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“É preciso que as seguradoras invistam nas novas tecnologias, porque são o futuro”

A aposta nas novas tecnologias e colocar os seguros por cima é a forma mais rápida de atingirmos maiores níveis de penetração dos seguros no PIB, defendeu, em entrevista ao Mercado, o Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Protteja Seguros, Kianda Troso, notando ser um trabalho que deve ser tratado de forma conjunta entre todos os players do mercado.

Luanda /
20 Set 2021 / 11:03 H.

Como olha para o mercado de seguros, numa altura em que cresce nos últimos anos, mas com uma taxa de penetração dos seguros no PIB abaixo de 1% e da média africana.

Face aos números da África ou na região em que Angola se encontra, ainda estamos aquém comparativamente aos outros países. Na nossa visão, isto é um trabalho que deve ser tratado de forma conjunta, entre operadores, o regulador e outras entidades que devem, de alguma forma, assegurar a supervisão e a fiscalização. O objectivo é garantir que questões ligadas aos estímulos, investimentos e questões inerentes à própria literacia dos seguros e a reformulação dos produtos que vão de encontro com o poder de compra do angolano, sejam tratadas. Temos de saber se estamos a fazer esses produtos para quem e onde essas pessoas estão. Temos de entender se até hoje a regulamentação que existe traz mais-valia para o público-alvo, se a formação, desde o ensino de base às universidades estão a ser bem abordadas. Portanto, é um trabalho que deve ser feito não só pelas seguradoras. Temos exemplos de outros sectores como a banca, as telecomunicações que cresceram com trabalho conjunto para poder chegar a esse ponto. Ainda vamos viver momentos em que o nível de penetração estará muito aquém daquilo que é o esperado, independentemente de ser um sector de grande importância para as famílias e para a economia de uma forma geral.

Acredita que a falta de literacia financeira dos cidadãos para a adesão aos seguros seja a causa da fraca aderência?

Acredito sim e há muito para ser feito no que diz respeito à literacia de seguros, desde as entidades oficiais, seguradoras, entre outras. Fiz menção da importância dos seguros para a sociedade, para as famílias e as empresas e o exemplo mais clássico são os seguros obrigatórios. Se olharmos para o universo de empresas que subscrevem este produto chegamos a conclusão de que os números são bastante reduzidos. Se as próprias empresas, que têm uma força legal para contratar esses seguros estão ainda longe, numa comparação com as famílias, o que dizer dos demais produtos de forma mais generalizada, com certeza que o distanciamento ainda é maior. Em suma, muito trabalho deve ser feito.

Mesmo com esse índice de penetração, podemos dizer que os seguros contribuem para a economia angolana?

Se olharmos para o contributo efectivo, do ponto de vista do resultado dos impostos, ainda é o que se chama uma gota de água no oceano. Ou seja, comparativamente a contribuição dos outros sectores para o PIB, os seguros encontram-se aquém daquilo que são as outras realidades. Contudo, existem áreas hoje que para o seu funcionamento um dos requisitos é assegurar que a empresa esteja com as suas apólices em dia, sendo o seguro um elemento mitigador de riscos contra terceiros e não só. Hoje, por exemplo, o Estado e outras instituições ao contratar um serviço exige um seguro de caução como sendo garantia de boa execução, que de alguma forma lhe dá algum conforto que em caso de incumprimento, por parte do empreiteiro, a seguradora tem de alguma forma ressarcir o lesado. Isto acaba por ser um trabalho conjunto do ponto de vista da própria fiscalização. Por outro lado, para os cidadãos vale a pena ter um seguro de automóvel de responsabilidade civil na perspectiva da ocorrência de um acidente estar descansado uma vez que o terceiro será indemnizado. Estas questões nos garantem que o seguro deve ser visto como investimento.

Recentemente a ARSEG orientou algumas seguradoras a aumentar o seu capital. Como está a Protteja Seguros neste quesito?

Se olharmos para os últimos cinco anos, o País tem vindo a enfrentar uma crise onde o Kwanza tem perdido valor de forma muito agressiva, e no caso das empresas de seguros que há cinco anos cumpriram o que está legislado, em termos de capital, como é o exemplo Protteja Seguros, com mil milhões Kz, que na altura equivaliam a 10 milhões USD. Hoje podemos dar conta que mil milhões de Kwanzas vale muito menos e essas questões acabaram por impactar e muito os indicadores das empresas. A desvalorização da moeda e o próprio negócio são as questões que contribuíram para que de alguma forma a Protteja fosse indicada entre as seguradoras que deve fazer o reforço de melhoria dos seus níveis de solvência.

Nesta altura estão em condições de aumentar o seu capital social?

Sim. Recentemente houve uma reunião extraordinária da assembleia dos accionistas, onde o ponto de maior realce foi o aumento do capital. Foi aprovado por unanimidade dos accionistas um aumento de 1,9 mil milhões Kz, que perfaz o capital da Protteja em 2,9 mil milhões. Ficamos satisfeitos porque houve a aceitação dos accionistas e de alguma forma entenderam que devem continuar a investir neste sector estratégico, com a certeza que o mercado vai reagir positivamente nos próximos anos, tornando esta actividade uma das bem mais lucrativas a nível do País.

