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Angola nada recebeu dos 20 mil milhões USD do fundo africano de capital de risco

O CEO da BFA Gestão de Activos, Rui Oliveira, que foi moderador no último encontro da Associação Africana de Equidade e Capital de Risco, disse que nos últimos cinco anos cerca 20 mil milhões USD foram alocados para fundos de capitais de risco de muitos membros dessa Associação regional e Angola recebeu zero deste capital.

Luanda /
09 Ago 2021 / 09:11 H.

Os estudos da Comissão do Mercado de Capitais (CMC) revelam que o mercado tem O crescido desde 2015. O que falta para termos uma praça financeira forte à semelhança de outros países?

Se estivermos a fazer uma comparação com os mercados mais maduros, temos de ver que mercados são esses, ou seja, se eu estiver a me comparar com um mercado anglo-saxónico, seja ele na América ou no Reino Unido, certamente ainda temos um caminho muito longo a percorrer. Talvez, devemos olhar mais para dentro da região e nos perguntarmos se de facto, somos competitivos a nível da região. E se for essa pergunta eu diria que sim, temos um caminho, mas já progredimos muito bem. Portanto, o mercado secundário está a se formar e a fomentar. Finalmente já temos uma curva de rentabilidade a ser formada como deve ser, já tem o surgimento de outras entidades no mercado, como nós, a BFA GA, e portanto, eu acho que todos esses pontos, se tivermos que olhar nos últimos 5 anos já temos aqui algum progresso. Mas sem dúvidas que há ainda um caminho longo para percorrer.

Apesar deste crescimento em volume e em número de operadores, se verifica que muitos investimentos estão concentrados nos títulos do tesouro. Porque é que os investidores ainda preferem investir em títulos de dívida pública?

Eu acho que isso tem a ver com a curva de aprendizagem, essa curva passa por todos nós, enquanto players do mercado e os próprios investidores enquanto consumidores dos nossos produtos. Há aqui a discussão de quem é que deve provocar essa mudança, se virá do lado da demanda, ou seja, se serão os nossos clientes que vão mudar o seu mind set, de procura de novas coisas e chegar até nós e dizerem-nos que já não querem esse tipo de produto, isso faz com que nós encontremos novas soluções, ou ao contrário, sermos nós a provocar também uma disrupção desta situação. Segundo, tem a ver também com algumas condições macroeconómicas. Enquanto tivermos títulos da dívida pública de médio prazo com taxas muito boas, e de facto nós temos. Por exemplo, nos nossos fundos, conseguimos ainda em 2019 e 2020, ter fundos com uma rentabilidade acima dos 18%. É sem dúvida mais difícil encontrar rentabilidades tão altas em tão curto prazo em títulos mais arriscados. E talvez o que deverá mudar nos próximos tempos terá de ser o mind set, ou seja, do lado de nós enquanto fornecedores e do consumidor.

Acha que falta alguma informação e formação aos investidores para aderirem a outros produtos?

Sim, o que vai determinar é a curva de aprendizagem, que é a formação, internamente nas nossas instituições devemos apostar muito na formação para capacitação dos nossos técnicos e permitir que as nossas equipas nos desafiem também. Depois as nossas equipas acabam por desafiarem os próprios clientes. A formação é importantíssima para todos nós, se internamente criarmos essa cultura, certamente também passamos aos clientes. A necessidade de formar e informar os nossos clientes exige, de facto, alternativas. Há um outro ponto, que é o mercado internacional, portanto, os não residentes cambiais também são um ponto fulcral nisto, se olharmos para todos os outros mercados, o movimento acontece quando existe massa crítica, ou se também existir um mercado mais globalizado, certamente. que provoca uma disrupção no mercado local.

Porquê os fundos em Angola não compram participações em start-ups, dinamizam e vendem, assim estariam a diversificar a carteira de investimento?

