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“É necessário que as lideranças das empresas passem a considerar a manutenção e gestão de activos como um investimento”

O presidente da Associação Angolana de Manutenção e Gestão de Activos (AAMGA) diz que a ausência de manutenção dos activos acarreta elevadas perdas resultantes das paragens das operações e nos resultados financeiros das empresas. Um dos desafios apontados pelo também vice-presidente da Prodoil, no capítulo da manutenção e gestão de activos, é a formação e qualificação do capital humano e a adopção de normas técnicas .

Luanda /
13 Jun 2022 / 10:09 H.

Quais tipos de empresas fazem parte da AAMGA, numa altura em que a organização completa neste mês de Junho nove anos de existência?

A AAMGA é uma associação sem fins lucrativos, constituída desde 18 de Junho de 2013 e registada junto do Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos. Esta associação congrega os associados que são empresas comerciais e instituições que prestem ou que sejam clientes de prestadores de serviços de manutenção industrial e gestão de activos, para além de técnicos superiores e médios que atuam nesse mesmo segmento. No tocante aos activos, a AAMGA destaca os activos físicos, tais como os equipamentos existentes nas organizações Industriais (máquinas de produção, caldeiras, compressores, postos de transformação, geradores, sistemas de tratamento e bombagem de águas, elevadores, sistemas de AVAC, sistemas de automação, robôs, depósitos de combustível, depósitos de água, tractores, empilhadores, aviões, barcos de transporte de pessoal, barcos de apoio ao sector petrolífero, (edifícios industriais, edifícios comerciais, edifícios residenciais, pontes, viadutos, redes viárias), etc.

Que balanço faz da organização durante este período?

Podemos considerar que o balanço é positivo, pois tem crescido a adesão a nossa Associação com a entrada de novos associados. Destacamos que as contribuições dos associados constituem a única fonte de receitas da associação e que tem servido para suportar as despesas de funcionamento da mesma ao longo de cada ano, realizando acções de sensibilização e de formação dos nossos membros. A AAMGA realiza nos anos pares o Congresso Anual de Manutenção e nos anos ímpares, as Jornadas Técnicas de Manutenção.

Qual é o número de associados que a AAMGA detém e como estão classificados?

Presentemente a AAMGA tem 80 associados, sendo 30 associados colectivos (empresas e instituições) e 50 associados individuais. O processo de adesão é voluntário e cada associado paga uma jóia de admissão e posteriormente a quota anual.

Está satisfeito com este número em função da quantidade de empresas e indústrias que o País tem?

Consideramos que o nosso número de associados ainda não é o mais adequado, dado o número de empresas existentes nos vários segmentos industriais. A AAMGA tem no seu plano de 2022, o lançamento de uma campanha de angariação de novos sócios, para além de levarmos as actividades da associação nas demais províncias do País. Prevemos também angariar estudantes universitários dos vários segmentos de engenharia para torna-los associados estudantes, com uma quota especial para promover a integração dos mesmos nos segmentos da manutenção e gestão de activos.

Entre as empresas associadas, qual é o sector com maior presença na AAMGA?

Não existe um sector dominante, mas iniciamos em 2013 com várias empresas, com destaque para a construção civil, indústria petrolífera, telecomunicações, educação e transformação de madeira. Continuamos a ter uma adesão de novos membros, mas podemos dizer que é o segmento industrial que será predominante na nossa associação, dadas as características dos activos que possuem.

Em Angola há muitas empresas que não levam em conta a manutenção e gestão de activos?

Relativamente a esta questão, a AAMGA identificou isso como uma enorme deficiência na gestão das empresas angolanas, ou seja, a gestão de topo dessas empresas está focada na realização de investimentos através da compra de activos mas há uma falta gritante do conhecimento das actividades de manutenção. As razões identificadas pela AAMGA são nomeadamente a ausência de conhecimento técnico, falta de pessoal qualificado de manutenção, exclusão das despesas de manutenção, falta de implementação de normas técnicas associadas à manutenção e gestão de activos.

Quais são os objectivos da AAAMGA?

A AAMGA tem três objectivos principais que são contribuir para a consciencialização da importância das funções da manutenção e gestão de activos físicos, fomentar a divulgação das técnicas da manutenção e gestão de activos físicos e promover e apoiar o intercâmbio entre pessoas singulares ou colectivas no sentido de desenvolver a tecnologia, métodos e outras áreas de manutenção e gestão de activos físicos.

