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“Japão considera Angola um país estratégico e ocupa uma posição prioritária”

Segundo o representante máximo da “terra do sol nascente”, Angola é um país estratégico por ter potencial económico com muitas riquezas naturais; por ser a sétima maior economia da África subsaariana em termos de PIB e o segundo maior produtor de petróleo do continente.

Luanda /
06 Dez 2021 / 10:38 H.

Que balanço faz da relação entre Angola e Japão?

Este ano estamos a comemorar o 45º aniversário das relações entre Angola e Japão, realmente 45 anos é uma longa data.

Pessoalmente, o primeiro contacto que eu tive com Angola ocorreu no final da década de 80, naquela altura, estava no início da carreira diplomática, vim a Angola com uma delegação do nosso ministério, foi um dos primeiros contactos oficiais entre o governo do Japão e de Angola. Na véspera, a situação de Angola era totalmente diferente, o País estava dentro de uma guerra civil, ainda assim, já estavam aqui alguns empresários japoneses com alguns escritórios, mas não tínhamos uma missão diplomática.

Que visão tem agora do País?

Voltei como embaixador no ano passado, já faz praticamente, um ano de missão, e encontrei uma situação diferente, com a paz, mas a presença japonesa não é tão grande, pelo menos na área de empresas japonesas, os números quase que são os mesmos e poderá ter diminuído devido à situação económica e da COVID-19.

Mas relativamente à cooperação entre os dois governos, essa área aumentou bastante. E na minha primeira missão foi onde realmente começamos, foi mesmo um ponto de partida das relações entre Japão e Angola. Naquela altura começamos com ajuda alimentar, mas 45 anos depois já temos escritórios da Agência Internacional do Japão (JICA), que trabalha na área de cooperação, e ultimamente, temos várias áreas de cooperação e parcerias, como saúde, infra-estrutura, desminagem e a área social.

Ultimamente, estamos a aproximar as relações na área de cooperação institucional entre Japão e Angola.

Quais foram os principais aspectos que marcaram os 45 anos de relação entre Angola e Japão?

Primeiramente, podemos avançar aqui números, o Japão, principalmente, através da JICA tem feito uma cooperação cujo valor seco deu 600 milhões USD. Relativamente aos eventos que marcaram as nossas relações bilaterais, temos a reunião de TICAD na sigla em inglês, Conferência Internacional de Tóquio para o Desenvolvimento Africano, que iniciou em 1993, uma iniciativa do governo Japonês, juntamente com várias entidades internacionais, como as Nações Unidas, Banco Mundial e União Africana.

A TICAD começou em 1993, e, até ao momento, já vai na sétima conferência, a última ocorreu em 2019 em Tokyo, na cidade de Yokohama, naquela altura, tivemos pela primeira vez o presidente João Lourenço, que participou como o primeiro angolano nesta conferência internacional. No próximo ano, o evento vai se realizar na Tunísia. A conferência acontece, alternadamente, uma vez no Japão outra, num país africano. Na conferência debatem-se muitas coisas, mas tem três áreas importantes: a área económica, social e paz e estabilidade. Em relação a Angola, por exemplo, na área económica, tem um objectivo de aumentar a capacitação do capital humano; na área social, prestar ajuda na área da saúde, e, na área de segurança e estabilidade é a desminagem.

E nesta relação com o continente africano que peso Angola ocupa?

Angola tem potencial económico, por exemplo, no momento, Angola é a sétimo maior economia da África subsaariana em termos de PIB, e o segundo maior produtor de petróleo do continente, não só isso, tem, realmente, outras riquezas naturais, e também, agora, levando em consideração a zona de livre comércio que vai abranger todo o continente africano. Neste sentido, Japão considera Angola um dos países estratégicos importantes, então, ocupa uma posição com muitas prioridades. Como estamos em termos da balança comercial? Em termos de números do comércio, ida e volta, totalizaram cerca de 33 milhões USD no último ano de 2020, e acho que comparado com outros países não é um número grande. Angola tem importado do Japão quase, consistentemente, cerca de 30 milhões USD por ano, várias máquinas, e do lado do Japão, anteriormente importava petróleo, mas ultimamente, as importações japonesas provenientes de Angola diminuíram, entretanto, o comércio entre os países não é muito alto. O mais importante é o futuro, agora o Governo está mais interessado, convidou muitos investidores para diversificar a economia angolana, neste sentido, gostaríamos de aumentar as relações.

Que áreas os empresários japoneses investem mais em Angola?

No momento, é a área de infra-estrutura, por exemplo o porto de Moçâmedes, no Namibe, que anteriormente, através da JICA, o Japão já ajudou duas vezes com uma doação financeira para a reabilitação do porto. Agora, como terceira fase, o porto de Moçâmedes vai ter do Japão uma intervenção mais alargada, com iniciativas privadas como a Toyota Tsusho Corporation (um empresa de construção civil do Japão com bastante experiência).