As start ups são um negócio relativamente novo em muitas partes do mundo, e para Angola não é diferente. Eu acho que a questão do mundo das start ups tem muito a ver de como nós próprios enquanto investidores e alocadores de capital percebermos como é que essa indústria funciona. Acredito que nos próximos tempos não haverá grandes movimentos em termos de investimento para as start ups, o que poderá surgir são algumas opções, seja para três ou quatro start ups, mas acho que não haverá um “boom” nos próximos cinco anos, mas acredito que, de facto, vão passar a surgir algumas parcerias com casas de investimentos e esses fundadores das sturt ups. Os investimentos de capital de risco, nos lugares mais maduros, como é o caso dos Estados Unidos da América também se desenvolveram muito rápido “ O ecossistema em Angola ainda tem de existir, não é só uma questão de haver capital disponível, mas também tem de haver a questão da legislação porque houve uma vontade muito forte de o Estado de estar presente. O ecossistema em Angola ainda tem de existir, não é só uma questão de haver capital disponível, mas também tem de haver a questão da legislação, a nível do mercado de capital e de legislação na formação dessas sociedades e outros stake holders a volta desse ecossistema. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos tempos, nós BFA GA temos muito interesse em estar próximos desses fundadores de projetos e saber como as coisas podem andar.

O relatório e contas da BFA GA revela que em 2020 os lucros mais do que duplicaram, ao crescer cerca de 169%. O que esteve na base desse crescimento?

O ano de 2020 foi um ano atípico para todos. O que realmente foi muito interessante é o facto de conseguirmos forçar a nossa máquina a apresentar propostas que fossem apelativas para os nossos clientes. Decidimos ter um posicionamento contracíclico, percebemos que numa altura dessas os investidores estariam com maior disponibilidade. A estratégia foi estarmos lá, na frente dos clientes que até hoje têm confiado na nossa capacidade de podê-los servir. Tivemos dois fundos de investimentos que foram muito bem-sucedidos, como o BFA protecção. Foi muito importante para o banco, porque percebemos até onde vai o nosso limite enquanto equipa, mesmo com todas as necessidades que passamos, desde a tecnologia, a necessidade de poder trabalhar remotamente, mas conseguimos, 2021 não vai ser diferente.

O relatório também aponta que a BFA GA tem uma quota de mercado de 61% das OICs em valores mobiliários. Como olha para a competitividade neste mercado?

Eu fico feliz ao ver que o mercado está a se tornar mais forte. Maior competitividade para nós é melhor, porque acaba por nos forçar a sair da zona de conforto. Se não tivermos essa concorrência, vamos sempre estar na zona de conforto e vai depender muito da nossa vontade de fazer coisas novas, mas também se não há quem nos oforce a fazer algumas mudanças, dificilmente faremos. Portanto, eu e a minha equipa abraçamos a concorrência e queremos que tenha mais, porque nos ajuda a crescer. No fim é para um bem maior, e esse bem é o mercado. Se o mercado se torna mais competitivo significa que todos nos tornamos melhores e conseguimos servir melhor às necessidades dos nossos clientes.

Num atípico processo a BFA GA foi admitida como membro da Associação Africana de Equidade e Capital de Risco. O que isso representa para a BFA GA, em particular e para o mercado angolano?

Foi o resultado, na verdade já estávamos a trabalhar com a associação no processo desde o início de 2019, devido alguns requisitos que eram necessários cumprir. Para nós é mais uma forma de nos desafiarmos. É uma forma de abrir o diálogo entre o País e a região, visto que associação abrange o continente como um todo. Queremos também fazer a nossa parte, contribuindo para abertura para o mundo.

Fala-se muito da qualidade do quadro nacional e da importação de mão-de-obra estrangeira neste mercado. Como é feita a selecção dos quadros da BFA Gestão de activos?

A BFA Gestão de Activos sempre primou para o conteúdo local, apesar de não sermos obrigados a fazer, mas acreditamos na capacidade do angolano e que essa capacidade se encontra em qualquer um dos jovens. A nossa população é nova, isso nos torna fortes, porque temos tempo para aprender e crescer. É nesse foco que trabalhamos com os quadros nacionais. Não temos preconceitos, mas primamos pelo conteúdo local.

Os grandes fundos internacionais ainda não olham para Angola como um mercado preferencial. O que falta para que investam em Angola?

