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“Angola tem muitos minerais mas precisa manter o investimento para facilitar a sua estratégia de diversificação económica”

Miguel Artacho fala dos ganhos da conferência “Angola Oil & Gas” realizada, recentemente, em Luanda e aponta como sendo uma plataforma criada para facilitar o investimento no sector energético e a interconexão de África. Para o director das conferências internacionais da empresa Pan-Africana com sede em Cape Town, é importante que os países africanos encontrem

Luanda /
06 Dez 2022 / 15:00 H.

A Energy Capital & Power apresenta-se como a principal plataforma de investimento do continente africano para o sector energético. Porquê o interesse em Angola?

Porque Angola é por agora o principal produtor de petróleo de África, ultrapassando a Nigéria, e é um mercado estratégico e com muita experiência. Desde 1955 que Angola tem uma indústria muito importante.

A Energy Capital & Power é responsável por organizar a conferência Angola Oil and Gas

A primeira edição do Angola Oil & Gas foi em 2019, e agora organizou-se a terceira. Esta edição é muito importante devido ao contexto mundial de crise energética causado, entre outros factores, por questões geopolíticas, e também, por se realizar num período pós- eleições em Angola. Há uma oportunidade para a apresentação dos planos do novo Executivo. Portanto, temos muitos factores importantes a considerar nesta edição.

Além da conferência oil and gas, que outras conferências têm realizado?

: Nós organizamos recentemente em Dakar, Senegal, a MSGBC oil, Gas & Power 2022, que é uma conferência regional da MSGBC que engloba a Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Guiné Conacri e Guiné Bissau. De realçar que a Mauritânia e Senegal são novos produtores de gás, tiveram uma descoberta muito importante e em 2023 vão começar uma produção importante de gás natural, um dos maiores projectos LNG na África Subsariana. Também organizamos o South Sudan Oil & Power 2022 que já vai na quinta edição. O nosso parceiro, African Energy Chamber realizou em Novembro a segunda edição da Africa Energy Week em Cape Town (África do Sul) que também é uma conferência pan-africana onde tivemos a oportunidade de receber o secretário-geral da OPEP, muitos ministros da região e empresas do sector energético internacionais, tanto africanas, americanas e de outras regiões.

Promover uma indústria de petróleo e gás inclusiva, atractiva e inovadora em Angola é lema da terceira edição. Quais foram os principais pontos abordados durante a conferência?

Durante a conferência Angola Oil & Gas 2022 muitos temas foram abordados, um dos mais importantes foi olhar para o que se pode fazer para continuar a trazer investimentos no sector energético em Angola. Essa é a única maneira para aumentar a produção de petróleo e não permitir que a mesma não decresça demasiadamente. Angola tem muitos minerais, muito petróleo, mas precisa manter o investimento para facilitar a sua estratégia de diversificação económica para outros sectores que também têm muito potencial, como é o caso da agricultura, telecomunicações, banca e finanças e transportes. Todos os sectores precisam de investimento, inclusive um sector energético forte que também gera muitas receitas e permita que a economia angolana seja mais forte e mais diversificada.

Durante a conferência os ministros dos petróleos de diferentes países discutiram a questão da interconexão de África. Como é olha para este quesito?

Acredito que foi um dos temas mais importantes discutido durante a conferência, e constitui uma das principais ideias das nossas conferências, que consiste em criar uma plataforma para permitir discussões regionais, porque o objectivo não é fazer uma competição ou discutir quem é o maior produtor. Portanto, é importante que os países africanos produtores de energia encontrem sinergias, uma maneira de trabalhar juntos para benefício mútuo.

A transição energética é um dos temas que tem marcado a actualidade. Qual é a vossa visão relativamente a esta questão?

A transição energética é, sem dúvidas, muito importante, mas a visão da Energy Capital and Power em África, é que este processo tem de ser de um ponto de vista africano, não pode ser uma decisão forçada pelo exterior, ou os dos que decidem esta matéria, como os Estados Unidos, Reino Unido e outros os países europeus. África precisa de energia para o desenvolvimento económico, tem mais de 600 milhões de pessoas no continente sem acesso a energia, e isto é um problema incrivelmente grande que deve ser considerado. É claro que, tem de se proteger o meio ambiente e evitar o aquecimento global, mas tem que ser equilibrado. Por isso, nós falamos de transição energética “equitável e sustentável”. Nota que África é responsável unicamente por 3% das emissões gás CO2.

