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Eduardo Continentino: “Angola é o quarto com maior peso no volume de negócio do Grupo Multichoice África”

O director-geral da Multichoice Angola está em fim de mandato e fala em exclusivo ao Mercado. Durante os quatro anos que esteve à frente da sucursal da multinacional de matriz sul-africana em Angola, o manager constatou que o País é hoje um mercado mais maduros para qualquer negócio e revelou que ocupa o quarto lugar dos países que mais contribuem em volume de negócios do grupo.

10 Fev 2020 / 14:33 H.

A última vez que conversamos falava da necessidade da revisão da lei que regula a actividade de Tv por satélite, que avanços foram dados para a revisão desta lei e quais é que são principais dificuldades do negócio actualmente?

Hoje temos a lei que já é um grande passo, que é importante para a regulamentação do nosso negócio. Temos a lei na vertente da televisão, que estabelece regras, e normalmente essas leis são baseadas em padrões internacionais e não é diferente aqui em Angola. Até o presente momento, estamos satisfeitos com o que tem escrito na lei. Obviamente que as leis ainda dependem das regulamentações, então a lei exige, mas não tem ainda os regulamentos pré-estabelecidos. São passos, acho que os regulamentos são estabelecidos a partir da realidade ou necessidade do mercado. Basicamente, essa é a lei que mais afecta o nosso negócio e em relação ao regulador, que é o INACOM, também tem o seu papel, que nós entendemos que é importante, e estamos em constante diálogo.

Estão satisfeitos com o papel que INACOM tem desempenhado actualmente?

É importante a regulação e reconhecemos a importância da regulação e procuramos sempre cumprir com as determinações. Acho que o ponto positivo é exactamente o diálogo que existe entre as partes. Obviamente, temos espaço para a discussão, para determinados tópicos que por alguma razão tenhamos algum tipo de dificuldade, para implementação. De uma forma geral, o processo anda em um bom ritmo. Há mais a ser feito, precisa-se amadurecer esse processo, porque tudo é muito novo, então o tempo será muito importante para as duas partes terem muito equilíbrio. Quando falo as duas partes, falo os operadores e os reguladores, para que haja um melhor equilíbrio, que é a Lei e a regulação, que têm que existir e ao mesmo tempo serem atendidas as necessidades dos operadores.

Mas o que transpira lá fora é que há um diferendo entre os operadores e o regulador. Os operadores recentemente actualizaram as tarifas e o regulador não se pronunciou, o que dá entender lá fora que os operadores actualizaram as tarifas a revelia, sem o consentimento do regulador...

Nesse caso, posso falar pela nossa empresa, que sempre respeitou a Lei, e nós seguimos o que é determinado pela Lei. Obviamente que queremos ter espaço para a discussão e trazer novos pontos de vista, mas a partir do momento que existe uma determinação legal, cumprimos. No nosso caso, os aumentos sempre aconteceram após autorização. Por exemplo, agora estamos a aguardar uma nova autorização para que haja um ajuste de preço por conta das mais recentes desvalorizações da moeda, uma vez que grande parte dos nossos custos operacionais são pagos em moeda estrangeira.

As tarifas que a DSTV pratica actualmente a cobrir os custos operacionais?

Ainda existe um gap, e é esse gap que estamos a negociar para ver como conseguimos mitigar. É muito interessante esse balanço porque precisamos fazer de uma forma muito inteligente qualquer tipo de aumento, uma vez que o mercado está muito sensível a novos preços. Poderíamos ter uma autorização de aumento, seja qual for, mas, como operadores, precisamos ter a sensibilidade de saber se o aumento pode, de facto, ser aplicado ou não. Esse é, actualmente, o nosso grande desafio. Por conta desse gap, devido ao período que ficamos sem poder fazer um aumento de preço, agora temos que mitigar da melhor forma possível esse passivo, através de optimização dos custos, uma melhor engenharia financeira, que nos possa permitir suportar esse gap.

O último relatório do INACOM dizia que os operadores perderam cerca de 180 mil clientes, a Multichoice sente esse impacto na carteira de clientes?