Que balanço faz da actividade da Protteja Seguros nos últimos meses?

Do ponto de vista do histórico, o exercício de 2020 foi positivo. Vale ressaltar que a Protteja deixou de publicar contas negativas, embora não tenha havido distribuição de dividendos por decisão dos accionistas para abater os exercícios negativos. É de notar que neste momento temos fechado o primeiro semestre de 2021 e do ponto de vista da performance da empresa, já estamos com os mesmos resultados de 2020. Esperamos dobrar a nossa produção até Dezembro.

O mercado nacional conta 23 seguradoras, das quais cinco empresas detêm mais de 70% da quota de mercado. Como olha para a concorrência?

Entendemos que do ponto de vista de quota de mercado o nosso objectivo é estar entre as cinco empresas. Contudo, a curto prazo pensamos estar entre o oitavo ou nono lugar. É um trabalho árduo e devemos fazê-lo trabalhando arduamente, Continuamos a apostar no capital humano como um factor de diferenciação para abordar os nossos clientes, assegurar que os nossos produtos estejam adequados às exigências do cliente e fazer o nosso caminho. Se olharmos para os últimos anos, a Protteja tem vindo a se aproximar entre os maiores players do mercado, o que para nós é muito bom.

A Protteja Seguros tem preferência por quadros nacionais ou estrangeiros?

Se estivermos a falar de um universo de 80 pessoas, em média uma ou duas pessoas são expatriadas. Isso é o que constitui a nata da Protteja Seguros. É mais do que concreto que apostamos nos quadros nacionais, sem qualquer intenção de descorar a mão-de-obra estrangeira. A aposta na formação tem sido o elemento primordial para manter essa política e tem feito o efeito desejado.

Como olha para o canal bancassurance no País como forma de alavancar o sector?

Muitos bancos na praça estão associados a seguradoras, e até mesmo são accionistas e têm feito o negócio via agencias bancarias. Contudo, pelo abrandamento da nossa economia, a comercialização dos créditos tem sido ínfima e isso acaba por ter impacto na comercialização do crédito por via da banca. Seria mais efectivo se os nossos créditos a nível do nosso sector estivessem numa outra dimensão. Ou seja, isso faria com que os bancos ao cederem créditos teriam de associar também os seguros. Não só os seguros dos próprios créditos em si, mas quando de alguma forma estão associados a um bem. Se há alguma contracção da economia acaba por ter implicações nos seguros, e hoje o negócio vindo directamente do canal bancassurance também acaba por ser impactado. Era esperado um “boom” porque os bancos já estão em quase todo o território nacional, mas isso não se verifica porque entendemos que está associado à própria regressão da economia. A Protteja Seguros tem como estratégia para 2022 avançar com a exploração de parcerias com vista a permitir que os seus produtos possam ser vendidos por via dos bancos.

Actualmente, em outras geografias fala-se das insur techs (Startups voltadas ao sector segurador). Acredita que o mercado nacional está preparado para receber essas iniciativas?

Há um caminho que não temos como fugir. O trajecto que a banca fez para chegar onde chegou em Angola, não foi o mesmo que as telecomunicações fizeram e não será o que o sector do seguro irá fazer. Ou seja, o seguro irá se ater às tecnologias para atingir o nível desejado a nível de mercado. É preciso que as empresas comecem a investir nas insur techs porque elas acabam por ser o futuro. As tecnologias e colocar os seguros por cima é a forma mais rápida de atingirmos maiores níveis de penetração, embora seja importante os canais presenciais, mas não são estratégicos. A Protteja pensa em abrir pontos presenciais, e entendemos que do ponto de vista cultural é preciso fazer essa ponte. Mas para assegurar o crescimento esperado, segundo aquilo que são as necessidades do mercado com viabilidade económica, devemos obviamente fazer investimentos a nível das tecnologias.

Como olha para economia nacional?

Enquanto estivermos em recessão económica, por força dos nossos maiores indicadores, tal é a volatilidade do preço do barril petróleo associado as questões ligadas a COVID-19, os seguros não serão uma excepção. Quanto maior performance tiver a nossa economia, maior será a disposição das empresas e como consequência o benefício das famílias. Além dos factores económicos, o sector dos seguros tem verificado alterações a nível da AGT, que fez mudanças profundas e obrigou o sector a fazer um processo de adaptação. Por outro lado, estamos a ensaiar o próprio regulador, que ficou bastante tempo sem fazer algumas actualizações e neste momento verifica-se uma dinamizar do sector existe alguma pressão. Portanto, focar no negócio implica não deixar de parte estes componentes que fazem parte de um trabalho árduo. Por isso, as empresas que conseguirem passar por esse período vão tornar-se resilientes e nos melhores momentos poderão colher os frutos face a todo esforço que está a ser feito.