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“Esperamos contribuir para as novas refinarias”

Em entrevista ao Mercado, Edson do Santos afirmou que o País está numa fase ambiciosa, a petrolífera Somoil quer ser uma das empresas preparadas para fornecer crude para as refinarias. O PCA avançou também que assinou um protocolo com a BODIVA para avaliar o processo para entrada em bolsa.

Angola /
23 Mai 2022 / 09:38 H.

A Somoil tem uma produção diária de 14 mil barris de petróleo. Há planos para aumento deste número?

Sim. Dentro das prioridades, maximizar a produção é um dos objectivos mais importantes, para além da segurança e integridade. A Somoil tem investido para este fim, um exemplo é a recente mobilização da unidade de perfuração walking (FS-FST) cujo propósito passa pela perfuração de novos poços que, certamente, irão mitigar o declínio de produção do FST. Um segundo aspecto, é a questão tecnológica, a Somoil opera hoje em campos muito maduros, a maior parte deles teve início de produção nos anos 70. A nossa estratégia está no uso de tecnologia do século XXI, abandonando a dos anos 50 e 60. Os resultados têm sido visíveis, nos últimos 18 meses a Somoil duplicou a produção através das duas iniciativas.

É suficiente para atender o mercado interno e externo?

Não. Temos de produzir mais, o País está numa fase ambiciosa, ouvimos todos os dias o Executivo a falar de novas refinarias que, certamente, irão precisar de mais petróleo bruto. A Somoil pretende ser uma das empresas preparadas para fornecer crude. Pela nossa localização (estamos maioritariamente no Soyo, província do Zaire) esperamos poder contribuir para o desenvolvimento destas infra-estruturas que se esperam estar em Cabinda e no Soyo.

Como olha para evolução do preço do petróleo no mercado internacional?

Os factores básicos (procura e oferta) indicam para preços acima dos 60 USD por barril. Houve falta de investimentos no sector, o que causou a queda da produção. Angola (por exemplo) tem estado a sofrer um declínio de (aproximadamente) 10% na produção de ano pós ano. Achamos que causas geopolíticas estão também a contribuir para este aumento do preço do petróleo (acima dos 100 USD), nomeadamente a guerra na Ucrânia. Aliás, tem permitido igualmente maior investimento para Somoil e outras empresas do mercado.

Existem outros factores a influenciar a subida do preço do crude para além da guerra?

Sim, a oferta. Sempre que o volume de produção diminui, há escassez de mercado e há tendência para o preço aumentar porque a procura continua presente. A procura pelo crude, particularmente nos últimos 18 meses, tem estado a aumentar e já chega a estar muito próximo dos níveis antes da pandemia da Covid-19. Então, é necessário haver produção suficiente para ir ao encontro da necessidade do mercado.

Que falta ao sector petrolífero para que Angola atinja níveis superiores a Nigéria?

Mais exploração. Pois trará descoberta que, eventualmente, vão se tornar reservas. No passado houve menos investimentos na área de exploração. Graças a Deus, o Executivo ouve o sector privado, do qual a Somoil faz parte, e tem havido novas políticas que têm estado a incentivar o investimento na indústria.

Quais são estas políticas?

Menciono duas. Uma é a questão da (nova) legislação a voltada aos campos marginas. Outra é o número de blocos que têm sido visitados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG). Têm permitido mais investimentos e maior crescimento no sector. De certeza que essas iniciativas daqui a dois ou três anos começam a dar resultados. Historicamente, nos últimos anos temos estado a declinar a produção. Se em 2022 conseguirmos manter ou aumentar a produção, comparativamente ao ano anterior, mostra que a indústria está no caminho certo.

Até que ponto este aumento do preço beneficiou a Somoil?

Beneficiou tremendamente. A nossa receita depende muito do preço final de venda do petróleo. Saímos de um preço médio de 41 USD por barril (2020) para 71 USD (2021). Hoje temos um preço acima dos 100 USD por barril. Isso quer dizer com a mesma produção a Somoil tem mais receitas. Mas, preferimos nos focar nos sectores que controlamos porque não temos o controlo e nem influência sobre o preço do petróleo. Focamo-nos na eficiência, produção e fazemos investimentos no momento certo para termos uma empresa financeiramente saudável.

Quais são as principais regiões e blocos explorados pela Somoil?

