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“A economia de Angola tem muito potencial, mas depende da estabilidade do País e a continuidade das políticas económicas”

De acordo com a representante máxima da coroa do Reino Unido, a continuidade das políticas económicas não implica ter exactamente o mesmo governo, mas é necessário reconhecer que os parceiros e empresas estrangeiras precisam de um sentido de continuidade. Nas linhas que se seguem, acompanhe a última entrevista de Jessica Hand enquanto embaixadora do Reino Unido em Angola.

Luanda /
22 Nov 2021 / 10:44 H.

Qual é o estágio actual da relação África e o Reino Unido?

Para nós, no Reino Unido, o continente africano tem muitas possibilidades, somos conscientes de um continente com variedade de opções e de uma população muito grande, acho que até 2050 poderá ter dois bilhões de pessoas na África.

Obviamente que é um mercado muito importante para os empresários e investidores, mas com essas pessoas queremos poder ser parceiros.

Queremos desenvolver mais as nossas relações com todos os países de África, porque evidentemente, na história tivemos relações com alguns países de Africa, por exemplo, Angola foi um pouco escondido e agora temos as possibilidades de abrir um novo período de engajamento.

Que peso ocupa Angola na relação do Reino Unido com o continente africano?

Em 2020, em Londres, nós fizemos uma cimeira sobre investimento em África, e convidamos 25 países incluindo Angola. Durante a cimeira dois países captaram muito interesse por parte dos investidores e dos medias britânicos, estamos a falar de Etiópia e Angola. Isso mostra que, agora o sector comercial no Reino Unido tem consciência que Angola oferece muitas possibilidades para desenvolver as novas parcerias que, e esperamos que vá beneficiar ambas as partes.

Que balanço faz da cooperação entre o Reino Unido e Angola, no âmbito económico e social?

Bem, no âmbito económico temos duas partes técnicas: Por exemplo apoiar o sector financeiro, e temos ligações muito próximas o sector financeiro de Angola e as entidades importantes no Reino Unido, por exemplo o London Stock Exchange, o centro de Bolsa de Londres, e outras entidades financeiras. E esperamos que Angola desenvolva um sector financeiro mais técnico e detalhado e aproveite as novas oportunidades no sector financeiro global. Temos também uma cooperação comercial, e isso vai responder rapidamente o desenvolvimento da economia Angolana, e a diversificação económica. Por exemplo, no passado, a maioria das relações comerciais do reino Unido com Angola foi no sector do petróleo, mas agora temos empresários no sector mineiro, começamos a ter um diálogo sobre as possibilidades na agricultura e especialmente as possibilidades no sector das energias. E isso é muito importante neste momento, porque o Reino Unido acabou de hospedar a cimeira de COP sobre as mudanças climáticas, então, o foco foi sobre as alternativas aos combustíveis fósseis.

Nesta relação qual é o saldo comercial entre Angola e Reino Unido?

Temos um saldo positivo, mas não suficiente, honestamente. Foi um dos meus objectivos desenvolver e dar mais força nestas relações, e infelizmente tivemos uma pequena pausa por causa da COVID-19, mas isso também estimulou uma nova forma de comunicação entre as empresas, e por meio das videoconferências maximizamos esse diálogo e agora sentimos uma nova energia nestas relações.

Mas a covid-19 afectou de algum modo as relações entre os Angola e Reino Unido?

Afectou tudo, não só as relações comerciais, mas também as relações políticas e sociais. Foi um período muito difícil, de um nível particular, porque não foi possível viajar, ver os contactos e os parceiros. Especialmente nestas áreas é importante partilhar as conversas fisicamente entre as pessoas, não é suficiente falar apenas ao telemóvel ou por vídeo. Foi um período muito difícil e de transição, agora as pessoas estão mais confortáveis em usar os canais virtuais modernos, e isso é um desenvolvimento muito positivo para o futuro. Agora temos as duas possibilidades, para encontros físicos e virtuais.

Essa melhoria se verificou também com a retirada de Angola da lista vermelha em relação ao visto para o Reino Unido?

Pois, a decisão foi baseada em dados científicos com um cálculo dos riscos, com base nos dados publicados sobre a situação pandémica de cada país. No início do processo não tivemos dados suficientes sobre a situação em Angola, e infelizmente o resultado foi constar da lista vermelha. Mas agora, a situação está mais previsível e, sobretudo, porque o País começou com o processo de vacinação, e para nós foi uma decisão muito importante para mostrar que Angola começou a proteger a sua população, e desta maneira proteger também os seus viajantes. Foi muito satisfatório quando pudemos retirar Angola desta lista.

Ao longo da sua missão de quatro anos, quais foram os principais desafios, numa época em que a economia se encontra em recessão há cinco anos?

