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Fernando Ferreira: “O Estado não deve transferir para a banca a responsabilidade de apoio e fomento à produção”

Administrador do Grupo FF, Fernando Ferreira, destaca potencialidades da fazenda Camanhagala na produção de toneladas de fuba de milho, de farelo de soja, de bagaço de soja, entre outros, rumo à diversificação da economia.

Luanda /
14 Abr 2020 / 13:45 H.

Quais são os volumes de produção previstos?

A Fazenda dispõe de uma área Q de 19000 hectares dos quais 2000 hectares encontram-se prontos para o arranque, numa primeira fase vamos produzir cerca de 6800 toneladas de fuba de milho, 2000 toneladas de farelo de soja, 6000 toneladas de bagaço de soja, 360 toneladas de óleo de soja, e criar 3800 leitões.

Quanto está orçado o investimento na fazenda do Moxico?

A fazenda ficou orçada em 9 biliões de kwanzas, são capitais próprios do Grupo FF. Em quanto tempo deverá rentabilizar o investimento? Esperamos amortizar o investimento em 15 anos.

Qual deverá ser a origem dos suínos e quando deverão ser importados?

A origem da matriz dos animais é da África do Sul e já se encontram em reprodução na fazenda.

O que determinou a escolha do País de origem dos suínos?

O critério de escolha teve que ver com a qualidade dos amimais pela sua adaptação as 1 0 MERCADO 10.04.20 condições existente na província do Moxico.

Quando é que a fazenda entra propriamente em funcionamento?

Pretendemos arrancar com as actividades tão logo a Gesterra empresa pública proceda a entrega efectiva da fazenda, que deve ocorrer na próxima semana.

A COVID-19 não deverá condicionar o arranque do projecto Camanhagala?

Não há qualquer impedimento ao abrigo do Decreto Presidencial de estado de emergência nem do isolamento social, antes pelo contrário, a produção não pode parar.

Grupo FF dispõe de rede de distribuição para comercialização dos produtos da fazenda?

A empresa não dispõe de uma rede própria de distribuição, temos sim uma parceria já estabelecida com uma empresa líder de mercado no sector de distribuição. A falta de acesso tem sido um quebra-cabeças para o escoamento de produtos.

Como é que o Grupo FF se acautelou deste problema?

A questão logística é sempre uma preocupação para qualquer investidor, no entanto, existe na fazenda equipamentos modernos de alta qualidade, dimensionados à produção instalada, por um lado e por outro, a componente de transformação existente na fazenda vai permitir agregar valor aos produtos transformados e embalado com marca própria e não só. No que tange aos transportes temos o caminho-de-ferro funcional e dois grandes mercados na proximidade, nomeadamente as Lundas e Congo.

Este deverá ser o caminho para diversificação da economia angolana?

Sem dúvida, a agricultura será a tábua de salvação da economia angola tal como foi no passado.

O que acha do nível de solidariedade de empresários, empresas e pessoas singulares a COVID-19, com materiais de biossegurança, entre outros?

Os empresários nacionais sempre demostraram solidariedade, compromisso de estado, muito mais gostaríamos de fazer para mitigar a carência de testes rápidos e máscaras, porém, é necessária alguma precaução na aquisição destes meios para não incorrermos no erro de Espanha que comprou milhares de testes falsos.

Quantos trabalhadores pensam empregar?

O projecto Camanhagala vai empregar no máximo da sua força cerca de 300 colaboradores, entre eles, agrónomos, veterinários, mecânicos, electricistas operadores de máquinas, eletromecânicos, canalizadores entre outros.

Como empresário que medidas o executivo devia tomar para atenuar o impacto COVID- 19 na economia angolana?