Que consequências a falta de manutenção e gestão de activos podem trazer para a indústria e para a economia?

A falta ou ausência de manutenção dos activos de uma empresa ou ainda infra-estrutura pública ou privada provoca a degradação rápida desse activo, para além de reduzir a disponibilidade do activo no desempenho da função para a qual foi adquirido. Aqui, podemos apresentar como exemplos, as gruas de movimentação de contentores nos vários portos de Angola, bem como nas bases industriais petrolíferas, uma vez que estes equipamentos são chaves para as operações portuárias. Deste modo, podemos dizer, sem receio de errar, que a ausência de manutenção dos activos acarretará elevadas perdas resultantes das paragens das operações e mais tarde nos resultados financeiros das empresas. É recomendado que as empresas disponham de uma entidade organizacional responsável pela manutenção e gestão de activos dotada de pessoal qualificado e de orçamento para realizar os investimentos em novos equipamentos, se for o caso, ou na aquisição de peças sobressalentes dos equipamentos existentes.

Como acha que deve ser a planificação da gestão e manutenção de activos?

As actividades da manutenção e gestão de activos devem ser devidamente planeadas numa dada organização de modo a evitar as paragens não programadas dos equipamentos. Necessitam como qualquer outra actividade da disponibilização de recursos (humanos e financeiros) para o cumprimento das suas responsabilidades. As empresas devem no seu planeamento anual incorporar os investimentos em novos equipamentos, que podem ser de substituição, bem como as despesas de manutenção nos custos operacionais.

Além do custo, o País tem capital humano qualificado e suficiente para atender as necessidades de gestão e manutenção de activos das indústrias?

Relativamente ao capital humano, hoje, dispomos no País de várias Escolas Técnicas, Institutos Politécnicos, bem como Universidades que formam técnicos nos vários níveis para as funções da manutenção e engenharia de manutenção. É necessário que as lideranças das empresas passem a considerar a manutenção e gestão de activos como um investimento ao contrário das ideias de custos. Pois, só com esta mudança de paradigma é que veremos melhores resultados operacionais nas empresas.

A indústria petrolífera apresenta-se com grandes investimentos em activos para operacionalização da sua actividade. Como olha para o sector neste quesito?

A indústria petrolífera em Angola tem bons exemplos da gestão da engenharia da manutenção, onde de uma maneira geral é terceirizada, isto é, executada por prestadores externos de serviços de engenharia da manutenção de modo a garantir uma taxa de disponibilidade dos equipamentos igual ou superior a 98%. Tratando-se de um sector de capital intensivo, a gestão da manutenção participa desde a fase de engenharia até ao início das operações com a presença dos seus especialistas nas equipas de projecto. No caso das plataformas de produção e FPSO são organizadas paragens planeadas da produção para a realização das grandes intervenções de manutenção tal como acontece na Refinaria de Luanda, por exemplo. De um modo geral, estas paragens são programadas de cinco em cinco anos. Neste sector, a engenharia de manutenção é uma função bastante complexa mas também assegura a prevenção de acidentes, bem como paragens não programadas que podem causar elevadas perdas de produção.

No seu entender, quais os principais desafios do País no capítulo da manutenção e gestão de activos?

Os principais desafios em Angola no capítulo da manutenção e gestão de activos são quatro, nomeadamente, a formação e qualificação do capital humano, adopção das melhores práticas, como as que estão incluídas na norma na iso 55001, sobre gestão de activos, o desenvolvimento, a publicação e a adopção de normas técnicas angolanas de manutenção. O terceiro desafio é a transformação da actividade para se adaptarem às evoluções das tecnologias digitais e aos requisitos de sustentabilidade, com principal incidência na economia circular. Por último, uma maior participação das empresas na AAMGA.

Em relação a outros países, sobretudo africanos, como está Angola no quesito da manutenção e gestão de activos?

Há ainda um caminho longo a percorrer até podermos ombrear com os países e as organizações mais experientes. A AAMGA é uma organização nova que completará nove anos de existência no próximo dia 18 de Junho de 2022. Temos associações congéneres com mais de 30 anos de existência, daí a razão pela qual, estamos a celebrar parcerias internacionais. Presentemente possuímos uma parceria internacional com a APMI, Associação Portuguesa de Manutenção Industrial. Tem sido através desta parceria que permite que os engenheiros angolanos possam partilhar a experiência da AAMGA nos congressos da APMI e vice-versa. O País está a procurar alterar a sua atitude perante a manutenção e gestão de activos, evoluindo da tradicional reactividade, quando há uma avaria, para a prevenção e proactividade, que permita evitar as avarias, garantindo a disponibilidade e prolongando o ciclo de vida dos activos físicos a custos optimizados.

