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Alexandre Canas

A Trafigura tende a tornar-se num nome muito conhecido no cenário empresarial angolano, sobretudo, com a liberalização de vários sectores económicos. O Grupo está voltado à economia nacional e “pisca o olho” na gestão do caminho-de-ferro do Lobito, enaltecendo o progresso na melhoria do ambiente de negócio no País. Nas linhas que se seguem, acompanhe a conversa com o Director-geral da Trafigura em Angola, um dos maiores grupos de comércio de commodities físicas do mundo, Alexandre Canas.

Luanda /
12 Out 2021 / 09:00 H.

Como e em que ano a Trafigura entra em Angola?

Iniciámos o nosso envolvimento em Angola em 1998, fornecendo pequenas quantidades de produtos petrolíferos refinados à Sonangol. A Trafigura começou a realizar investimentos no País em 2005 através de parceria local, desenvolvendo projectos de infra-estruturas, negócios B2B e comércio retalhista de produtos petrolíferos que mais tarde se transformaram na Pumangol.

Começou, de facto, em Angola com a designação Trafigura?

Inicialmente sim! Mas apenas para actividades comerciais relacionadas ao fornecimento de produtos petrolíferos. No entanto, identificamos, desde cedo, áreas de investimento para as quais precisávamos de criar parcerias locais para cumprir os regulamentos de investimento interno da época.

Quando é que a marca, a Trafigura começa de facto a operar em Angola?

A Trafigura tende a tornar-se num nome muito conhecido no cenário empresarial angolano com a bem-vinda liberalização de vários sectores económicos. Para quem não conhece a Trafigura, a empresa foi fundada em 1993 e desde então cresceu de forma acelerada tornando-se um dos maiores grupos de comércio de commodities físicas do mundo. A empresa obtém, armazena, transporta e entrega uma variedade de matérias-primas, incluindo petróleo e produtos refinados, metais e minerais para clientes em todo o mundo e, recentemente, estabeleceu uma divisão de comercialização de electricidade de energias renováveis. Mais de 8.500 funcionários trabalham para o Grupo Trafigura em 48 países em todo o mundo.

Qual foi o investimento da empresa para o início de actividade no País?

Nos últimos anos, a Trafigura investiu, através de subsidiárias como a Puma Energy, mais de 1,6 mil milhões USD, criando mais de 2.300 empregos angolanos directos e indirectos apenas na Pumangol.

Como encara o ambiente de negócios em Angola?

É um ambiente de negócios que conhecemos bem e temos experiência em operar para fornecer serviços competitivos e de valor acrescentado aos nossos clientes.

Hoje já é possível o investimento estrangeiro sem parceiros angolanos em certos sectores da economia. Como analisa as reformas em curso no país no tocante à melhoria do ambiente de negócios?

Transparência, abertura, consistência nas políticas e estabilidade são essenciais para promover um clima de confiança para os investidores internacionais. Hoje assistimos a um enorme esforço feito por Angola para criar estas condições e atrair investimentos. Tal é muito positivo para o futuro de Angola, que poderá beneficiar da sua localização estratégica, abundantes recursos naturais e acesso preferencial aos mercados externos.

Depois da Sonangol ter concordado em vender a sua participação na Puma Energy à Trafigura, o vosso Grupo decidiu manter-se em Angola. Hoje em que ramo de actividade atua e qual é o volume de negócios?

A Trafigura continua a trabalhar em estreita colaboração com a Sonangol no fornecimento e financiamento de produtos refinados, bem como na exportação de óleo combustível e querosene. A Trafigura também atua no sector de petróleo bruto, comprando regularmente cargas de exportação à Sonangol. Exemplos da nossa actividade em Angola incluem a actual execução de um contrato de offtake para carregamento de óleo combustível a partir da Refinaria de Luanda. No tocante ao fornecimento, acabamos de concluir a entrega da nossa última carga ao abrigo do nosso contrato de fornecimento a prazo de 2019 a 2021, o qual foi celebrado na sequência do concurso internacional lançado pela Sonangol em 2019.

E sobre os futuros concursos internacionais...

Infelizmente, não fomos seleccionados pela Sonangol para o fornecimento de produtos refinados de 2021 a 2022 na sequência do concurso internacional no início deste ano, mas acreditamos que estamos bem posicionados para futuros concursos.

Qual é a quota de mercado que a Trafigura detém no mercado angolano?

Continuaremos a responder de forma competitiva aos concursos regulares lançados pela Sonangol para o fornecimento de produtos refinados, bem como aos concursos e negociações para a exportação de óleo combustível, querosene e petróleo bruto, que podemos apoiar com soluções de trade finance e apoios para facilitar o abastecimento de petróleo ao País.