A crise pandémica que estamos a viver terá efeitos devastadores, não apenas no plano da saúde pública e na perda de vidas humanas, mas também no plano económico. Angola, no curto prazo, sofrerá dois enormes problemas sociais e económicos. O primeiro, o desemprego, associado à disrupção produtiva e à quebra da actividade económica. O segundo, a incapacidade de se obter divisas externas para fazer face ao isolamento e à quebra de actividade, associada a uma diminuição da procura internacional por petróleo. O que quer dizer que, estamos perante uma tempestade perfeita, senão o pior momento da Nação Angolana no pós-guerra. Se nada for feito a fome, a pobreza, a miséria, atingirão níveis insuportáveis e intoleráveis. Num contexto em que as reservas de moeda estrangeiras ficarão inevitavelmente curtas para as necessidades, é imprescindível recorrer à substituição de importações e à utilização extensiva de uma política de fomento empresarial associado à política monetária.

Qual é a sua visão sobre a remodelação do Executivo?

A substituição de importações pela produção nacional e o corte nas despesas públicas devem constituir-se como os grandes objectivos do executivo, no curto e médio prazo, para satisfazer as necessidades mais básicas da população, com especial destaque para os produtos da cesta básica, por um lado, e proceder a cortes nas despesas públicas, nomeadamente daquelas que pela sua natureza implicam o aumento das despesas públicas. Com um PIB que está em queda desde 2016 e que, nestes quatro anos, já acumulou uma perda superior a 4%, o País poderá encontrar enormes dificuldades em lidar com o desafio económico que esta pandemia lhe vai impor, caso não sejam tomadas medidas desta natureza. Há que agir com rapidez e com ponderação. Os escassos recursos que a economia angolana, hoje, ainda dispõe devem ser utilizados de forma muito ponderada e racional. Por exemplo, as reservas de moeda estrangeiras poderiam ser utilizadas preferencialmente para a aquisição de matérias primas, que sendo transformadas em produtos da cesta básica, promovem a actividade agrícola, autosuficiência alimentar e que, com incorporação nacional, acabam por ser muito inferiores às necessárias para a importação de artigos produzidos. De igual forma, os recursos hoje aloucados ao Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), no valor de dois mil milhões de dólares, deveriam ser canalizados para prestar a necessária liquidez a que empresas na área da cesta básica possam aumentar a sua produção, assegurando os mantimentos básicos da população.

Que opinião tem sobre as medidas tomadas pelo Executivo sobre o apoio ao sector empresarial?

As medidas são boas, porém, insuficientes. O estado não deve transferir para banca a responsabilidade de apoio e fomento à produção sem antes criar as condições de garantia para mitigar o risco associado à própria actividade económica. No meu entender o tempo que leva um processo de avaliação de propostas de crédito na banca até aprovação do fundo de garantias leva no mínimo seis meses, o que é letal para quem, por exemplo, trabalha no campo, onde os prazos das campanhas são extremamente rigorosos sem espaço para manobras e indecisões. Com liquidez, as empresas podem produzir mais, sobretudo nos sectores da cesta básica que são os mais importantes num contexto pandémico e que, felizmente, são também menos susceptíveis a disrupção da sua actividade por conta da epidemia. De igual forma, com liquidez, as empresas conseguem aliviar a tesouraria, ficando melhor preparadas para suportarem os custos de potenciais disrupções de actividade sem recurso ao despedimento.

Na sua óptica quais devem ser as prioridades?

Defendo que a prioridade deve ser dada aos projectos já devidamente implementados com potencial de produção dos produtos da cesta básica sem, obviamente, descurar a possibilidade de novos projectos inovadores e com potencial de gerar emprego e divisas que o País muito precisa. Este é o momento para fomentar a actividade nacional. Tanto mais num período em que o principal sector produtivo angolano – o sector petrolífero – está em queda internacional, registando quedas abruptas do preço do barril do petróleo, e com uma procura internacional de petróleo a contrair-se devido às restrições impostas pelos governos a nível mundial para travar a pandemia do novo coronavírus. Não será possível, neste enquadramento, contar com a capacidade de importar bens para fazer face à crise sanitária que o País enfrenta, que se irá acentuar ainda mais. Resta, à economia nacional, caminhar para a auto-suficiência, sobretudo no sector alimentar, de forma a poder aligeirar os efeitos nefastos da pandemia e não permitir, do ponto de vista social, que a população atinja níveis de pobreza extrema e de fome.