E qual tem sido o contributo da AAMGA no sentido de reverter este quadro?

A AAMGA desde a sua fundação tem promovido acções de formação e actualização científica e tecnológica no âmbito da manutenção e gestão de activos físicos, criando centros de documentação para consulta dos seus membros. Tem editado publicações para a divulgação de estudos e trabalhos sobre manutenção e gestão de activos físicos e tem diligenciado para que seja estabelecida legislação, regulamentação e normalização eficiente e eficaz sobre a matéria. Tem ainda promovido uma interacção com os vários parceiros em Angola, tendo celebrado acordos de parceria com o ISPTEC, CINFOTEC, Faculdade de Engenharia da UAN e presentemente estão a interagir com a SDZEE, PIV e PDIC. Adicionalmente celebrou e dinamizou parcerias com entidades internacionais, como a APMI, Associação Portuguesa de Manutenção Industrial, a APFM, Associação Portuguesa de Facility Management e a APSEI, Associação Portuguesa de Segurança, que têm permitido um intercâmbio de conhecimentos, experiências e contactos.

Quais projectos a AAMGA tem em carteira para os próximos anos?

A AAMGA tem no seu plano de trabalhos a contínua divulgação da associação, o recrutamento de novos associados, realização de webinars, realização de acções de formação, realização de workshops, realização de jornadas técnicas e congressos para partilhar as melhores práticas de manutenção e gestão de activos. Prevemos nos anos de 2022 e 2023 desenvolver parcerias com as associações congéneres da África do Sul, a SAAMA- Southern Africa Asset Management Association e a ABRAMAN- Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Activos. Pretendemos também alargar a nossa presença através dos nossos associados junto dos pólos industriais, nomeadamente em Luanda junto da Zona Económica Especial (ZEE) Polo Industrial de Viana (PIV) e na província de Benguela no Pólo de Desenvolvimento Industrial da Catumbela (PDIC). Neste ano de 2022, prevemos realizar o 4º Congresso Nacional da Manutenção e Gestão de Activos nos dias 16 e 17 de Novembro de 2022 em Luanda.

Como olha para o processo de privatização das participações e Activos do Estado?

O processo de privatização dos activos do Estado é uma excelente decisão do actual Executivo, de modo que este possa focar-se nos seis pilares chaves do desenvolvimento de Angola, como: agricultura (atingir a auto-suficiência alimentar até 2030), educação (a criança passa o dia na escola), saúde, infra-estruturas terrestres e marítimas, indústria transformadora, tecnologias de Informação (oportunidade para os jovens de realizar formação superior em TI junto de parceiros estratégicos como a Índia, Japão, Coreia do Sul, para mais tarde criarmos os nossos Centros de Desenvolvimento de TI, onde poderemos criar produtos para o nosso mercado e mercado exterior). É expectativa da AAMGA que os activos privatizados sejam capazes de criar mais empregos, garantir uma melhor oferta de produtos e serviços, serem sustentáveis e rentáveis para os novos accionistas e criar valor para todas as partes interessadas.

Acredita que o privado vai gerir melhor?

As práticas de gestão provam que o sector privado gere melhor que o Estado. No entanto, o Estado também pode adoptar as melhores práticas de gestão para gerir os seus activos de que a população necessita, tais como os serviços de saúde, electricidade, água, transporte, etc.

Angola completou 20 anos de paz este recentemente, como avalia a economia nacional e o processo de industrialização do País?

Os 20 anos de paz foram importantes para a consolidação da unidade nacional e consequentemente o relançamento das bases para a industrialização do País. É necessário prosseguir com o esforço da industrialização do País e como vemos nos seis pilares chave, vamos precisar de melhorar as infra-estruturas terrestres (estradas, portos, electricidade,...) para que essa industrialização possa ocorrer de forma estruturada, sustentável e competitiva. Daí o primeiro vector: a agricultura como fonte de produção das matérias-primas para abastecer a indústria nacional. A manutenção e gestão de activos deverá assumir um papel determinante na gestão do ciclo de vida dos activos físicos, assegurando que estes desempenham as funções para as quais foram adquiridos e instalados, o que cria condições para a obtenção da rentabilidade esperada dos investimentos realizados.