Os dados do INACOM não são muito claros em como chegaram a esse valor. Existem variáveis importantes que precisam ser consideradas. Quando olhamos para o nosso negócio, apresenta sazonalidades. O nosso negócio, normalmente, tem um pico muito grande se existe algum evento mundial no meio do ano. Por exemplo, agora com o início da Champions League vai dar um pico muito interessante, depois tem um crescimento substancial no final do ano, depois tem uma queda no primeiro e no segundo trimestre. É fácil explicar, pois, nesta fase, concorremos com todos os custos do cidadão, uma vez que é período de pagar a escola, comprar material escolar, os impostos, as pessoas tiram férias. Portanto, são períodos muito especifico, não podemos ver como um tudo.

Perguntava sobre a regulação, entendo que estão satisfeitos com a Lei, mais de qualquer forma, nesse período, com a desvalorização da moeda, qual seria o preço médio ideal para os vossos serviços, para eliminar o gap que se referia?

Se considerarmos o pacote premium, em África esta no valor de 60 USD, e o nosso preço está na casa dos 30 USD. Aqui é fácil perceber que ainda há um gap de uns 30 USD para o pacote premium.

Então essa Lei não precisa de revisão para já?

Para já, não, ela precisa de regulamentação, para regulamentar tudo aquilo que vem ser discutido.

Quais são os novos desafios para o sector, principalmente na área de Pay Tv?

Desafio é lidar com as novas tecnologias. Hoje posso dizer que Angola é o mercado com uma concorrência mais activa. Toda a África é um mercado aberto, temos os competidores visíveis, que todos conhecemos, mas começam a aparecer os competidores virtuais, e esses são frutos das novas tecnologias, e nós precisamos nos preparar e adaptar para essa competição. É esse é, exactamente, o grande desafio do futuro. Por isso criamos o programa “ Future Fit”, exactamente para nos prepararmos em termos de novas tecnologias, com novos produtos, para que possamos perdurar e continuar por mais longos anos, como sérios competidores em África.

Em termos de conteúdo, qual é que tem maior peso no volume de negócio na DSTV?

Desporto, Novelas e os desenhos animados, esses são os três segmentos que os nossos clientes mais aderem.

Antes de Angola já desempenhou a mesma função em Moçambique, o que difere o mercado moçambicano do mercando angolano?

O mercado angolano é muito mais maduro em termos de negócio. É um mercado, com certeza, com potencial muito maior. A população é bem semelhante, mas a questão de capacidade e poder aquisitivo da população angolana ainda é melhor que da população moçambicana. Como o nosso negócio de televisão atinge uma faixa da população, o número de penetração dentro dos lares hoje em Angola é muito maior que em Moçambique.

Qual é o peso da contribuição de Angola no Grupo Multichoice em comparação com Moçambique?

Estamos em 54 países em África e Angola é hoje o quarto país, sem contar com África do Sul, em termos de volume de negócio.

Em termos numéricos, qual é a contribuição de Angola para o grupo?

Esta questão de valores numéricos ou de receitas, diante do estatuto que temos na bolsa de valores de Joanesburgo, estamos limitados a revelar estas informações. Portanto, não posso divulgar, mas penso que essa informação é substancial quando olhamos para um contingente de 54 países e Angola contribui em quinto lugar contando com África do Sul e em quarto sem a África do Sul.

Qual foi o impacto da crise no negócio da Multichoice Angola?

Com certeza, os últimos quatro nos foram difíceis. Foram anos em que tivemos situações macro-económicas muito complicadas, como a baixa do preço do barril de petróleo, a desvalorização do kwanza, tudo isso contribuiu para que tivéssemos quatro anos muito desafiantes. Mas, fomos muito resilientes durante esse período e em nenhum momento baixamos a cabeça diante das dificuldades.

E de que forma é que contornaram?

Penso que foi através de planeamento e criatividade. Em 2016 estabelecemos um programa chamado Projecto Virada, baseado em três pilares: Olhar o negócio em termos de qualidade; Olhar as pessoas que fazem parte do nosso negócio; e o terceiro, olhar para a qualidade dos conteúdos.

E qual destes é que teve o maior peso e contribuiu para, se me permite o termo, fintar a crise?