Ainda assim, muitos países avançam com esta questão que é de todo pertinente...

É sem dúvidas um tema pertinente. Por exemplo, em Angola, empresas como a Sonangol, ou uma outra empresa, além da produção de petróleo, estão a investigar e a investir em projectos interessantes com outros tipos de energias, como pode ser o caso do hidrogénio ou planos de energias fotovoltaicas. Um país como Angola que tem muitas reservas de petróleo e gás, não necessariamente, quer dizer que não esteja interessada na transição energética a médio e longo prazo, mas é importante fazer uma distinção entre o que se pode fazer em 3, 5 e 10 anos. A transição energética tem de ser faseada e equitativa.

De acordo com o relatório World Oil Outlook 2022-2045 da OPEP, a procura por petróleo e seus derivados está e vai continuar a aumentar nos próximos anos, já que as energias renováveis tardam a afirmar-se entre as principais fontes de energia consumidas no mundo. O que tem a dizer?

Eu concordo plenamente com a OPEP. Não tenho nada contra as energias renováveis, pelo contrário, é um sector que me parece muito interessante e importante, mas a transição energética não é para amanhã, não vai acontecer dentro de 2 ou 3 anos, é um processo que poderá acontecer dentro de 20 , 25 a 40 anos, porque actualmente as energias fotovoltaica, eólica e hidrogena ainda não são suficientes para atender as necessidades de energia de um País como Angola ou do continente africano, até mesmo dos Estados Unidos. Tem de haver um “mix energético”.

Como olha para o sector petrolífero angolano?

É um momento muito interessante para o sector petrolífero angolano, acredito que durante 2023 e 2024 os preços vão continuar elevados. É uma boa oportunidade para Angola, porque se a produção e os preços estiverem elevados, o País consegue utilizar esse dinheiro para fazer investimentos noutras áreas da economia, como em infra-estruturas e também é uma boa oportunidade para fazer investimentos em energias renováveis para fazer esta transição energética a médio e longo prazo.

Apesar do aumento das receitas, a produção tem estado a cair. Recentemente, a consultora Fich soluções apontou que a produção de petróleo em Angola vai cair 20% até 2023. O que Angola deve fazer para inverter este cenário?

A única forma de manter e aumentar a produção é trazer (investimento) e continuar sempre com programas de pesquisas de exploração e produção. Sem isso, não é possível encontrar petróleo, nem gás natural. Durante o evento, o secretário-geral da OPEP e o ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás de Angola, Diamantino de Azevedo, partilharam da mesma visão, que o investimento é importante. E este é o principal objectivo destas conferências, que consistem em criar uma plataforma para facilitar o investimento no sector energético.

Outra variável, é o preço do petróleo que tem se mostrado muito volátil, atingindo os 140 USD e agora está abaixo de 85 USD. Como olha para o cenário intencional?

Sinceramente, previsões sobre o preço do petróleo é uma coisa difícil, geralmente errada. Depende de muitos factores, desde económico, geopolítico, e outros elementos que podem fazer flutuar muito o preço do petróleo, mas em termos gerais, a demanda é grande, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia continua. Portanto, os preços vão continuar nesta ordem, podendo subir e descer. Acredito que o sector petrolífero em Angola vai continuar a desenvolver.

Quais são os próximos desafios do sector petrolífero angolano?

O desafio é continuar a trazer investimentos. No caso de Angola, tem muitas coisas que nos últimos anos, a partir da criação da ANPG em 2018, foram muito positivas para facilitar um quadro de regulação e um clima de investimento que é favorável. Isso é uma grande oportunidade mais do que um desafio para o sector energético angolano. O que pode ser possivelmente um desafio é terminar bem os projectos importantes que começaram a fazer, como a refinaria de Cabinda, o financiamento da refinaria de Lobito, que são projectos no sector downstream mas que são muito importantes. Estes novos projectos de refinarias vão permitir que ao invés de importar gasolina, se produza internamente, uma vez que não tem sentido um País que tem tanto petróleo como Angola estar a importar estes derivados de petróleo. Acredito que seja este o um dos grandes desafios, finalizar essas refinarias que vai ter um impacto importante para o povo angolano.