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Carlos Basto: “A banca tem que se preparar para dar mais crédito à economia”

Lidera há um ano a EY Angola, mas conhece o País há quase duas décadas e sente haver agora mais vontade de atracção de investimento. No dia em que a companhia lança a primeira de quatro conferências - a de hoje, num hotel em Luanda, sobre oil & gas -, defende uma banca mais forte... e menos Estado-dependente.

Luanda /
17 Mar 2019 / 11:00 H.

Como tem acompanhado as mudanças registadas desde a posse do novo Governo?

Está a criar-se uma nova era, ou pelo menos há uma vontade diferente, objectivos estratégicos para mudar o País, que estava numa crise grande, super-dependente do petróleo.

É mais do que uma mudança no estilo de governar?

Sim, há um conjunto de ideias novas, uma abertura crescente ao investimento estrangeiro e uma aposta na transparência – o que é essencial. Esta vontade de tornar um País mais apetecível para investir marca a diferença. Os portefólios de investimento existem, mas só vão para onde entendem, pois há muitos sítios para investir. Angola tem que saber ‘vender-se’ para captar esses fluxos. O trabalho de diplomacia económica está a ser muito mais alargado.

Que novidades mais relevantes destaca no último ano?

Desde logo a nova Lei do Investimento Privado (LIP) . Podia ser melhor, mas as leis podem sempre ser melhores...

Melhor que a anterior?

Decididamente, essa não estava a atrair investimento. Acredito que a nova estará melhor. Não podemos descurar que o discurso deste Executivo é no sentido da diversificação da economia, da melhoria do ambiente de negócios. Há também melhorias na organização do sector petrolífero, no sentido da transparência, para atrair investimento que também aqui é necessário.

Quais os sectores onde a mais curto prazo pode ser captado investimento?

Para além do petrolífero, claramente a agricultura e a indústria transformadora.

Têm sido procurados por investidores interessados nestes sectores?

Nota-se uma pequena mudança, ainda que não possa dizer já que seja decisiva. Há investidores que vêm ter connosco para se aconselharem.

De que geografias?

Das mais variadas, desde as tradicionais, como a China, EUA, ou Portugal, mas também alguma Europa.

Portugal tende a perder peso como investidor no País?

Acho que há espaço de crescimento para todos. O importante é haver uma contribuição transversal de várias geografias para que Angola possa ser um país diferente amanhã.

As preocupações dos investidores hoje são diferentes das do passado?

Não são ainda muito diferentes, eles estão é agora a tentar perceber se as mudanças são reais. Claramente a forma como se faz negócio em Angola tem que melhorar. Não fazia sentido levar meses, às vezes anos, para abrir uma sociedade. Começa a haver um sentimento de mudança, mas não se consegue fazer tudo ao mesmo tempo, há muitos eixos para atacar.

Quais os prioritários?

Há quatro temas, sobre os quais aliás vamos organizar um ciclo de conferências este ano: oil & gas, melhoria do ambiente de negócios e atractividade do investimento, desenvolvimento de infra-estruturas e capacitação do capital humano - talvez a lacuna mais difícil de ultrapassar, porque demora gerações. Mas há um esforço, visível no Orçamento Geral do Estado, neste caso, como na Saúde. Tem que haver mais gente no sistema de ensino, mas é importante a qualidade. Houve uma proliferação de universidades, mas terão a qualidade adequada?

Têm?

É um tema importante, não há uma monitorização de que cumpram com os requisitos mínimos de qualidade.

Quantas pessoas estão na EY Angola?

Temos uma equipa com 150 permanentes, onde mais de 70% são nacionais.

Onde recrutam os nacionais?

A universidades angolanas e temos angolanos que estudaram lá fora também.

Quais as principais dificuldades que sentem nos jovens que estudaram cá?

Não é muito diferente do que há noutras geografias: há uma distância entre o que se estuda e o que se faz no mundo do trabalho, e nota-se algumas lacunas na qualidade. Estamos a renegociar protocolos que temos com a Agostinho Neto e a Católica de Angola, com o objectivo de não apenas escolher os melhores e acompanhá-los do início ao fim, mas também começar a ensiná-los antes de acabarem os cursos.

Têm nacionais em lugares de chefia?

Ainda não os que queríamos, mas já temos uma antecâmara daqueles que queremos que sejam os nossos executivos amanhã. Noutras geografias africanas já temos sócios nos nossos escritórios.

A fiscalidade angolana é mais ou menos interessante para o investimento do que a de outros países da região?

Não é das mais atractivas, está a trabalhar-se para melhorar.

Os impostos são mais altos?

Há vários aspectos: pautas aduaneiras, impostos que nalgumas áreas são mais difíceis, a entrada de empresas cá é difícil, mas temos que ver tudo isto integrado na questão geral do ambiente de negócios. Há um conjunto de áreas que podem melhorar.

Onde tem visto melhorias?

Na nova LIP, por exemplo, estão previstos benefícios. Mas ainda há muita informalidade na economia. Vem aí o IVA [1 de Julho] , que teoricamente é – e tem sido, quando bem aplicado – uma boa medida.