Acabamos por fazer parte do evento anual da Associação africana, onde fui moderador, e tive a oportunidade de fazer uma questão deste género (Why not Angola?), “vão para todo lugar, Namíbia, África sul, porque não Angola?”. Para maior parte dos investidores as respostas foram muito similares, responderam que o País tem problemas estruturais, problemas a nível da legislação, houve até um investidor que simplificou ao dizer que o Agola tem problema de ecossistema, ao dizer que o nosso ecossistema é muito distorcido. E eu começo a perceber que em rigor, o que está a faltar é a informação para comunidade regional e internacional. O que me espantou é que nos últimos cinco anos, aproximadamente 20 mil milhões USD foram alocados para fundos de capitais de risco de muitos membros dessa Associação regional e Angola recebeu zero deste capital. O que me faz crer que isso tem muito a ver com a não abertura em informar os nossos pares. Muita pouca gente sabe como é que o mercado está a evoluir, o que temos internamente, desde as nossas instituições e os nossos investidores. Há muito pouco conhecimento no mundo inteiro sobre o que é Angola é hoje. Se estivermos reunidos em Londres, África sul, Namíbia, ou no Zimbabué, é incrível que até mesmo os nossos irmãos locais pouco conhecem sobre a realidade do mercado de capitais em Angola. E aqui estou apenas a tocar no mercado de capitais, porque há outras realidades de outros sectores, não toca só o nosso sector em específico. Eu acho que deve haver um trabalho muito forte do nosso lado de criar as relações e conseguirmos informar a esses mercados sobre quem somos, o que fazemos, as estatísticas de crescimento e perspetivas, aquilo que o Executivo tem vindo a fazer para tentar atrair esse tipo de investidores, é esse trabalho que deve existir de muita comunicação. E depois tem aqui outras questões mas softs, mais relevantes, a título de exemplo até bem pouco tempo tínhamos o código de valores mobiliários em português, não havia uma tradução, apenas saiu a pouco a tradução. Mas isso é um passo, e havia muitas discussões sobre as regras de mercado, nas conversações com investidores estrangeiros. É crítico que possamos ter essa abertura, o nosso código de valores mobiliários está agora traduzido e já podemos partilhar com a comunidade internacional e regional, e dizer, por favor, conheçam quais são as nossas regras de funcionamento. Talvez nos próximos tempos possamos ver aqui algumas mudanças.

O regulador CMC tem feito bem o seu papel?

Eu acho que sim. A CMC faz parte da IOSCO, a associação dos todos reguladores, e isso é um passo importantíssimo, o nosso regulador é um membro efectivo, o código de valores mobiliários está em inglês, também é outro passo. As outras regras, como as regras de complice e de cooper governenace hoje é facilmente visível, há uma atenção muito especial neste sentido. O regulador está a fazer a sua parte, mas nós players do mercado temos de fazer a nossa, porque os reguladores criam as condições para melhorar o terreno, mas quem leva as pessoas ao terreno somos nós. Portanto, temos de fazer o nosso trabalho, e criar também as condições para que os investidores possam vir.

Estamos praticamente a viver a quarta revolução industrial, a conhecida economia 4.0. Qual é o papel das sociedades gestoras de fundos na dinamização da economia angolana?

Temos de perceber que não é só um avanço tecnológico, porque tenho de melhorar a tecnologia, por tanto, a tecnologia é só uma ferramenta, mas existem aqui outras coisas que são importantes para acontecer. Talvez não estamos ainda a sentir a quarta revolução, porque ainda temos problemas básicos, de saneamento e outros já conhecidos, e não digo que alguns destes problemas não possam ser resolvidos com auxílio da tecnologia. O facto de haver uma BODIVA é sem dúvida o reconhecimento de que havia necessidade de haver uma estrutura tecnológica que pudesse melhorar este ambiente de negociação entre as várias partes. É um exemplo de que entendemos e percebemos que existem essas necessidades. É o tal ditado “tecnology is not for just to technology sake”. Não é só porque eu vou hoje trazer para aqui uma grande ferramenta tecnológica que, de repente, vai mudar a nossa qualidade de vida. Há várias coisas em nossa volta que devem ser tidas em conta e depois utilizar a tecnologia como sustento para ajudar a fazer este avanço. Hoje falasse muito do processo das tartaps, sobre os pagamentos móveis, a necessidade dos bancos melhorarem a sua capacidade de resposta aos clientes, porque hoje a demanda é muito diferente. A nossa casa mãe o BFA percebe claramente que existe essa necessidade. Portanto, o cliente BFA de hoje não é o mesmo cliente de á 10 anos, portanto é aquele cliente que quer abrir uma conta muito rápido e não quer ficar muito tempo na fila para poder fazer uma transação, é um cliente que quer utilizar o seu telefone como quase que seu instrumento de trabalho no seu dia-a-dia.

