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Elisabetta Merlino: “Angola pode aproveitar o grande potencial italiano no sector industrial”

A directora da Italian Trade Agency (ITA), que é a agência encarregue da internacionalização das empresas italianas diz que apesar de Angola estar numa posição relativamente baixa nas relações comerciais entre a Itália e outros países africanos, tais como a África do Sul, Nigéria e Etiópia (país com o qual Itália tem laços históricos), devido aos vários constrangimentos do passado, o futuro, no entanto pode ser promissor, se for mais visível ao exterior, para que muitas empresas tenham interesse em conhecer o País.

25 Fev 2020 / 14:43 H.

Que balanço faz das relações comerciais entre Angola e Itália nos últimos cinco anos?

O balanço das relações comercias entre os dois países, nos últimos cinco anos, está em fase de recuperação após um período de altos e baixos, devido a situação económica que Angola enfrenta nos últimos anos. Segundo dados estatísticos do ISTAT – Instituto Nacional de Estatísticas Italiano, as trocas comerciais entre Itália e Angola tiveram um decréscimo de 78% em 2019, comparativamente a 2017. Tais dados devem-se à estagnação e redução negócios directos entre os dois mercados, factores que pelos quais temos vindo a trabalhar no sentido de estimular o aumento, e também pela queda do preço do Petróleo, que é o principal produto de exportação de Angola para Itália.

Que posição se encontra Angola no âmbito das relações comerciais com a Itália, comparando com outros Países?

Em termos de relações comerciais com a Itália, Angola situa-se ainda numa posição baixa, pois a Itália tem relações comerciais fortes com vários países no mundo e em particular com alguns países da África Subsahariana. Comparando com a África do Sul, Nigéria e Etiópia (país com o qual Itália tem laços históricos), Angola ocupa uma posição pouco relevante mas com grandes margens de melhoramento, pois o comércio directo entre os dois países ainda é escasso, devido a triangulação existente na comercialização de produtos italianos. Isto é, muitos produtos italianos chegam a Angola provenientes de outros mercados, sobretudo do mercado português, o que por sua vez afecta a tabela comercial, transmitindo-nos dados não realísticos sobre o verdadeiro comércio entre os dois países.

Em que áreas entende que sejam mais fortes as relações entre os dois países?

Actualmente as áreas mais fortes nas relações comerciais entre os dois países são a área de petróleo para Angola e de maquinaria agrícola e industrial para a Itália, estando as condições criadas para a fortificação das relações comerciais noutros sectores, com uma ênfase particular à transformação alimentar.

Em que áreas ou sectores Angola pode explorar mais dessas relações?

Angola pode aproveitar o grande potencial italiano no sector industrial, através de aquisição de know-how e de técnicas para o melhor aproveitamento da produção local. Sendo a Itália um país que construiu os alicerces da sua economia nas pequenas e médias empresas, o mesmo modelo pode ser replicado para a estimulação do empresariado angolano, através do intercâmbio estratégico e comercial entre empresas de ambos os países. É com este objectivo que têm sido organizadas várias missões de empresas angolanas na Itália e de empresas italianas em Angola, com vista a estreitar as relações empresariais entre os dois países, criando também as condições para a importação de produtos italianos e exportação para a Itália de produtos angolanos.

Quais são as áreas ou sectores económicos que mais interessam aos empresários italianos?

Com base no trabalho que temos vindo a desenvolver com as empresas italianas, o interesse concentra-se sobretudo na agricultura (máquinas, sistemas de irrigação, sementes, viveiros, entre outros), maquinaria e tecnologia para a transformação alimentar, embalagens, sector mobiliário, equipamentos hospitalares, construção e alguns serviços industriais e financeiros.

Que empresas italianas operam em Angola?

Actualmente temos registadas no nosso data base um total de 30 empresas italianas presentes em Angola.

Que percepção têm os empresários italianos do actual ambiente de negócios em Angola?

Angola tem vindo a trabalhar no sentido de melhorar o ambiente de negócios interno, e os factores ligados a corrupção e transparência foram durante muitos anos um obstáculo para a entrada de grandes investimentos no País. Para os empresários italianos o ambiente de negócios que se está a criar é um passo importante para que muitas empresas tenham interesse em conhecer o País e ver as possibilidades que o mercado oferece.

Em que aspectos entendem que possa melhorar, comparativamente a outras realidades?