Recentemente, o presidente angolano visitou o Namibe e aproveitou para fazer uma visita rápida a este porto.

Outras áreas estão em estudo, principalmente a área da indústria. Angola tem imenso potencial em todas as áreas, desde agricultura, pesca, recursos minerais, neste sentido, o País tem um futuro muito diversificado.

Olhando para as reformas que Angola está a implementar com o Fundo Monetário Internacional (FMI), até que ponto essas reformas beneficiam as relações entre os dois países?

Angola vai completar 20 anos de paz no próximo ano, desde então, Angola começou a se movimentar para a recuperação e desenvolvimento da economia, e nós sabemos que em 2014 com essa queda abrupta do petróleo que o país enfrentou uma crise económica e também teve a influência da pandemia da COVID-19, que ninguém esperava.

Portanto, sabemos que o actual Governo está a tentar fazer uma reforma com ajuda do FMI e dos outros parceiros internacionais. O FMI está a fazer uma avaliação muito positiva, e nós estamos a acompanhar.

As reformas estão a ocorrer, o Governo angolano está a fazer o combate a corrupção, a reforma financeira, as privatizações, como também, todos sabemos que essas reformas não são fáceis para qualquer país. O FMI impôs uma condição, o Governo aceitou e está a fazer o máximo esforço.

Eu, e principalmente, o governo do Japão, estamos a apreciar e a avaliar positivamente essas reformas. Essas mudanças dão uma impressão muito positiva para os empresários japoneses, e espero que o Governo continue e tenha sucesso.

E acredita que Angola tem um bom ambiente de negócios para atrair mais investidores estrangeiros?

Está a melhorar, pouco a pouco. Como disse, Angola está a fazer uma série de reformas, só depois vai melhorar. Com toda franqueza, temos alguns encontros com empresários japoneses, e alguns empresários japoneses têm dificuldades. Em primeiro lugar, comparado com outros países africanos, por exemplo, as empresas japonesas têm mais presença na África do Sul, Quénia, Nigéria, e esses países já tem um bom ambiente. Além disso, a língua portuguesa é difícil, estamos a falar de comunicação, como também a falta infra-estrutura, há muita burocracia, e, estas coisas não estão a ajudar as empresas japonesas, mas o Governo angolano está a fazer um esforço. E pessoalmente, acho muito importante este processo de desburocratização, ainda há pouco tempo o Governo lançou o implica 3.0, e isso tudo facilita e ajuda melhorar as condições de investimento para os empresários.

Neste quesito, como olha para a economia angolana?

Angola está numa situação muito delicada com o petróleo, com esse vai e vem, mas a economia angolana tem bases, porque tem recursos como petróleo, diamantes e outros vários recursos minerais preciosos que podem ser o motor para a próxima geração de indústrias, por isso têm muita base. A economia não vai continuar assim, pode sempre recuperar e vai procurar estabilidade.

Eu acho que Angola tem um futuro muito promissor, mas para isso, não pode ficar sem fazer nada, tem de trabalhar para ter condições.

Angola é um país muito privilegiado! Quais são os próximos passos das relações entre Angola e Japão?

O Japão não está somente com Angola, estamos a tentar se aproximar cada vez mais de África, visto que o continente tem cerca de um quarto dos países da ONU e tem aproximadamente 20% da população mundial, portanto, esse peso de África como continente é muito importante para economia, o desenvolvimento e para a paz do mundo.

Sem a paz e o desenvolvimento sustentável do continente africano, realmente a paz e o desenvolvimento mundial não existem, portanto, isso para o Japão também é importante e nos interessa. Sendo um país muito pequeno, o Japão também carece de recursos naturais e precisa de paz mundial. Neste sentido, o Japão precisa ajudar e trabalhar com países africanos, incluindo Angola.

Como disse, Angola é um dos países importantes para o Japão, talvez o ponto de partida seja ainda pouco, mas pelo futuro, queremos nos aproximar cada vez mais e ajudar Angola avançar e a progredir na área de infra-estrutura, como também em base social. Ainda pretendemos intensificar as nossas relações quer a área institucional, bem como, a área privada.

Foi feito também um memorando de entendimento para abertura de uma TV digital, além da área tecnologia tem alguma área específica que o Japão pretende actuar já?

No momento, não posso dizer que já temos projectos concretos, mas como se sabe, na área de tecnologia Japão é um dos países mais desenvolvidos, temos a JICA que está a oferecer vários cursos de treinamento dos recursos humanos que abrange várias áreas, desde as tecnológicas, telecomunicações e as medias, mas em todas áreas focando na capacitação do pessoal.