandir-se para outros países. É claro que vamos competir, mas juntos podemos ser mais fortes e competir globalmente do que cada tentar chegar lá individualmente. Uma das grandes ambições da Verve é ter um cartão de pagamentos que seja aceitável em qualquer país à volta do mundo, que permita pagar um almoço em plena Time Square, em Nova Iorque, e em Dubai, nos Emiratos Árabes Unidos.

Cada país tem as suas políticas e o que vem de África ainda é discriminado por estar muito associado às más práticas muito comuns no nosso continente. Como é que pretendem expandir-se para todos os outros países?

A Verve leva muito a sério o compliance. Nós tentamos alinhar tudo o que fazemos às melhores práticas globalmente aceites. Embora estejamos a criar soluções para problemas do continente africano, nós operamos como um sistema global de pagamentos. Cumprimos com as melhores práticas mundialmente aceites. Somos os únicos operadores africanos membros da EMVCO, que certifica os produtos e as melhores práticas dos sistemas de pagamentos, bem como é membro do Grupo Interswitch, que é uma empresa de comércio e pagamentos digitais integrados com foco em África. Portanto, nós continuamos a fazer com que o compliance esteja sempre presente em tudo o que fazemos, observando as leis em cada país onde estamos presentes. A Verve domina o mercado nigeriano com 43% de cota. O restante é dividido entre a Visa e a MasterCard.

Como é que olha para a regulação do sistema financeiro angolano?

Antes de mais importa destacar o esforço do Banco Nacional de Angola. Penso que a regulação em vigor é a mais adequada, porque o regulador também tem grandes expectativas do crescimento do sector, que ajude a economia a prosperar. As reformas em curso são muito positivas. Nós, particularmente, vamos continuar atentos à evolução do mercado.

A Verve poderá ajudar a implementar sistemas de pagamentos como o M-pesa do Quénia?

O número de soluções que temos varia consoante o número de diferentes mercados em que estamos. Somos muito sensíveis também ao que o regulador pretende e o estágio dos players que já se encontram no mercado. No caso do Quénia, o que fizemos foi, por causa das soluções tecnológicas construídas à volta dos canais electrónicos, tornar o M-pesa no sistema de pagamento dominante no Quénia, e o que nós ajudamos a fazer foi integrar este sistema de pagamento aos ATMs. Mas fizemos outras coisas em Uganda, onde os estudantes dos colégios podem realizar transacções com os seus cartões de estudantes em todo o país. No caso da Zâmbia, trabalhamos com o Governo para que fosse capaz usar os cartões para distribuir dinheiro directamente ao fazendeiros. No caso da Gâmbia, trabalhamos com o Banco Central para fazer a transição, e hoje mais de 90% dos cartões na Gâmbia são da Verve. Ou seja, para diferentes problemas, diferentes soluções. No caso de Angola, por exemplo, poderíamos pensar numa soluções que pudesse facilitar a distribuição da renda ou o pagamento dos subsídios aos antigos combatentes. Além dos cartões de plásticos, nós também desenvolvemos muitas soluções tecnológicas que visam facilitar as transacções. Basicamente, temos os cartões físicos de crédito e de débito, mas as soluções tecnológicas temos um portefólio mais amplo, principalmente para bancos pequenos, permitindo também que estes partilhem a infra-estrutura e reduzam os custos, alargando mais a base de clientes. Resumidamente, nós temos soluções para todos os canais bancários, desde cartões, ATM, TPAs, Web entre outros.