Conforme mencionado acima, Angola tem muitas potencialidades, maior parte delas desconhecidas à Itália e em particular à esfera empresarial. Há necessidade de melhorar alguns aspectos que têm vindo a limitar os negócios entre Angola e o resto do mundo, especialmente com a Itália. Um aspecto importante, o qual pode ser melhorado, tem a ver com a visibilidade que o País pode conquistar nas melhores e maiores plataformas de negócios a nível internacional, assim como a participação institucional e empresarial de Angola nos grandes eventos internacionais dedicados ao mundo empresarial, como feiras e workshops. Por outro lado, a contínua criação de condições internas favoráveis a atracção de investidores é imprescindível, condições estas que consubstanciam-se na aprovação de normativas atractivas para os investidores, construção de infraestruturas e serviços que viabilizam presença de empresas estrangeiras em Angola, como o melhoramento da mobilidade urbana e de serviços de base como a electricidade.

O que Angola mais importa de Itália e vice-versa?

Segundo o ISTAT, os produtos que Angola mais importou da Itália em 2019 são as equipamentos industriais, alimentos congelados e horto-fruta, ao passo que a Itália importou de Angola sobretudo petróleo, rochas ornamentais e madeira.

Qual é o volume de negócios da balança comercial?

Em 2019 o volume de negócios da balança comercial entre os dois países foi de 652 milhões de euros, com uma redução de 3,52% em relação a 2018 (fonte ISTAT).

Que artigos, produtos ou equipamentos mais pesam em termos monetários de um lado e de outro?

No lado de Angola, o produto com mais peso em termos monetários continua a ser o petróleo, e actualmente tem vindo a ganhar peso também o mármore e o granito; para o lado da Itália os produtos ou equipamentos que pesam em termos monetários são as máquinas (tecnologias), aparelhos e instrumentos mecânicos.

Como a Itália desenvolveu a sua indústria têxtil?

A indústria têxtil representa um dos sectores da indústria manufactureira mais importantes na Itália, considerado como um sector de uma vasta e antiga tradição. O desenvolvimento do sector deve-se justamente pelas estruturas de base e apoio criadas pelo Estado e Associações Empresariais para dar sustentabilidade aos distritos de produção regionais existentes, constituídos maioritariamente por pequenas e médias empresas.

Há alguma empresa italiana interessada em investir no sector têxtil em Angola?

Actualmente existem algumas interessadas a cooperar com empresas angolanas do sector, cooperação que sucessivamente tende a desencadear intenções de investimento. Para as empresas italianas de um modo geral, antes de tomar a decisão de investir directamente num determinado país, é necessário conhecer o mercado e obter informações úteis sobre as condições de base que o país oferece, as técnicas de gestão das empresas locais e os hábitos e costumes da população, assim como a receptividade do produto no mercado, daí a opção de partir inicialmente com parcerias comerciais, para sucessivamente decidir sobre o eventual investimento directo no mercado.

Pretendem trabalhar em conjunto com angolanos e criar feiras do género da Milano Unica têxtil em Angola?

Este é o nosso objectivo final, razão pela foi realizada a missão com estilistas, jornalistas, bloggers e organizadores de eventos angolanos, de modo não só a visitarem a feira e conhecerem as empresas italianas do ramo, mas para avaliar o nível de receptividade dos operadores angolanos do sector nos eventos desta natureza. Naturalmente, para que tal objectivos se concretize, será necessário um processo contínuo de cooperação entre os organizadores do evento e os profissionais do sector em Angola.

Quais são os projectos a serem desenvolvidos na área de consumo entre os dois países?

Estão em curso vários projectos neste sentido, dentre os quais podem ser destacadas as missões de empresas angolanas na feiras italianas dos mais variados sectores, com um destaque a feira MIDO em Milão, uma das maiores feiras mundiais do sector óptico, COSMPROF em Bolonha, maior feira mundial do sector da cosmética e produtos de tratamento do corpo, EXPOCOMFORT em Milão, do sector das energias renováveis e construção, Salone Del Mobile em Milão e MIDA em Florença, do sector mobiliário e artigos para casa, FILO em Milão, do sector têxtil, e outros eventos de menor dimensão em Nápoles, para a joalharia e moda.

Que tipo de colaboração existirá com a Agência de Investimento e Promoção das Exportações?

Temos colaborado com a AIPEX, na organização da participação de delegações de empresas angolanas para a exposição de produtos em feiras italianas, como a feira MACFRUT em Rimini, dedicada à horto-fruta, e a feira MARMOMAC em Verona, dedicada às rochas ornamentais, produtos de interesse para o mercado italiano. Por último, é importante salientar a contínua organização de missões de empresas italianas em Angola, com um realce particular à participação de empresas italianas na FILDA, com um pavilhão italiano composto por stands de empresas dos mais variados sectores.