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“A desvalorização da moeda permitiu que a empresa tivesse maior rentabilidade com as exportações”

O CEO da Nova Cimangola sublinhou que caso houvesse abertura para importação de cimento, os investimentos feitos pelas empresas do sector estariam todos em risco. Pedro Pinto precisou que a questão cambial foi positiva para a empresa, que teve maior rentabilidade com as exportações da produção.

Luanda /
23 Ago 2021 / 11:09 H.

Que balanço faz da actividade da Nova Cimangola dos últimos anos?

Em 2015 a empresa iniciou um processo de investimento de uma nova fábrica, que ficou concluída em finais de 2016. Naquele mesmo ano a Nova Cimangola era a maior importadora, importando quase um milhão de toneladas de clínquer por ano. Com o início do processo produtivo desta nova fábrica, a Cimangola, gradualmente transformou-se no maior importador para o maior exportador de cimento no período de 2017 até 2019.

Que tipo de tecnologia de produção é utilizada na nova unidade de produção?

A fábrica tem uma tecnologia nova de produção de cimento. É uma tecnologia de vanguarda que é agora utilizada nas fábricas mais modernas. É um processo de produção de clínquer por via seca sem mistura de água e de fabricação de clínquer com 80% de calcário e 20% de argila em via seca. O processo nesta nova fábrica foi feito para utilizar um conjunto variado de combustíveis. Neste momento utilizamos o Heavy Fuel Oil, que é produzido pela Sonangol, um combustível excepcionalmente barato, mas esta nova fábrica foi feita para produzir com combustíveis ainda mais baratos do que os combustíveis fornecidos pela Sonangol, que chamamos combustíveis derivados de resíduos. Trata-se de um produto preparado a partir de resíduos industriais e resíduos urbanos e projectamos começar a utilizá-lo já a partir do próximo ano. Estamos a aguardar as últimas aprovações para podermos começar a utilizar estes combustíveis, mas assim que tivermos essas autorizações, a empresa passará a utilizar combustíveis provenientes da Europa a um custo muito baixo. Portanto, os custos depois de produção do clínquer na Cimangola serão dos mais baixos do mundo, nós vamos ser tão competitivos como qualquer empresa mundial. Talvez mais competitivos que algumas empresas que não têm acesso a combustíveis derivados de resíduos, a Cimangola é a única empresa em Angola com capacidade para produzir clínqueres com combustíveis derivados de resíduos e isso vai dar uma competitividade muito grande à empresa a nível nacional e a nível internacional.

Qual é a capacidade de produção da Nova Cimangola?

A Nova Cimangola tem capacidade para produzir até 150 mil toneladas de cimento/mês. Acontece que em 2015 iniciou-se um processo de crise mais profunda no País, originada pelo decréscimo do preço do petróleo no mercado internacional. Assim o País deixou de ter capacidade para fazer investimentos promovidos pelo Estado, como fazia até então, e a procura de cimentos desceu entre 2015 a 2016 cerca de 50%. Na altura consumia-se internamente cerca de 5,2 milhões de toneladas de cimentos por ano e a partir de 2017 o consumo médio anual passou para 2,5 milhões de toneladas (cerca de 200 mil toneladas por mês).

Como têm sido aproveitadas as capacidades da Nova Cimangola?

Como o País não tem capacidade para absorver toda a capacidade industrial disponível na Cimangola e das outras fábricas no País, metade da nossa capacidade de produção é destinada à produção de cimento para o mercado nacional e o restante 50% serve para a exportação. Temos vindo a exportar clínquer e este ano provavelmente iremos exportar cerca de 900 mil toneladas do produto e também comercializar cerca de 900 mil toneladas de cimento, correspondendo a 40 ou 45% da procura de mercado nacional de cimento. Neste momento a taxa de ocupação industrial da Cimangola está acima dos 90% e a nossa perspectiva é tentar vender mais no próximo ano e satisfazer a procura nacional, que provavelmente será maior do que a média dos últimos anos, porque se aproximam as eleições e é provável que haja mais construções. Havendo obras o consumo de cimento irá aumentar um pouco mais, mas a Cimangola vai continuar com a mesma estratégia de vender grande parte da sua produção no mercado internacional e 50% da sua capacidade produtiva utilizada para produzir cimento para o mercado nacional.

O uso de combustíveis alternativos irá implicar na redução dos custos da produção em quase 50%, com esta redução a Nova Cimangola vai aumentar o número de trabalhadores?

Nós aumentamos os trabalhadores na altura em que iniciamos o processo de fabricação de clínquer naquela fábrica. Na altura aumentamos em cerca de 220 trabalhadores com arranque da fábrica e do ano passado para este ano, contratamos mais 300 pessoas e de um número de 500 trabalhadores passamos para 800, sendo que as contratações aumentaram em 50% de um ano para outro. Fizemos muitos investimentos do ano passado para este, a fim de reestruturar economicamente a empresa e prepará-la para a exportação, para aumentar a sua competitividade em Angola e para preparar a fábrica para utilizar combustíveis alternativos. Fizemos grandes investimentos e desde 2017 até agora já contratamos cerca de 600 pessoas.

