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Ana Regina Victor: “Os tempos que vivemos tornam tudo mais desafiante”

O novo cenário económico cria problemas, mas também oportunidades, incluindo no mercado de capitais, defende a administradora da BAIGEST, Ana Regina Victor. O ‘braço armado’ do Banco BAI acaba de dar início à liquidação do primeiro fundo, o BAI Rendimento Premium, e está a preparar novos, olhando também para oportunidades que possam surgir por via do programa de privatizações em curso (PROPRIV).

02 Abr 2020 / 10:44 H.

Estão em fase de liquidação do BAI Rendimento Premium. Qual foi a rentabilidade?

Iniciámos o processo de liquidação no passado dia 25 de Março A constituição do Fundo BAI Rendimento Premium foi autorizada pela CMC em 22 de Janeiro de 2019 e teve a duração de 1 ano. O Fundo iniciou actividade em 25 de Março de 2019 e captou um valor total de 10 mil milhões Kz. Conseguimos uma rentabilidade superior a 14%.

Que tipo de clientes compraram este fundo? E quantos?

A BAIGEST coloca os seus produtos, essencialmente, aos clientes do Banco BAI. Por isso, temos de ir ao encontro das suas necessidades, tendo em conta o seu perfil de risco e o seu horizonte de investimento. Este Fundo foi direccionado para clientes do Banco BAI, do segmento premium, e teve 95 subscritores.

Como têm corrido os restantes fundos que têm activos em termos de rentabilidade?

A nossa carteira tem tido um bom desenvolvimento. Temos feito o acompanhamento diário das nossas unidades de participação. Para determinados fundos, mormente, os de indexação cambial, temos registado um bom desempenho.

Qual o perfil de clientes?

Depende muito do tipo de fundo que estruturamos. Modo geral, os nossos Fundos têm sido direccionados para clientes dos segmentos premium, loengo e empresas. Mas estamos já a trabalhar em fundos para o segmento mass market.

Em geral, que balanço fazem da vossa actividade em 2019?

O balanço é positivo. A BAIGEST constituiu-se em 2015, mas só foi registada como intermediário financeiro na CMC em Julho de 2018. De 2018 à presente data lançámos cinco fundos de investimento e temos mais fundos em carteira para lançamento, ainda este ano. Também tivemos os nossos desafios, normais para uma empresa nova como a nossa. Tivemos de definir políticas, procedimentos, formar equipas e, inclusive, redefinir a nossa estratégia de actuação.

Como estão a olhar para a possibilidade de lançarem novos fundos neste ano?

Este ano vamos privilegiar produtos de curto prazo, ou seja, até 1 ano). Há apetência dos clientes para a gama de fundos indexados e de rendimento. Vamos, contudo, ter de ajustar os nossos calendários em função do novo cenário que o País atravessa.

Que tipo de fundos poderão lançar? Apenas de dívida pública, ou olham para outras oportunidades?

Vamos lançar fundos de dívida, mas estamos atentos a outras oportunidades. Temos recebido o convite de algumas entidades para estruturação, por exemplo, de fundos de investimento imobiliário e de fundos de capital de risco.

A conta-capital foi já parcialmente liberalizada. Já vamos conseguir atrair investidores internacionais?

Esta é uma boa notícia. O mercado não poderia ter a dinâmica e a profundidade desejada apenas com os investidores domésticos. Contudo, desejamos que este investimento não seja apenas em termos de capital financeiro, mas também de conhecimento especializado na gestão.

Como estão a posicionar-se para as privatizações?

Enquanto gestora de fundos, estamos no chamado buy side do mercado, ou seja, somos compradores de valores mobiliários. Neste sentido, a nossa actuação será estruturada de acordo com a oferta existente. O PROPRIV já foi aprovado e já estão a ser alienadas uma série de participações que o Estado detém num conjunto de empresas. Existe é pouca informação sobre a situação financeira da maior parte das empresas que estão neste programa.

Admitem lançar fundos de acções, quando houver esse mercado?

Podemos sempre pensar em fundos de investimento que irão investir em acções cotadas em bolsa, resultantes das IPO, ou em fundos de capital de risco que irão adquirir participações em empresas, resultantes das vendas em bloco ou por leilão. No entanto, é necessário o elemento fundamental para efectuar esses produtos – informação. Estamos confiantes que o processo em marcha trará um maior dinamismo ao mercado de capitais e que, seguramente, haverá oportunidades para o lançamento de mais fundos de investimento.

Acham que haverá interesse de fundos internacionais em entrar também neste novo segmento?

Acreditamos que sim. Já se registava algum interesse no mercado angolano.

A revisão em baixa das perspectivas macroeconómicas, na semana passada, no novo contexto de baixa do preço do petróleo, é perturbadora da vossa actividade?

Vivemos um novo cenário é certo, e em função disso já começámos a reflectir sobre a estruturação de produtos ajustados à nova realidade. Acreditamos que, em todas as situações de crise, há sempre oportunidades que surgem. Já identificámos algumas e já estamos a trabalhar neste sentido.

Como olha para o mercado de capitais angolano em geral?

Com particular expectativa. Acredito que o nosso mercado é promissor. Tenho acompanhado este segmento e nos últimos anos foi notória a preocupação de expandir o mercado de capitais, de forma a dar uma nova dinâmica à realidade socioeconómica do País. Foram criadas as condições legais e regulamentares, bem como criadas as infra-estruturas necessárias para a dinamização deste mercado. Foi aprovado, recentemente, um conjunto de normativos que visam criar os mecanismos de atractividade do investimento externo que podem contribuir para o desenvolvimento do nosso mercado de capitais. Contudo, ainda temos um longo caminho a percorrer. E os tempos que vivemos tornam tudo mais desafiante. Acredito que esta é também uma oportunidade para trabalharmos no sentido de ultrapassar alguns desafios. Mais programas de literacia financeira por parte de todos os reguladores do sistema financeiro, mais investimento em campanhas de poupança, mais acções de capacitação dos gestores das empresas. É importante, também, investirmos na criação de um ambiente de negócios mais atractivo.

Faltam players de algum tipo?

Temos mais de 20 agentes de intermediação registados, uma bolsa de valores em funcionamento, oito sociedades gestoras de fundos de investimento, 22 fundos de investimento autorizados pela CMC, três sociedades corretoras. Acredito que sim, precisamos de mais players.