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“Hoje não se faz arquitectura sem se entender de economia”

Eliana Cruz, arquitecta e docente universitária, explica as ligações entre arquitectura e urbanismo, e a importância de uma visão multidisciplinar na criação de projectos. E defende o equilíbrio urbano entre o velho e o novo em Luanda.

Angola /
27 Jan 2020 / 10:34 H.

Quando descobriu que queria ser arquitecta?

Na verdade, sempre sonhei em ser designer de moda ou artista plástica. Em criança, gostava muito de desenhar e costurar roupas para as minhas bonecas. Ainda na infância, durante um período de obras de reabilitação da casa da minha mãe, pensei em ser engenheira civi . Muito mais tarde, por volta dos 16 anos, por incentivo dos meus pais, comecei a pensar em ser arquitecta. Quando fui pela primeira vez aos EUA, fiquei completamente encantada e anestesiada com Nova Iorque e aí descobri que quis sempre, na verdade, ser arquitecta.

Quais são as suas ambições e objectivos profissionais?

O meu sonho e objectivo é fazer de Angola uma referência na lista dos melhores projectos ou dos melhores arquitectos e urbanistas do mundo. Acredito ser possível realizar projectos de qualidade, com grande impacto social, 100% de autoria angolana e 100 % Made in Angola, que podem ser de referência internacional nas boas práticas e com sustentabilidade. O meu desejo é continuar a servir o meu País e espero poder continuar a fazê-lo, e quero continuar a aprofundar o meu conhecimento sobre as práticas e soluções mais sustentáveis face ao rápido crescimento urbano e ao grande défice de habitação que há em Angola.

Qual foi o momento mais alto da sua carreira?

Sou muito jovem e ainda não atingi o ponto mais alto da minha carreira, mas acredito que tenho uma jornada e caminhada longa. Confesso que tenho um desejo muito grande de apreender mais, de melhorar como pessoa e profissional, e continuar a oferecer o que tenho de melhor ao meu País. Espero continuar a aproveitar todas a oportunidades que a vida me tem oferecido. Para mim, esta entrevista é uma oportunidade ímpar - e é sem sombra de dúvida um momento marcante.

Quando é que se está diante de um bom projecto de arquitectura e urbanismo?

Um bom projecto de arquitectura não possui apenas uma dimensão de expressão artística, mas também a capacidade de determinar o meio do homem, dando resposta às suas necessidades, desejos e aspirações. Um bom projecto ‘fala’ de um tempo ou época, reflecte uma identidade, contexto económico, histórico ou cultural. Para mim, a arquitectura enquanto disciplina é a expressão da arte em betão. É uma linguagem, em desenhos, com voz, que comunica com os nossos olhos e lhes conta uma história de casa, museu, uma catedral. E também conta, através dos traçados e fachadas, a história das mudanças de uma sociedade. Por outro lado, é a ciência que cria abrigos para os seres humanos, desperta emoções e criatividade.

E o urbanismo?

O urbanismo é um instrumento que regula e ordena o planeamento do território ou de uma cidade. Para mim, arquitectura e urbanismo coexistem, não há um sem o outro. O urbanismo é a acção de projectar e ordenar espaços construídos, e é também um conjunto de práticas e ideias arquitectónicas. Um bom projecto urbanístico resulta de bons projectos de arquitectura e dá respostas às necessidades dos cidadãos inseridos no contexto urbano, numa sociedade. Ou seja, dá resposta a questões como a igualdade de acesso à habitação, educação, saúde e segurança, oferecendo melhor qualidade de vida. Um bom projecto de urbanismo acomoda o crescimento da cidade, assim como o desenvolvimento sócio-económico e cultural, a mobilidade urbana e o acesso às infra-estruturas - água, energia, saneamento básico, etc.).

Diz-se que o arquitecto, na sua formação, não aprende a gerir um negócio. É verdade?

Não partilho dessa opinião, tenho uma visão completamente diferente. Um arquitecto, durante a formação académica, muitas vezes pode até não aprender a gerir um negócio. Mas o arquitecto pode ter passado por experiências que lhe dão aptidões e competências para gerir um negócio - mas tem aptidões académicas para ser gestor de um mais projectos.

Aprendeu a gerir?

Durante a minha formação académica, tive a oportunidade de completamentar os meus estudos universitários no exterior do País. Desde muito cedo, no meu currículo académico, não fui orientada e preparada para estar focada apenas nos aspectos técnicos e teóricos de arquitecta, mas sim na criatividade, nos aspectos artísticos. Portanto, fui desenvolvendo aptidões e valências que me permitiram prosseguir e suceder em diferentes ramos da minha actividade profissional. Por outro lado, um projecto de arquitectura, tal como gerir um negócio, requer criatividade, planear, estudar as tendências, inovar, considerar e estudar os aspectos críticos - tal como iniciar um negócio.

O arquitecto tem de saber um pouco de tudo...

Acredito que, hoje, já não se faz arquitectura sem se entender de economia, política ou empreendedorismo. Na verdade, já não se pratica arquitectura como há 10 anos. Independentemente de sermos arquitectos, engenheiros ou médicos, é crucial para nossa sobrevivência no mundo profissional desenvolvermos as nossas habilidades e valências para outras áreas e sermos capazes de nos adaptarmos às mudanças e às dinâmicas das sociedades modernas. E, acima de tudo, devemos ter sempre em consideração os aspectos e contextos sócio-económicos do quotidiano. Caso contrario, somos arquitectos completamente alienados da realidade.

(Leia entrevista na íntegra na edição em papel do Mercado, já nas bancas)