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A primeira revolução industrial está por se completar na maioria dos países africanos”

Fala-se na quarta revolução industrial, mas África está longe das tendências globais. Seria possível acelerar o processo com investimento em educação e formação, lembra o professor universitário Assis Malaquias. Em entrevista, o catedrático angolano, docente de Global Studies and Maritime Affairs na Universidade da Califórnia (Academia Marítima), explica o impacto da COVID-19 no continente, aponta caminhos para a mudança necessária de políticas, defende a integração económica regional, mas não esconde o que mais o preocupa: a má qualidade da generalidade das lideranças africanas.

China /
08 Jul 2020 / 15:09 H.

África vem enfrentado desa Q fios conhecidos a vários níveis. Quais são aqueles que, na sequência da COVID19, se tornaram mais candentes? Em que medida?

Antes da pandemia, havia um certo optimismo em África. Especificamente, os altos níveis de crescimento económico em alguns países da região, como o Ruanda, a Costa do Marfim ou a Etiópia, resultado da implementação de políticas macroeconómicas acertadas, apontavam para uma trajectória positiva de desenvolvimento.

Outra fonte de optimismo devia-se ao facto de um número crescente de líderes africanos terem entendido que havia uma necessidade urgente de acelerar o processo de desenvolvimento económico, para evitar grandes convulsões sociais. A COVID-19 repôs a realidade, ao expor as grandes debilidades a vários níveis que África enfrenta.

O continente, em geral, não estava preparado para este desafio. Mesmo antes da pandemia, as grandes economias africanas tinham um crescimento económico muito anémico, casos da Nigéria e África do Sul, ou mesmo negativo, como Angola. A pandemia piorou a situação em pelo menos três vertentes.

Quais? Primeiro, a saúde económica do continente vinha dependendo cada vez mais do comércio com a China. A contracção económica na China, resultante dos efeitos da COVID-19, vai necessariamente reduzir a demanda de produtos africanos nesta grande potência económica mundial.

Por outro lado, haverá uma redução dos investimentos chineses em África. A redução do investimento chinês, algo de que os países africanos vêm dependendo há já largos anos, vai debilitar ainda mais as economias da região. Depois, os países africanos vão sentir o efeito da redução drástica da demanda nos países da OCDE, particularmente na União Europeia.

Um número muito elevado de países africanos depende da Europa para a sua estabilidade económica. Nos sectores formais, o investimento europeu e o comercio com a Europa são indispensáveis. Nos informais, o turismo europeu desempenha um papel muito importante. Sem o investimento ou o turismo europeu, várias economias africanas entram em situações insustentáveis.

E a terceira vertente?

Não podemos esquecer-nos dos efeitos do colapso tanto da demanda interna, como do comercio intracontinental. O resultado destes três factores será o crescimento drástico do endividamento dos países africanos. Muito provavelmente voltaremos ao período da crise do endividamento dos anos 80 do seculo passado e da década perdida do desenvolvimento. Um dos temas que tem sido falado e já teve alguns desenvolvimentos é o perdão ou adiamento do pagamento de dívida dos países africanos.

Já havia motivos para se trazer este tema à agenda antes da pandemia? Sim.

As questões relacionadas com o perdão ou adiamento do pagamento da dívida dos países africanos são de longa data. Precedem a pandemia há, pelo menos, meio seculo. São assuntos que surgiram logo depois das independências africanas. Na euforia póscolonial de alcançar um desenvolvimento rápido e atingir os níveis ocidentais num prazo relativamente curto, os países africanos cometeram muitos erros. As políticas de investimento não só foram erradas, como, pior ainda, os governos foram investindo com dinheiro emprestado.

Enormes dívidas foram contraídas, porque os líderes africanos não entendiam bem as questões económicas, tanto a nível nacional, como internacional. Por exemplo, pensavam que os preços das commodities africanas nos mercados internacionais continuariam a subir ou, pelo menos, se manteriam estáveis. Por outro lado, pensavam que as taxas de juro também se manteriam estáveis. Nem uma coisa nem outra aconteceu.

Quando os preços das commodities baixaram devido à recessão económica mundial precipitada pela crise do petróleo dos anos 70 do seculo passado e as taxas de juro subiram repentinamente, a crise da dívida instalou-se. Na verdade, em geral, os países africanos nunca conseguiram ultrapassar esta situação. A COVID-19 simplesmente veio agudizar e agravar algo que vem debilitando África há várias décadas.

Como é que a África pode afirmar-se no contexto político e económico mundial tendo em conta o novo ‘normal’ (ou ‘anormal’) pós- COVID-19? Vai ser muito difícil. Para África se afirmar nos contextos mundiais, vai ter que, primeiro, melhorar muito a nível interno. A nível nacional, poucos países africanos funcionam de forma eficiente. As lideranças políticas têm pouca noção de estratégia e, por isso, têm dificuldades em traçar e ainda mais em implementar políticas de transformação das suas sociedades.

Os maus resultados destas políticas sentem-se a todos os níveis. Por exemplo, as economias não conseguem produzir rendimentos suficientes para aliviar a pobreza da maioria, para produzir empregos para os milhões de jovens africanos que a cada ano se juntam à força trabalho. Por outro lado, os grandes pilares das sociedades, como a saúde, a educação, os serviços públicos e a segurança, são de baixa qualidade.

A nível sub-regional, os processos de integração avançam de forma lenta e desequilibrada. Estas debilidades reflectem-se, obviamente, a nível continental. Todo este conjunto de debilidades impede que África se consiga afirmar no ‘xadrez’ mundial. No fundo, África ainda não tem força suficiente para impor a sua vontade no contexto político e económico mundial.