A recessão não foi o problema mais importante, porque acontece, mesmo também a economia do Reino Unido já teve períodos de recessão. Mas o importante foi a maneira como Angola respondeu a essa situação. Em nossa opinião, teve aspectos que influenciaram muito no desenvolvimento da economia angolana, um exemplo específico são as relações e o acordo com Fundo Monetário Internacional (FMI).

Não é fácil aceder neste tipo de acordo e processo, porque é muito rigoroso, mas foi claro que Angola queria melhorar a situação de uma forma permanente. Não foi uma questão de mudar pequenas coisas, mas transformar todo o sistema e isso foi um sinal muito forte. Foi necessário acrescentar outras medidas, como as mudanças de leis e regulações, a simplificação dos sistemas e de informação, e, obviamente, a tradução da informação e a criação da AIPEX com muita informação pública, online e em inglês, foi uma grande melhoria da situação. E tudo isso em conjunto cria uma atmosfera mais confiante para os empresários.

Os empresários não têm medo de uma situação difícil, mas querem uma situação previsível e transparente, e Angola começa a ter essa atmosfera, então, essa confiança cresce a todo tempo.

Entretanto, como olha para essas reformas que o País está a fazer com a ajuda do FMI?

Pessoalmente, acho que Angola está no bom caminho. Foi um processo difícil, haverá muitos desafios, mas é claro que houve uma determinação do Governo para fazer essas mudanças de uma forma permanente. O problema com isso, é que as mudanças precisam de muito tempo para mostrar os benefícios, especialmente para as populações. É claro que neste momento esses benefícios não atingem a população, mas essa é a etapa mais importante para os próximos anos. É necessário que a população angolana compreenda os resultados concretos dessas mudanças, e isso vai ser o desafio mais difícil para o Governo.

Mas essas reformas têm tido impacto nos empresários britânicos?

Um pouco. Em alguns aspectos, como os pagamentos e o tempo necessário para concluir novos contratos. Haverá muito impacto, mas até agora, mais ou menos, todos os impactos foram positivos.

Neste quisito, quais são as principais dificuldades dos empresários britânicos em Angola?

As principais dificuldades dos empresários britânicos são sempre os pagamentos e os movimentos de bens financeiros. Para o empresário é sempre a questão do tempo e a rapidez dos processos, mas houve alguma melhoria.

Os empresários querem um processo mais rápido, a par disso, os empresários britânicos estão conscientes que agora é mais fácil dialogar com as autoridades angolanas sobre os problemas, e isso facilita a maneira de fazer o intercâmbio de informação e de contratos.

Acredita que Angola tem um ambiente de negócio para atrair investidores estrangeiro?

Sim, já começou, porque é evidente. Já vimos muitas visitas e muitos desenvolvimentos importantes, por exemplo, recentemente a visita do presidente da Turquia e já temos anúncios de novos acordos com aquele país, e muitos países começam a fazer mais parcerias com Angola. Acho que é o início da abertura.

Entretanto, como o Reino Unido tem contribuído para o crescimento da economia angolana?

Graças a nossa agência de crédito para investimentos, UK Export Finance, temos um investimento mais ou menos de 650 milhões de fundo. Esse fundo apoia grandes projectos no sector da energia e construção de hospitais, por exemplo, há um hospital no Soyo que vai se especializar em problemas de queimaduras. Temos alguns projectos também no sector da agricultura e noutros sectores importantes para o desenvolvimento de Angola. Temos esse processo e temos cada vez mais confiança por causa desses projectos.

Há previsões sobre futuras parcerias entre Angola e Reino Unido

Isto depende mais de Angola, mas os empreendedores britânicos estão abertos às propostas e têm interesse em sectores específicos, como o sector mineiro.

Temos agora um número de empresas britânicas como, Anglo American, Rio Tinto e Pensana que já têm o início de projecto no sector da mineração em Angola.

Estamos a falar de um sector de longo prazo, portanto, estas empresas não começam projectos sem intenção de continuar durante muitos anos. Temos também alguns projectos para parcerias no sector da energia renováveis e esperamos daqui há um ou dois anos podemos voltar a falar sobre esses aspectos.

Neste sentido, o sector que os empresários britânicos privilegiam é o sector das energias...

Sim, das energias renováveis.

Que experiência o Reino Unido pode passar a Angola sobre esse sector?

Acredito que sim, porque o Reino Unido tem uma experiência de não só produzir as energias renováveis e a técnica para se produzir este tipo de energia, mas também temos a experiência de transformar o nosso sector petrolífero num sector mais verde e sustentável, como também de transformar o próprio sistema de energia do país em energias verde e sustentáveis. Portanto, queremos partilhar esta experiência com Angola.

Além do sector das energias, onde é que podemos beber mais do Reino Unido?

Temos também outros interesses aqui, por exemplo, durante muitos anos já trabalhamos no sector da desminagem, para assegurar que a população angolana possa viver em segurança, sem ameaças e desenvolver as suas comunidades, construindo pequenas empresas, vias para ligar os centros de produção, portanto, tudo isso só é possível com desminagem.