Acho que os três continuam a ser fundamentais. O sucesso não poderia existir com a separação de um deles. Se me perguntar qual deles é mais importante, é complicado dizer porque a raiz do nosso negócio são os conteúdos. Portanto, cada pilar tem uma importância fundamental. Para que qualquer coisa aconteça, precisamos de gente, de pessoas que são os nossos colaboradores. Em relação a qualidade dos nossos serviços, é uma questão fundamental que faz com que o subscritor venha a ser nosso cliente e tenha preferência pelos nossos serviços.

A Multichoice fez também um grande investimento nos conteúdos locais, cumpriu o objectivo que esteve na base da aposta ou pensa que, olhando para os resultados, deveria rever essa estratégia que a empresa adoptou?

Somos conhecidos como o melhor contador de história de África, porque o grupo entendeu que os conteúdos locais são fundamentais para o sucesso do negócio. Em cada país que actuamos, procuramos dar um foco ao conteúdo local e não foi diferente em Angola. A nossa estratégia em Angola foi desenvolver canais locais. Em vez de termos uma plataforma única , que seria uma plataforma da nossa propriedade, resolvemos contribuir com o mercado local que chamamos de corporate share value, que é exactamente a empresa, diante da sociedade, contribuir com valor. O fizemos através corporate share value foi potencializamos a criação de empresas angolanas criarem canais locais, desenvolvendo o próprio conteúdo através do nosso suporte financeiro e técnico nalgumas situações.

Qual é que acha que será o futuro da TV por satélite em Angola?

O mercado angolano, em particular, e mundial, em geral, muda drasticamente e é por conta disso que dentro do nosso planeamento procuramos entender qual será esse futuro e como é que podemos adequar ao negócio. Desenvolvemos um programa chamado Future Fit, que foi a melhor forma que encontramos de enquadrar o negócio ao futuro que, na realidade, já é o presente. A televisão, obviamente, seja por satélite ou por cabo ou aquela televisão fixa, tende a ser cada vez mais difícil de ser acessada, porque as pessoas hoje vivem numa dinâmica muito grande. Isto quer dizer que aquela tradição de ficar no sofá a ver a televisão já começa a ficar mais restrito, pelo precisamos de pensar em soluções alternativas. É o que chamamos hoje de OTT, que é adoptar, além daquela televisão tradicional. OTT é a possibilidade que damos aos nossos subscritores de ter acesso aos serviços em qualquer lugar e a qualquer momento e com várias alternativas, como telemóvel, tablet, computador ou via televisão tradicional lá em casa. Portanto, este é o futuro da televisão, que é fazer um link entre a tecnologia e o conteúdo e a facilidade do acesso ao serviço. Quem não tiver isso, com certeza, não vai acompanhar a transformação que está a acontecer.

Quantos colaboradores tem a Multichoice Angola actualmente?

Colaboradores directos temos 340. Agora, podemos considerar também quadros indirectos aqueles que têm trabalho terceirizado da Multichoice, que rondam à volta de 2000. Neste número estão os funcionários dos nossos agentes que vendem os serviços, funcionários do nosso call center, os instaladores certificados, que são aqueles instaladores que prestam serviços na casa dos clientes ou prestar um serviço de manutenção.

Confirmar que está de saída da Multichoice Angola?

Sim. Vou sair no final de Março deste ano. É uma transição acordada com a companhia desde Setembro do ano passado. Já foi escolhido o meu substituto e durante este mês de Fevereiro até Março estamos a cumprir o processo de transferência de pastas.

O que terá representado um grande desafio quando assumiu a DSTV Angola/ Multichoice Angola e agora que esta de saída?

O grande desafio foi a reconstrução do negócio. Passamos por uma situação onde o mercado passou a ser extremamente competitivo e a empresa precisava adaptar-se, esse novo cenário, fizemos uma revisão total do negócio, que foi onde veio o projecto “ Virada”. Dentro do projecto, desenvolvemos o crescimento através da cadeia de distribuição, passando para 25 lojas, 450 agentes autorizados, 225 instaladores e 141 pontos de retalho. Esta foi a base para que pudéssemos atender da melhor forma os clientes.