A correlação de forcas a nível global não foi muito afectada pela COVID-19. Neste novo contexto, faz mais sentido acelerar a integração económica africana?

A integracão económica faz sentido porque, individualmente, os países africanos têm muito pouca expressão a nível mundial. Mesmo no agregado, o continente ainda tem uma longa caminhada a trilhar para alcançar a expressão que anseia Por exemplo, o continente africano, com uma população de cerca de 1,3 mil milhões de habitantes, tem um PIB que anda por volta de 2,5 biliões USD. O PIB do estado da California, nos EUA, onde vivo neste momento, anda por volta de 3 biliões USD. Mas a Califórnia tem menos de 40 milhões de habitantes... Quais devem ser as fontes de financiamento preferenciais para o continente? Deve sempre privilegiar-se as fontes internas. África não é pobre, mesmo que a maioria dos africanos o seja. Por exemplo, anualmente, mais de 50 mil milhões USD ‘desaparecem’ de África devido à corrupção. Estes montantes ultrapassam as somas que entram no continente sob a forma de investimento directo estrangeiro (45 mil milhões em 2019).

Quer dizer, com uma melhor gestão dos recursos internos, o continente africano teria muito mais meios para investir no seu desenvolvimento. Mas ainda há muito trabalho para se fazer no sentido de estancar o esvaziamento dos recursos financeiros no continente.

E as fontes de financiamento?

Acredito que a emissão de títulos soberanos tem algumas vantagens, mas melhor ainda seria introduzir medidas que incentivem a poupança interna. A primeira coisa que os economistas aprendem é que, sem poupança, dificilmente há investimento. Sem poupança interna, as únicas opções são fontes externas. O grande problema é que estas obedecem a dinâmicas que são geralmente muito difíceis de entender e mais ainda de controlar.

Está em curso a revolução industrial digital. Como vê a posição de África neste processo e quais as forma de acelerá-lo no continente?

A revolução digital em curso assenta nas revoluções que decorreram no passado. Os países desenvolvidos estão, neste momento, na quarta revolução industrial. As tecnologias the impressão em 3D e a inteligência artificial são exemplos desta quarta revolução. A revolução industrial digital foi a terceira. Iniciou-se nos anos 50 do seculo passado e produziu semicondutores, computadores pessoais, a internet, etc..

A segunda caracterizou-se pelas grandes invenções que dominam as sociedades modernas, assim como a produção em massa. A primeira revolução industrial foi aquela que produziu o motor a vapor e transformou quase todo o mundo. Esta pequena resenha histórica serve apenas para dizer que a grande maioria dos países africanos ainda está por completar a primeira revolução industrial, que é a base de todas as outras. É possível encurtar o período de passagem de uma para outra. Vários países já o demonstraram.

A China é o último e mais espectacular exemplo. É possível saltar directamente para a quarta?

Isso é muito mais difícil, mas acelerar o processo é possível. Passa pela elaboração e implementação de estratégias de desenvolvimento que façam sentido. Especificamente, envolve investir muito na educação. Sem quadros capazes, sem mão-de-obra qualificada e especializada, muito dificilmente se desenvolve. A formação de mão-de-obra qualificada é um tema onde não há avanços significativos no continente...

A educação é a chave do desenvolvimento. Sem educação, não há mão-de-obra qualificada, e sem esta não é possível desenvolver nenhum país, seja africano, asiático, europeu ou qualquer outro. Os países africanos têm de investir bastante na educação, com políticas bem concebidas e implementadas. Isto não é mistério.

Há muitos exemplos no mundo de países que conseguiram fazer autênticos milagres de transformação das suas sociedades devido aos investimentos feitos no sector da educação.

O que falta para que os sistemas de ensino e formação africanos melhorem? Dinheiro?

Os recursos existem. Por exemplo, quantos africanos poderiam ser formados por ano se os 50 mil milhões USD que desaparecem do continente anualmente fossem investidos na educação? Quantas universidades de qualidade poderiam ser construídas? Quantas escolas de base?

O que falta não é recursos: faltam as políticas acertadas, boa governação. Com boa governação, seria possível estabelecer os tipos e as quantidades de quadros que África precisa neste momento, assim como no futuro. São questões básicas, mas fundamentais.

E são questões às quais África não tem conseguido responder, porque carece de boa governação. Consequência: desenvolvimento lento. Num mundo onde a incerteza é uma variável cada vez mais presente, onde vê África daqui a 20 anos na cena geopolítica e económica mundial? Essa é uma pergunta muito difícil, porque requer olhar para o futuro, ou seja, requer uma perspectiva estratégica.

O mais importante não é necessariamente tentar ver onde África estará daqui a 20 anos. O mais importante é que os africanos saibam ondem querem estar daqui a 20 anos. Temos de ter em conta que em 2040 África terá mais de dois mil milhões de habitantes, quase o dobro da população actual.

O grande desafio estratégico para África será como proporcionar uma existência digna aos africanos que vão nascer nos próximos 20 anos.

Como proporcionar níveis adequados, em termos de quantidade e qualidade, de alimentação, saúde, habitação e todos os outros fatores que permitem uma vida condigna?

Se África conseguir vencer este desafio estratégico, e assim evitar vários tipos de convulsões, isso vai reflectir-se positivamente na forma como o continente vai ser tratado na cena geopolítica e económica mundial.

Teremos uma África forte, que comanda respeito e admiração no mundo. Infelizmente, não acredito que as lideranças africanas estejam à altura deste grande desafio estratégico, o que me leva a crer que, daqui a 20 anos, África continuará tao marginalizada internacionalmente como está hoje.