Temos duas organizações britânicas com muita experiência de desminar países, The Halo Trust e a MAG (Mines Advisory Group), que continuam a trabalhar neste sentido até ao momento, onde podemos em conjunto declarar que Angola é sem minas, e isto é fundamental para criar um país seguro para o desenvolvimento e prosperidade de toda população.

E a nível da tecnologia, há algum projecto em carteira para se aplicar em Angola?

Nada de especifico neste momento, mas temos muitos tipos de tecnologia que podem ser relevantes, e estamos abertos para discutir as possibilidades com uma gama que vai das indústrias muito técnicas como, por exemplo, o petróleo, mineração, produção de alguns produtos específicos até as novas tecnologias das medias, por exemplo, o gaming, as facilidades online, a produção televisiva, as novas “ Temos alguns pequenos projectos neste momento na educação, temos uma oferta de bolsa mais importante denominada the Chevening, uma oportunidade para angolanos estudarem no Reino Unido. formas de emissão, a tecnologia de comunicação, portanto, temos muitas opções, mas é necessário identificar quais são as mais relevantes para Angola.

Quanto à educação, como estamos em termos de parcerias para profissionalização dos quadros angolanos?

Temos alguns pequenos projectos neste momento na educação, temos uma oferta de bolsa mais importante denominada the Chevening, uma oportunidade para angolanos estudarem no Reino Unido tudo pago pelo Governo Britânico, num período de um ano para estudo a um nível de mestrado, que está disponível para qualquer área, dependendo da escolha do candidato.

Durante a minha missão começamos a desenvolver a parceria do British Council em Angola que é uma organização britânica que promove a língua inglesa. Como sabemos, o inglês não é apenas uma língua do Reino Unido, mas é uma língua global, de comércio, cultura e de ciência, portanto, queremos ajudar Angola a desenvolver as possibilidades de aprender e refinar o conhecimento desta língua.

Neste momento os encontros são online e o foco são os professores de inglês, mas também os clubes de da língua inglesa dentro das universidades ou escolas. O projecto já tem muito sucesso e esperamos que continue.

E a nível cultural?

Isto é um aspecto que honestamente não abrangemos até ao momento, mas temos bons contactos comerciais e políticos e isso pode ser um novo aspecto das relações. O problema é que a cultura não é barata, mostrar o meio de uma cultura nacional implica um grande movimento, por exemplo, as grandes peças de teatro, as grandes produções de opera, de balé e dança, não é fácil, mas se tivermos uma boa base económica, então podemos identificar os pontos para facilitar essas maneiras de mostrar a nossa cultura. Mas tempos também a possibilidade de mostrar as pequenas coisas por meio da televisão, e outros medias.

Podemos esperar uma relação política mais estreita entre Angola e Reino Unido?

Sim, o essencial é nos conhecermos e compreendermos melhor, porque neste momento a maior parte da população do Reino Unido não tem conhecimento suficientemente sobre Angola, acho que é verdade no outro sentido também. E é muito importante ter os contactos humanos, ter os intercâmbios de informação para melhorar este conhecimento.

Como olha a economia angolana?

Tudo depende muito do próximo ano, das eleições, da continuidade da política de transformação. Acredito que a economia de Angola tem muito potencial e muitas possibilidades, mas depende da estabilidade do País inteiro e da continuidade de políticas económicas. Isto não quer dizer que é necessário ter exatamente o mesmo governo, mas é necessário reconhecer que os parceiros e empresas estrangeiras precisam de um sentido de continuidade, então, se tivermos esse sentido, pode ser um período muito positivo para economia e para o povo angolano.

Nestes quatro anos como embaixadora em Angola, que balanço faz da sua missão?

Acho que foi um bom período para mostrar o potencial para as relações, nós tivemos alguns grandes acontecimentos, por exemplo, a visita do príncipe Harry a Angola, em Setembro de 2019, a presença de uma delegação de alto nível na Cimeira de Investimentos Reino Unido e África, em Janeiro de 2020, e muito recentemente a presença o presidente da república de Angola na cimeira da COP sobre as mudanças climáticas em Glasgow. Então, isso mostra que nós temos essas possibilidades de viajar, de contactar entre os líderes e as figuras mais importantes do país, e é um sinal muito positivo e forte para dizer sim, nós queremos construir essas relações, queremos desenvolver os conhecimentos mais aprofundados.

O que espera dos próximos anos dessas relações?

Um período de estabilidade, mas, também, um período de crescimento e de desenvolvimento aprofundado, não só desenvolvimento por meio de novos projectos, mas, com novos conhecimentos também, e se podermos atingir esse nível de compreensão e confiança entre os parceiros, teremos uma boa base para desenvolver mais.