Qual foi o valor destes investimentos?

Só no último ano investimos mais de 15 milhões USD e em 2015 e 2016 foram aplicados cerca de 300 milhões USD na nova fábrica.

Actualmente, como está o mercado de exportação de cimento para a República Democrática do Congo (RDC)?

As empresas angolanas podem exportar para a RDC, mas a fronteira norte do Luvo não está aberta a exportações e o mercado principal na RDC compreende esta zona norte. A Cimangola em 2016 vendeu muito cimento para aquele país e criou alguns problemas no funcionamento das fábricas locais e por isso o Estado Angolano e o Estado Congolês temporariamente fecharam a fronteira do Norte para as exportações do cimento de Angola. Portanto esse mercado neste momento não está disponível e quando estiver aberto acredito que as empresas angolanas serão muito competitivas e só isso explica os problemas causados ao funcionamento das fábricas de cimento da RDC.

Que tipo de problemas são esses?

Houve duas fábricas locais que estão a cerca 500 quilómetros de Luanda que fecharam e isso criou um problema social na RDC cuja resolução contou com a ajuda do Estado angolano, encerrando temporariamente as fronteiras para a exportação de cimento. A Nova Cimangola é a empresa que exporta mais em valor em Angola a seguir ao sector petrolífero e diamantífero, exportando essencialmente clínquer por via marítima para os países da África Ocidental.

A oferta produtiva da concorrência aumentou?

Não. A Cimangola é que aumentou significativamente com a oferta de tipos de cimentos. Somos a empresa que mais tipos de cimento tem disponíveis no mercado, que tem mais fracções logísticas e que tem uma estrutura de distribuição maior. A Cimangola é a única empresa em Angola que distribui para o País todo, comercializando cimento com a marca Cimangola em todo o território nacional.

Qual é a quota de mercado da Nova Cimangola?

A quota de mercado está entre 45 e 50%, o número oscila porque a nossa produção média tem sido nos últimos anos de cerca de 100 mil toneladas de cimento, que é a média do mercado. Mas, as vendas de cimento no mercado nacional oscilam, ou seja, tem períodos em que se vende mais e outros menos. Por exemplo, este período agora que vai de Junho a Novembro é quando se consome mais cimento, em média, no território nacional e no período de Dezembro a Fevereiro a procura é mais baixa. Nós não queremos esforçar muito a competitividade entre as empresas nacionais, porque o mercado está escasso. Se as empresas forçarem muito os níveis de competitividade interna algumas delas poderão não subsistir, porque o preço de venda baixou muito nos últimos anos e os custos com materiais importados subiram demasiado por causa da desvalorização cambial e do aumento das taxas de juros dos financiamentos bancários. Portanto, a combinação da diminuição da procura de cimento, aumento dos custos com a importação e o aumento dos custos com o financiamento fez com que as empresas tivessem menos capacidade de investir, menos rentabilidade e mais dificuldades financeiras.

Será que a redução da produção das outras empresas do sector de cimento se deve à pandemia da COVID19?

Há uma parte que justifica as dificuldades vividas no ano passado, mas as dificuldades do sector de cimenteiro já começaram de forma muito séria a partir de 2015. Em 2017, por exemplo, a procura já tinha descido a 50% e desde 2017 até agora tem se mantido estável com essa redução de 50% em relação aos números de 2015. Portanto, a questão da COVID19 só agravou um bocadinho mais a situação que já era particularmente difícil com as empresas do sector. Foi por isso que a Cimangola decidiu canalizar grande parte da sua capacidade produtiva para o mercado internacional.

Em relação à Nova Cimangola qual foi o impacto?

Não teve impacto quase nenhum. Continuamos com os mesmos níveis de produção, contratamos 300 colaboradores e mais 50% de mão de obra em relação ao que tínhamos antes e passamos a ser o maior exportador do País de clínquer e cimento do País.

Qual foi a evolução do sector de cimento registada face ao período anti pandémico?

As médias continuam as mesmas que apontei. A pandemia não alterou a procura, mas sim dificultou os processos de comercialização por causa das paragens no funcionamento das empresas, dos confinamentos, das restrições de comercialização entre as províncias. Dificultou nessa parte, mas a procura já era muito baixa desde 2017.

A Nova Cimangola tem os dados estatísticos da produção nacional de cimento?

Sim, através da Associação dos Industriais de Cimento nós temos acesso a informação sobre o funcionamento do País. A capacidade total é de cerca de oito milhões de toneladas por ano.

Actualmente qual é o preço de referência praticado na indústria de cimento em África?

O preço do cimento praticado em Angola, nesta altura, deve estar próximo dos 90 USD por tonelada, que é dos mais baixos de África. Os países vizinhos de Angola praticam o preço médio de cerca de 125 USD por toneladas e a RDC entre 140 e 150 USD por toneladas.