Os vossos clientes falam disso?

É um tema que os preocupa, claro. A lei diz que só entram já os grandes contribuintes, mas por vezes pode não ser bom que os outros – que podem entrar mais tarde - não entrem também, e temos falado com clientes sobre isso. Não entrar já pode ter custos depois. O IVA traz desafios novos.

Quais?

Desde logo, é preciso ter um back office, pessoas, tecnologias muito bem preparados, processos montados para saberem se vão pagar, ou receber, e neste caso quando vão receber.

Também é um desafio para a administração fiscal...

A possibilidade de haver reembolso é um desafio, é estar a pôr dinheiro do Estado nas mãos de empresas. Para o fazermos, temos que ter a certeza de que estamos a fazer bem. Houve casos noutros países africanos em que o IVA deu prejuízo, porque não se controlou. Logo, tem que haver um sistema muito bem montado, igual ou melhor ao das empresas para se saber se se está a apurar correctamente, a devolver a quem deve receber. Mas Angola está a aprender com outros países.

A carga fiscal sobre as empresas é maior à de outros países da região?

Nuns casos sim, noutros não.

Os empresários dizem que a carga fiscal é excessiva...

Muitas vezes a carga fiscal tem que ser diminuída, mas há aqui o outro lado da moeda, que é a necessidade de receita. É um equilíbrio muito difícil de encontrar, até porque Angola está ainda numa crise e tem uma dívida pública grande.

Como se faz?

Com crescimento, atraindo investimento, alargando a base tributária para se ter mais receitas sem subir impostos.

Como olha para o processo de privatizações?

Temos acompanhado com as instituições próximas e falado com clientes interessados.

Interessados em vender ou comprar?

Como calcula, há o tema da confidencialidade, mas temos sido procurados para saber o que está disponível, e temos trabalhado com instituições envolvidas para saber como podemos apoiar, mas o que está a acontecer - sete empresas – ainda é pequeno. O desafio é demonstrar que o que se quer privatizar é apetecível.

Para além destas sete primeiras empresas a privatizar, há mais umas dezenas na mesma zona, mas muitas estão inactivas. Como é que se privatiza uma empresa que está inactiva?

É um desafio, tem que se fazer um business case bem claro para mostrar que tem interesse. Tem que se criar condições, ver a lógica fiscal, etc..

Há anos que o Executivo anuncia o lançamento da bolsa para o ano seguinte...

É um trabalho que exige a criação de condições. A dinâmica das privatizações pode ajudar, mas é um processo que vai levar tempo, as empresas também têm que ser preparadas, os investidores exigem transparência.

E também exigem poder tirar os dividendos ou mais valias. Os vossos clientes estrangeiros estão a ter mais facilidade em retirar

capitais de Angola?

Estamos numa fase embrionária do que se quer mudar. Mas sem essa perspectiva os investidores não vão pôr ca dinheiro, e essa é que é a questão. São perguntas que nos fazem todos os dias.

Como olha para a sofisticação de serviços da banca?

Há todo um caminho a percorrer, mas há bancos que já têm isso em conta, que sabem bem o que querem para darem ‘saltos quânticos’ e se posicionarem.

Que dificuldades sentem?

O problema, muitas vezes, é o legado, e o próprio sector vive uma crise grande. Mas noto, em alguns bancos, que a dimensão da sofisticação está lá.

Dependem muito da dívida pública. Como acabar com este ‘vício’ e pôr os bancos a darem mais crédito?

É preciso dar-lhes condições para isso.

E quem tem que dar?

Eles próprios têm que se preparar, e a regulamentação que o Estado faz também tem que ter isso em conta. Este caminho tem que ser feito, senão será difícil fazer esta jornada de transformação do País. Sem crédito, os empresários e empreendedores de amanhã não terão capacidade de pôr os projectos em acção. E depois, os bancos têm que ter uma visão estratégica bem estabelecida, bons processos, automatizados, para captarem confiança.

No sector segurador onde vê margem para melhorar?

Há um conjunto de áreas para alargar, desde logo, na agricultura, onde investir é um risco. Noutros países de África e até no Brasil há apoios – por exemplo, subsídios - dos governos para ajudar este seguro.

Não há seguradoras a mais?

É difícil responder. Se têm uma estratégia bem definida, se a estão a executar, e se são rentáveis, não há. A análise deve ser esta.

Há negócio para todas?

Há é espaço para crescer no negócio segurador.

Tem havido mais exigência do regulador dos bancos do que do dos seguros. Admite que a pressão sobre as seguradoras cresça?

É um caminho natural. A banca, tipicamente, é sempre vanguardista em processos de transformação e mudança, mas sei que há vontade, da parte da ARSEG nesse sentido.

As contas das grandes empresas têm sempre reservas de auditores como vocês e outros. As empresas reagem às reservas melhorando, ou os problemas são sempre os mesmos?

Há de tudo, mas creio que há uma preocupação crescente.

Não vos pedem “tire lá essa reserva”?

Mesmo que pedissem... mas não! Nós trabalhamos para a transparência da economia.