Neste momento a nossa presença está maioritariamente em terra (no bloco FS e FST), temos também uma participação de 30% no Bloco 2.05 Este em offshore águas rasas, aproximadamente, 50 metros de profundidade. Somos ainda parceiros em blocos que não operamos directamente, no caso os Blocos 3.05; 3.05A e 4.05 operados pela Sonangol. Temos igualmente parceria de 5% no Bloco 17.06 operado pela Total. Estamos a trabalhar para a entrada no Bloco 14 (operada pela Chevron) e negociamos com a Sonangol possível entrada no Bloco 18 e 31. A visão da Somoil é continuar a crescer nos dois aspectos, operar e ser parceiros em blocos petrolíferos.

Para quando a entrada nos Blocos 18 e 31?

Nos blocos 18 e 31 se dependesse da Somoil seria para já, mas ainda estamos a fechar negociações e a questão do financiamento nestas aquisições.

Qual foi o resultado líquido da empresa em 2021?

A Somoil obteve um resultado líquido de 41 milhões de USD em 2021.

O que influenciou este resultado?

Começamos a sentir que a estratégia e objectivos traçados pela Comissão Executiva da Somoil começam a dar frutos. Diria que o primeiro deles tem que ver com a exploração do petróleo, a questão da segurança e a integridade nas instalações. A empresa focou-se na questão de manter o trabalhador em segurança, isso correu muito bem. Tivemos o melhor ano (na história da Somoil) em termos de segurança e integridade, não houve derrames e nenhum problema ambiental. Isso deu-nos conforto para investirmos mais na produção. A Somoil duplicou o nível de produção e consegui controlar os custos, daí os resultados que tivemos em 2021. Claro que beneficiamos do aumento do preço do petróleo, algo que não controlamos, mas agradecemos.

Qual é a perspectiva para 2022?

Igual ou melhor que 2021. A Somoil quer continuar a investir na indústria petrolífera, acreditamos em Angola. Pensamos que temos as condições para crescer no País e o nosso foco está no aumento da produção, da nossa presença como uma empresa integrada de energia de referência no continente.

Há uma corrida no mercado internacional para obtenção do gás natural, como está a Somoil em termos de produção deste produto?

A nossa produção é pequena, no momento o foco tem sido o petróleo bruto. Mesmo no âmbito da transição energética, a Somoil começa agora a investir no gás natural. O primeiro passo neste sentido é a entrada no Bloco 17.06, operado pela Total que (maioritariamente) vai produzir gás natural. Será (provavelmente) enviado à planta do Angola LNG para o possível uso e exportação. Com isso esperamos também crescer em termos de gás dentro dos blocos onde operamos.

Quando a Somoil vai entrar no sector da distribuição, abrindo postos de abastecimentos de combustíveis próprios?

Queremos estar mais próximos do consumidor final e termos postos de abastecimento com a marca Somoil. É uma das nossas prioridades e perspectivas para 2022.

Para além do petróleo e energias renováveis, quais são os outros projectos que a Somoil tem ou pretende desenvolver no País?

O nosso foco é energia, petróleo, gás e energias renováveis. Mas, devemos continuar a crescer em termos de projectos de responsabilidade social, particularmente nas áreas da saúde e educação.

A Somoil pretende entrar em bolsa. Como está a ser preparado este processo?

Estamos a nos preparar. Criamos um projecto que já está em bom andamento, no qual passamos uma visão do que será feito até 2030 com muita segurança. Foi importante fazer um trabalho que espelha a nossa visão e objectivos. Actualmente olhamos mais para dentro e entender os desafios que uma supervisão colocaria à Somoil. Fizemos um projecto que chamamos de “Reestruturação dos Negócios ou Reposicionamento dos negócios da Somoil”.

O ainda precisa de ser definido?

Precisamos definir se o valor apresentar em bolsa aos potenciais investidores tem que ver com a Somoil no global ou com a parte de projectos da Somoil. Portanto, estamos na fase final da restruturação ou do reposicionamento do negócio. Diria que estamos a fazer um housekeeping (serviço de limpeza). Também estamos a trabalhar numa iniciativa que visa a introdução das normais internacionais do ramo financeiro e passarmos a definir a nossa política contabilística. Isso é a nível do esforço interno no sistema integrado de informação.

A Somoil vê a bolsa como uma alternativa ao financiamento?

O financiamento da estratégia de crescimento não poderá vir somente de fundos próprios temos de continuar a relação com a banca que é parte da solução. A aquisição dos 20% da Total no bloco 14 é um exemplo deste processo, onde tivemos a participação da banca internacional. A iniciativa de entrada em bolsa assenta nessa necessidade de finanças, pois toca também na questão da quota de produção que actualmente está acima dos 10 mil barris por dia e próxima dos 16 mil. Em 2025 esperamos estar nos 40 mil barris por dia e atingir os 80 mil em 2030. É um crescimento agressivo, tendo em conta a idade dos activos que iniciaram a produção nos anos 70.