E no mercado nacional, relativamente aos sacos de cimento, qual é o seu preço real?

O saco de cimento de 50 quilos custa cerca de 4,5 USD, equivalente a cerca de 3 mil Kz.

Em função daquilo que tem sido o custo de produção, assistiremos uma redução do preço do cimento a nível nacional?

Possivelmente não. O que acontecerá é uma aproximação do preço de comercialização de cimento para os níveis médios dos países circundantes vizinhos de Angola, nós continuamos a vender a 85 e 90 USD a tonelada e os países vizinhos de Angola comercializam a 125 USD. Possivelmente as empresas em Angola deverão aproximar-se do preço médio dos países vizinhos. Neste momento não há importações de cimento, porque estão vedadas e as taxas de importação estão próximo dos 50%, estamos a falar de impostos para a importação de produtos cimenteiros e algum tipo de produto que são importados como o cimento branco e algum tipo de cimento especial. Mas todos aqueles cimentos que podem ser fornecidos pelas empresas produtoras angolanas não são importados, até porque as empresas fizeram um investimento muito grande nos últimos anos e com a redução da procura continuam a pagar as fábricas. Ou seja, se houvesse abertura livre para importação de cimento a qualquer preço e sem qualquer controlo os investimentos feitos pelas empresas recentemente estariam todos em risco.

A Nova Cimangola pretende aproveitar a onda de privatizações no País e o surgimento de bolsas de acções para abrir o capital próprio para bolsa?

A decisão de privatização do capital da Nova Cimangola depende do accionista Estado, que tem uma participação na empresa, não depende dos outros accionistas. O accionista Estado quando entender privatizar as suas participações tem todo direito como qualquer accionista que queira vender as participações que tem nas empresas. A abertura do capital em bolsa neste momento não faz parte dos planos da empresa.

Se a empresa tivesse que ser cotada em bolsa qual seria o valor do mercado da Nova Cimangola?

Neste momento não consigo dizer qual é o valor de mercado, porque não faz parte dos nossos planos colocar a empresa cotada em bolsa. A colocação das empresas em bolsa é um instrumento para refinanciar as empresas e abrir o capital das empresas, abrir a possibilidade de se financiarem com outros investimentos que não necessariamente os instrumentos tradicionais, como financiamentos bancários, entrada de novos accionistas, entre outros. Esta empresa de cariz familiar com participações do Estado e a família detentora da maioria do capital não quer abrir o capital em bolsa.

A questão cambial ainda constitui um problema para a Nova Cimangola?

Sim, claro, nós estamos inseridos no mesmo País que todas as outras empresas. O impacto da desvalorização cambial tem na Nova Cimangola exactamente o mesmo impacto que nas outras empresas. Tudo que nós importamos é muito mais caro porque para o mesmo dólar temos de gastar mais Kzs. Grande parte da receita da Cimangola é em Kzs e, portanto, precisamos de disponibilizar muito mais Kzs para comprar os dólares. Nesta perspectiva, a questão cambial é muito penalizadora e os financiamentos da empresa em moeda estrangeira também são penalizados, porque os juros em dólares nos obrigam a despender muito mais Kzs. Para potencializar as exportações a desvalorização da moeda ajudou, porque todos os custos que a empresa tem em moeda nacional, em dólares ficaram mais baixos e aumentou, desta forma, a competitividade da empresa para colocar produtos no mercado internacional. Ou seja, todos aqueles produtos que continuamos a comprar em Kzs e que não sofreram grandes variações de preços em dólares ficaram mais baixos e, portanto, permitiu que a empresa tivesse maior rentabilidade com as exportações.

Que futuro prevê para Nova Cimangola tendo em conta as características do mercado?

A Nova Cimangola quer continuar a ser uma das empresas mais competitivas do mercado nacional e esperamos que o nível de competitividade no mercado nacional possa aumentar por via das privatizações das outras empresas cimenteiras e, portanto, estamos a preparar o futuro da Nova Cimangola para continuar a ser muito competitiva no mercado nacional e internacional. A Nova Cimangola é, provavelmente, a empresa com maior capacidade técnica para desenvolver produtos diferenciadores. Vamos continuar a investir na diversificação dos tipos de cimentos mais ajustáveis aos tipos de obras que existem no País e adaptar os cimentos ao tipo de obras. Pretendemos ter cimentos que são mais adequados para as obras de maior dimensão como pontes, barragens e a desenvolver alguns cimentos mais modernos e que estão agora em evolução no mundo. A nossa meta é tentar introduzir estes cimentos mais modernos o mais depressa possível num espaço de dois anos. Portanto, vamos tentar inovar, diversificar e aumentar as nossas exportações no mercado internacional em produtos produzidos a partir da nossa fábrica e tentar entrar também no mercado de exportação de minérios produzidos em Angola.

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