Decorre o PROPRIV, alguns activos do estado serão privatizados em bolsa. Que oportunidades os fundos de investimentos veem neste programa?

Eu acho que vai depender de que activos são estes, porque temos um dever fiduciário para com os investidores e clientes, e esse dever fiduciário tem de vir em primeiro lugar, servir os nossos clientes primeiro, isto significa que eu tenho de encontrar soluções que sejam rentáveis para as suas poupanças e essa rentabilidade tem que ser com uma boa gestão de risco. O PROPRIV é interessante e temos todo o interesse de poder participar, mas também temos de entender em que momento uma entidade como a nossa participa num processo de privatizações. Em rigor fazemos a localização do capital, não somos propriamente a adevisers. Entretanto, há aqui um trabalho de banca de investimento que tem de ser feito numa fase inicial, para que depois possamos vir, mais lá para frente, de trazer os investidores que tenham interesse em olhar para estes ativos. Nos próximos tempos temos muita esperança de que vamos poder participar.

Angola está a implementar algumas reformas, com a ajuda do FMI, e um dos objectivos é melhorar o ambiente de negócios para atrair investimentos estrangeiros. Essas reformas têm surtido algum efeito no vosso mercado?

Sim. Esta questão tem a ver com os assuntos macroeconômicos. Se o nosso problema de balança de pagamentos não estiver resolvido, obviamente que os investidores de carteira, aqueles que procuram rentabilidade no privado, e aqui estou a falar de capital de risco vão investir menos cá. Sem dúvida, que poder ter do FMI um relatório positivo sobre o progresso do País, nós conseguimos levar isso como uma bandeira para qualquer investidor internacional e dizer: nós estamos a fazer as coisas como devem ser e estamos a caminhar para um país melhor a nível estrutural.

Como agente económico activo, como olha para economia angolana no contexto macroeconómico?

Eu diria que, de uma forma geral, em Angola precisamos fazer essa abertura para o mundo, temos a necessidade de perceber que temos nos liga ao mundo inteiro, temos de criar parceria com o mundo, significa que não podemos nos prender a uma única região. É importante que essas parcerias sejam feitas. Isso é importante, a mensagem que vamos mandar para mundo tem que ser de coesão da nossa estratégia nacional, essa coesão, portanto, é nos percebermos que nada se resolve se olharmos apenas para mercado de capitais de forma isolada, ou para a indústria das pescas de forma isoladas, portanto, problemas complexos, como problemas macroeconómicos não podem ser resolvidos de forma isolada. Temos de olhar para eles como um ecossistema. O que significa que a resolução passa por resolver o sistema e não resolver um único problema num sector em específico, porque esse depois tem a ligação com outros. Em Angola ainda temos aquilo que são chamados vazios institucionais, e esses vazios institucionais, é por exemplo, irmos para um sector e percebemos que ainda há necessidade de institucionalizar a sua actividade, no mercado de capitais ainda existe a importância de institucionalizar muita coisa. Por exemplo, temos o mercado secundário, o facto de hoje o mercado secundário de títulos da dívida pública ser feito por via da BODIVA é um processo de institucionalização de um sector, se vamos olhar para agricultura e percebemos que a cadeia de valor tem de se organizar, tem de haver uma institucionalização da cadeia de valor, também é um outro lado. É importante que nós internamente percebamos esse problema sistémico, por ser um sistema, não são problemas isolados. E passar a informação ao mundo que estamos abertos, estamos a crescer e a tentar a construir as bases mínimas para que os investidores internacionais possam encontrar aqui um lugar para poder trazer o seu capital.