A Trafigura concorre para à gestão do caminho-de-ferro do Lobito/Corredor do Lobito?

A Trafigura está certamente muito interessada neste projecto e vemos o seu valor estratégico no desenvolvimento dos fluxos comerciais entre a sub-região e o Porto do Lobito, mas também no reforço das nossas relações com Angola.

O Grupo Trafigura já é um usuário regular dos caminhos-de-ferro para transportar metais do corredor de cobre para exportação a partir do Lobito. Em Setembro de 2018 fomos a primeira empresa a transportar uma remessa de cobre ao longo do corredor do Lobito em mais de 40 anos, ajudando a comprovar a viabilidade da rota.

Em caso de vitória no concurso de gestão há possibilidade de entrada de outros parceiros?

Pretendemos trabalhar com parceiros que tenham experiência na gestão de projectos ferroviários em África e um bom conhecimento das condições da operação ferroviária em Angola e na República Democrática do Congo. Dependendo dos termos de referência do concurso, não excluímos a inclusão de parceiros adicionais, tanto internacionais como angolanos, desde que partilhem os nossos valores e objectivo de fazer deste corredor ferroviário um motor de desenvolvimento económico e social. Tal reflecte a nossa convicção de que a melhor condição para a sustentabilidade de um projecto é a capacidade de demonstrar que também serve os interesses do país e da sua população.

Qual deverá ser o investimento da empresa nesta empreitada e quantos postos de trabalho deverá gerar?

Nesta fase é difícil estimar o nosso possível investimento, pois ainda não vimos os detalhes da concessão. Dependerá também das conversações que possamos ter com outros parceiros. Mas sabemos que o desenvolvimento deste corredor exigirá grandes investimentos de várias centenas de milhões USD, não apenas em equipamentos, mas também em recrutamento e formação de pessoal. Este último ponto é provavelmente o maior desafio deste projecto. Não podemos ter um caminho-de-ferro moderno e eficiente se não fizermos o esforço para recrutar pessoal das melhores escolas angolanas e proporcionar-lhes formação nas competências necessárias. Este projecto certamente criará centenas de empregos directos e terceirizados e apoiará um número ainda maior de empregos indirectos na comunidade em geral, incluindo as actividades que surgirão devido à própria existência de um serviço ferroviário eficiente e competitivo.

Que estratégia deverá vir a ser adoptada para o corredor do Lobito transformar-se num verdadeiro corredor à semelhança de outros países?

A nossa estratégia é a busca permanente por excelência e competitividade. Este corredor está a concorrer com outros meios de transporte e com outros corredores africanos. Devemos tornar-nos mais competitivos e eficientes para atrair negócios. Os nossos esforços não se limitarão apenas ao segmento ferroviário, pretendendo-se desenvolver parcerias e relações comerciais com os futuros responsáveis pelo Porto do Lobito e os seus terminais, bem como com as companhias marítimas que servem Angola, para que toda a cadeia logística possa oferecer esse nível de desempenho.

O caminho-de-ferro enquanto alavanca para o transporte de cobre e outros minérios da RDC, é um dos focos da Trafigura?

O corredor é, obviamente, destinado ao transporte de minerais e o cobre em particular. Esta foi a sua razão de ser no passado e continuará a ser uma das suas principais missões a médio prazo. Mas seria lamentável deixar as coisas como estão e não contribuir para o surgimento de outras oportunidades, primeiro dentro de Angola com o transporte de produtos agrícolas e outros, e internacionalmente com a exportação de produtos petrolíferos, importação de consumíveis para a indústria mineira e commodities básicas para o Congo e para a Zâmbia.

Quanto é que a empresa tenciona arrecadar com o caminho-de-ferro do Lobito anualmente? E em termos de toneladas... Quer comentar?

Sabemos por experiência que qualquer investimento num projecto ferroviário deve ser a longo prazo e que o lucro muitas vezes é modesto e incerto, pois existem diversas variáveis e desafios imprevistos. A nossa ambição é atingir o equilíbrio financeiro deste projecto em cinco anos. O nosso interesse no projecto reside tanto no valor estratégico que ele oferece ao nosso negócio, para melhor se integrar no ambiente económico dos países servidos por este corredor e fornecer transporte de baixa emissão de carbono e mais seguro de commodities essenciais aos nossos clientes e comunidades que ele serve, pois tudo se resume à rentabilidade financeira independente do projecto.

Hoje em dia, qual é o número de colaboradores em Angola e qual é o resultado financeiro de 2020 e o provisório de 2021?

Os resultados financeiros não são divididos por país. Os nossos resultados financeiros completos são publicados todos os anos e encontram-se disponíveis em https://www.trafigura.com/financials.